Vida na roça: dureza, doçuras, ingenuidades

Laerte Penna dos Santos, militar muito querido em Piracicaba, nasceu  na região de Itapetininga (SP), numa fazenda do distrito de Monte Alto. Sua vida não teve momentos heróicos, grandes feitos para contar. No entanto, chegando próximo dos 80 anos, Laerte Penna dos Santos registrou, em folhas de papel, todo um estilo de vida que marcou a vida caipira no Estado de São Paulo. São depoimentos quase ingênuos, narrados com simplicidade mas que trazem subsídios importantes para se recuperar a memória de um tempo e de um espaço atropelados por uma perda de identidade universal.

As ligações entre Piracicaba e Itapetininga são viscerais, numa cultura caipira de forte identidade. Nas lembranças de Laerte, praticamente todos os costumes daquela região repetiam-se também na nossa. A roça era um universo pleno de conflitos, de afetos, de vínculos arraigados de uma família nuclear que desapareceu.

O texto que segue são pequenos trechos das longas anotações de Laerte Penna dos Santos:

Como fomos educados

“Fomos educados no regime “patriarcal”. Assim como nossos avós educaram nossos pais, de modo que tudo o que o pai ou uma outra pessoa mais velha falasse não se podia contestar. Não havia diálogo entre pais e filhos. Quase sempre imperava a lei do chicote: primeiro se apanhava e, só depois, era explicado o motivo da sova.

Nós tínhamos como mediadora a nossa querida mãe, que, embora sem intervir nas surras, sempre nos aconselhava como deveríamos proceder. Dizia-nos: “quando um não quer, dois não brigam”, “antes de dar uma resposta, deve-se passar em três peneiras”,  “respeite, para ser respeitado”, “não seja volúvel”,  “pense muito, antes de tomar uma decisão”, “conte até dez antes de dar uma resposta” E muitas vezes nos ensinava, dizendo: – “Os maus não são bons porque os bons não são  melhores. Portanto, procure ser o melhor filho, e,  futuramente,  um homem exemplar, digno de ser imitado”.

E rezava muitas jaculatórias durante o dia, como:¬“Jesus, Maria e José, minha alma vossa é; Jesus, José e Maria assisti-nos na última agonia; Doce Coração de Jesus, sede nossa salvação”.  Na hora de algum perigo, sempre invocava o auxílio de Nossa Senhora Aparecida. E gostava muito de cantar. Sempre que estava só, nós a ouvíamos cantando músicas sacras, como: “ Com minha mãe estarei…; Louvando a Maria…;  Queremos Deus…; Coração Santo…” E muitas outras.

E, com uma voz suave, ela nos advertia para que tudo corresse a contento e não levássemos uma surra, que isso a magoaria muito. Mas isso era quase impossível, pois éramos quatro irmãos, meninos crescendo juntos, com idade de dois anos de diferença um do outro, isto é, de quatro a dez anos e as brigas eram constantes.

À tarde, fazíamos fila para tomar banho  numa grande bacia de alumínio,  onde a minha tia  colocava água fria e um pouco de água quente, e sempre perguntava: “tá bão”? Depois do jantar, antes da oração do terço, pedíamos perdão um ao outro, principalmente se tivesse havido alguma briga durante o dia.

Como brincávamos

No pouco tempo que tínhamos, brincávamos de trem, no cafezal  próximo da casa. Com uma enxada, fazíamos uma trilha entre os pés de café e, com diversos pedaços de vigota, de dez a vinte centímetros, pregávamos grampos, que eram usados para pregar arame na cerca. Amarrávamos um pedaço de arame. Emendávamos um pedaço no outro e, assim, fazíamos os vagões da composição.

Para os vagões de passageiros, eram pregados pedaços de sarrafo nas vigotas, representando os bancos;  os vagões de cargas eram fechados, com pedaços de tábuas, uns na vertical e outros na horizontal e, na frente, para puxar o trem, amarrava-se um pedaço de barbante. Eram quatro trens, cada um tinha o seu, fazia-se um sorteio para ver quem seguia para a direita e para a esquerda.

Tinha até as estações, com um desvio para cruzar os trens, e parada para embarque de passageiros e animais. Os passageiros eram pequenos bonecos modelados com argila e secados no forno do fogão e os animais eram representados com mangas verdes, em que se espetavam quatro palitos para fazer as pernas e dois palitos na frente, que eram os chifres.  Esses animais ficavam em uma mangueira fechada próxima da estação.

Outra forma de brincadeira era a montaria em bezerros, principalmente quando os meus primos,  nossos vizinhos, vinham nos visitar. Separávamos os bezerros maiores das vacas. Recolhíamos na mangueira, e, depois de laçados, passávamos uma corda, fazendo uma barrigueira.  Sempre tirávamos sorte para ver quem montava primeiro. Eu sempre procurava os menores e, mesmo assim, não ficava mais que um minuto em seu dorso. Caía e me ralava todo. Depois, íamos nadar em um tanque, e pescávamos  lambaris e  traíras.

