Festanças e tradições caipiras (II)

Foto: Teixeiraboc/Olhares

Uma das festanças caipiras que começam a desaparecer, sobrevivendo apenas no litoral e sob outras formas, é o “fandango”, cujas origens são controvertidas. Existente em Portugal e Espanha, o “fandango” teria sido herança dos mouros, havendo, ainda, quem afirme ser flamenga a sua origem. É uma dança profana na qual a viola é o instrumento fundamental.

Há o “fandango rufado-bailado”  com batidas de pés e de palmas, que deve começar apenas após a meia-noite, encerrando-se por volta das três horas da manhã. E o “fandango valsado”, conjubnto de danças onde não há batidas de pés ou de mãos, mas o estalar de dedos como que imitando castanholas. São danças que chegam até o raiar do dia.
Fenômeno caipira, no entanto, que desperta a atenção de historiadores e de estudiosos é o Cururu, como dança e como música. O Cururu Paulista ainda sobrevive no Vale do Tietê Médio.
Cururu Paulista
As origens do Cururu são, também, discutidas. Há divergências entre os folcloristas Câmara Cascudo e Alceu Maynard de Araújo. São Paulo, no entanto, adotou a tese de Maynard, que foi corrobada por outro folclorista de renome, João Chiarini. Segundo eles, o Cururu – dança e cantoria popular – sobreviveu de uma adança ameríndia usada pelos jesuítas para a catequese. Assim, seria mesmo dança paulista, diferentemente do Cururu de Mato Grosso que teria origens religiosas mas seguindo a “dança do sapo”, pois “cururu” é o nome do sapo em língua tupi. .
A tese de Maynard e de Chiarini é de que a palavra “cururu” é corruptela da palavra “Cruz”, que os índios pronunciavam “curuce”, “curu”. A repetição da última sílaba é característica das línguas indígenas. Assim, de “Cruz” a “curuce”, a “curu” e, finalmente, a “curu-ru”. A “zona curureira” de São Paulo é, ainda, a do médio Tietê. Através da rota líquida do Anhembi, a dança e a cantoria teriam sido levadas até Mago Grosso, Goiás e Amazonas, onde são conhecidas. Em Piracicaba, um dos lutadores pela tradição do cururu é Abel Bueno (foto), um dos últimos grandes cantadores da região.
Cururu Urbano e Rural
Cornélio Pires popularizou o Cururu ao urbanizá-lo, levando-o ao teatro, em apresentação histórica no ano de 1910, na cidade de Tietê. Tornado urbano, em oposição ao Cururu Rural, a dança foi substituída pela cantoria e movimento de perna para marcação do ritmo. A partir daí, a “zona curureira” passou a ser Piracicaba
Já o Cururu Rural é de roda, dançado diante do altar, nas capelas dos sítios e roças. É característico das Festas do Divino, quando se fazem oratórios e se misturam devoções religiosas e manifestações profanas. O Cururu Rural mantém muito da origem jesuítica, sendo a sua principal característica o pateio: bate-se o pé fortamente no solo, alternando-se com batidas de palmas. O ritmo é marcado pela viola, podendo ser usados, também, o reco-reco e a puíta, espécie de cuíca.
Canturião e canturino
O ritmo do cururu é marcado pela viola cuja afinação é popularmente conhecida como “cebolão” ou  “cebolinha”. A música é em ritmo binário e o canto, a duas vozes. Quando o povo acompanha, pensa-se haver três vozes, mas se trata de um desafio, a “canturia do canturião”, bem popular, folclórico, mas num cantochão muito próximo ao medieval.
O curureiro é o cantador, o “canturião”, que faz o improviso, a “trovação”. E “canturino” é o aprendiz de curureiro, o que está aprendendo. O início da cantoria é dado por um cantor que não toma parte nos desafios, mas que intervém, o “pedreste” (não confundir com pedestre). É o “pedreste” quem dá início às “carreiras”, que são as rimas. Por exemplo: “carreira do ão” (São João, coração, etc.); “carreira da ia” (de Maria), “carreira da us” (Jesus, Cruz.), “carreira do ino” (do Divino).   Em todas as carreiras, com exceção da última, o “curureiro” faz louvação, a narração de um fato bíblico. Sendo de fundo religioso, o cururu não permite, assim, pornografia e palavrões. Mas há muita malícia e sensualidade, especialmente porque os desafiantes se provocam entre si até que um deles se considere vencido. Os aplausos do público são o termômetro da empolgação.

1 comentário

  1. Reinaldo Diniz de Oliveira em 14/10/2013 às 13:50

    Uma tradição importantíssima, pois tive o prazer de ouvir Pedro Chiquito e companhia quando era adolescente, em festas promovidas pelo Sr. João Carrero no bairro Palú em São Pedro. Muito bons tempos.

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