Aos sábados, íamos à mata, onde os meus irmãos mais velhos e meus primos faziam cevas e armavam laços para pegar as juritis e inhambus. E, aos domingos, nos reuníamos em casa, ou na casa de alguns de meus primos, onde jogávamos bolinha de gude, malha ou rodávamos pião. Mas nossas brincadeiras quase sempre terminavam em discussões ou brigas. Foi nessa época que minha irmãzinha  ganhou a sua primeira boneca,  de massa de papelão imprensado. Mas ela gostava mais de brincar com bonequinhas feitas com sabugo de milho, que era enrolado em um cueiro.

  As obrigações

Eram distribuídas obrigações para cada um. A minha tarefa era  logo pela manhã, ir até o pasto, com os pés descalços, na lama, com o tempo de chuva, e, na geada, nos dias frios do inverno, recolher as vacas leiteiras e prendê-las na mangueira contígua ao estábulo. Fechava as porteiras e, depois, recolhia os bezerros no curral.  À tarde, apartava os bezerros das vacas e prendia-os no piquete para eles reservados.

Na parte da manhã,  ajudávamos a levar o almoço para os trabalhadores na roça. Eram enormes caldeirões de feijão, panelas com arroz,  com carne ou com outro tipo de mistura, bules com café, xícaras, pratos e talheres. Esperávamos o pessoal almoçar, trazíamos de volta os vasilhames para serem lavados. E, às 14:30 horas, retornávamos para a roça novamente, levando o jantar. Era uma rotina, de segunda à sexta-feira.

Com seis anos de idade, comecei a ordenhar algumas vacas que tinham a teta mais mole. Muitas vezes, levei coices e chifradas de alguma vaca mais rebelde, no momento de passar a peia em suas pernas.  Uma vez, fui atirado de encontro à tábua do curral, comecei a chorar. O meu pai pegou-me pelo pescoço e jogou-me em baixo da vaca e disse-me: “tem que aprender que não se deve ficar na frente dos chifres ou dos cascos dos animais”.

A morte do vovô

Minha avó tinha retornado de viagem e estava contando o que vira na cidade. Enquanto ela falava, o vovô disse:  – “A comida está pronta. Rasguei umas couves no caldo do feijão. Fritei torresmo e ovos. O arroz está bem quente. Peguem os pratos e sirvam-se.” O vovô colocou a comida no prato, subiu no fogão, sentou em uma tripeça. Depois de jantar, ele desceu do fogão, colocou o prato em cima da mesa, pegou a concha de tirar água da tina, encheu a caneca, dirigiu-se até a janela, como era o seu costume, bochechou e, ao jogar a água da boca, deu um gemido e debruçou sobre o peitoril da janela. Levaram-no para a cama, mas nada puderam fazer. Já estava sem vida.

Nós estávamos jantando em casa. Foi um choque para todos  e, com uma notícia tão  repentina, ficamos paralisados  até que meu pai falou: – “Vamos todos para lá.” Saímos  correndo. Existia um atalho, passando pela caixa d’água,  que encurtava o caminho em duzentos metros.  Quando chegamos, o meu pai foi até o quarto, onde se encontrava a cama em que estava o vovô, colocou um espelho em frente à boca e nariz, para verificar se o vovô ainda respirava. Depois passou a mão na testa e disse. – “Está suando frio. Já está morto.”

Foram chegando todos os parentes. Meu pai falou com os meus tios: – “Vamos nos organizar. Alguém tem que ir à cidade, passar na casa da dos parentes. É preciso trazer  um médico para atestar o óbito. Depois, passar na funerária e trazer um caixão.  Conversou com minha mãe,  e combinaram fazer arroz com frango, café com leite, pão e manteiga.  E foram providenciar a condução para irem à cidade. Era costume, em um guardamento (velório), servir comida e café com pão para todas as pessoas que passavam a noite.

A notícia se espalhou rapidamente e, em menos de uma hora, chegou a Morro Alto. O médico   veio de automóvel e atestou a causa mortis:enfarto fulminante.

Quando meu pai voltou, providenciaram uma bacia de banho para lavar o corpo e vestiram um terno preto, que meu avô tinha guardado e sempre dizia que era com ele que deveria ser enterrado. Depois, colocaram o corpo em uma cama no meio do salão, que fora sala de aula. Colocaram quatro velas acesas. Então, as pessoas começaram a cantar as excelências (oração como os Salmos). Dividiram-se em duas turmas. Uma cantava e outra respondia. Assim passaram a noite.

Fazia muito frio e um de meus tios fez uma enorme fogueira no terreiro para que o pessoal se aquecesse. Fui à cozinha e vi todas as mulheres trabalhando. Umas socavam arroz; outras depenavam frangos e galinhas;  outras moendo café, outras carregando água;  e minhas tias  estavam cozinhando. Ouvi quando uma delas falou:– “A comida não vai dar. Acho que há mais de quatrocentas pessoas.” E a outra respondeu:

– “Não tem importância. Se faltar, a gente cozinha mais.”

Às três horas da madrugada, os primos  chegaram com o dono da funerária, trazendo o caixão. Ele colocou o corpo, arrumou as flores e, quando terminou,  perguntou a hora do enterro,  prontificando-se  a vir com dois carros fúnebres. O enterro seria às 16h. e meu pai  pediu que viesse um carro só para levar as coroas, pois era costume o acompanhamento de enterros ser feito  a pé.

O vovô foi enterrado  no cemitério de Morro Alto, em uma cova ao lado da capela.  O meu pai comprou tinta preta e mandou colocar toda a nossa roupa de uso pessoal para ferver naquela tinta e disse:- “Vamos guardar luto por um espaço de seis meses”. Houve nove dias de reza do terço e ladainhas pela alma do falecido vovô.

A matrícula escolar

No dia 30 de julho de 1.938, fui matriculado, como ouvinte, do primeiro ano, na Escola Mista Rural da Fazenda do Banco. Naquela época, eu tinha seis anos e nove meses. As carteiras eram duplas, com pés de ferro fundido e separação individual. Havia uma  cavidade para colocar o tinteiro, uma ranhura para os lápis e canetas. Sob a carteira, tinha uma prateleira onde eram colocados os cadernos e livros. Ganhamos cadernos, cartilha, canetas com pena, mata-borrão, borracha e lápis.

Fiquei muito contente de freqüentar as aulas, pois era o meu maior sonho. Já havia aprendido em casa com meus irmãos mais velhos a ler, escrever e fazer contas.

A professora dona Izoraide era muito sisuda e exigente. Não ria para ninguém. Muitas vezes, eu a vi batendo com a régua de riscar a lousa, que media um metro de comprimento por dez centímetros de largura, na cabeça de aluno que não prestava atenção na aula e quando um aluno tinha dificuldades em assimilar uma matéria. Ela, depois de explicar novamente, puxava uma orelha e dava um coque na cabeça e prometia que, se continuasse não prestando atenção, ficaria de castigo na hora do recreio, decorando a tabuada, ou fazendo a lição que tivesse mais dificuldade em assimilar.

Ao toque da sineta para iniciar a aula, formavam-se filas de três alunos, por série, e, ao receber ordem para entrar, primeiro saía a coluna do meio, em seguida a da direita e, por último, a coluna da esquerda. Passava-se pela professora que ficava postada próximo à porta da entrada e a cumprimentava. Depois ia-se até a sua carteira, erguia-se o assento e aguardava a ordem que era a seguinte: persignar-se, rezar um Padre Nosso e uma Ave Maria e o Glória ao Padre, ao Filho e ao Espírito Santo, Amém.

E, após, cantava-se um hino que a professora indicasse: o Hino Nacional, Hino à Bandeira  ou Hino da Independência do Brasil.

2 comentários

  1. Lairton em 03/08/2013 às 20:18

    Muito simples e humilde o povo do sertão. Fico muito admirado em ver como as pessoas nas décadas de 20 até 70/80 viviam, sem nenhum recurso moderno, sem nenhuma mordomia e mesmo assim com muita Fé em DEUS conseguiam levar a vida, com muito respeito e amor familiar. Deixo uma frase para reflexão: ''Se olharmos para trás, temos o exemplo para os dias de hoje. Hoje temos tantos recursos, tantas modernidades, e os principais nos faltam: Amor, Respeito e algumas vezes FÉ.

  2. Anivaldo Jacinto da Silva em 18/04/2015 às 23:08

    Nasci em Muniz freire ES em 1947. fui criado no município de Iúna bem perto da divisa com Muniz freire. O córrego até hoje tem o nome de terra corrida. nunca foi dado explicação porque do nome terra corrida. Uma época que não tinha estradas naquela região, e os transportes de qualquer tipo de mercadorias era feito em lombos de animais. A principal fonte de renda era o café. naqueles tempos as lavouras de café eram plantadas em carreiras morro acima, que se dava o nome de carreira. Se plantava milho, feijão,mandioca,banana,abóboras,inhame,taioba e outras coisas, mas o forte mesmo era o café.
    era todos de pé no chão,dificilmente alguém andava calçado. me lembro muito bem como era a vida naquele tempo, feijão jamais poderia faltar, canjiquinha, ou como é chamado aqui na cidade quirela, arros só os dias de domingo, e o famoso angu, fubá cozido na água, e chamado pelos italianos de polenta.
    carne só quando matava um porco gordo e como se falava capado. Era frito separado a carne do torresmo, e guardado também em recipientes diferentes, A banha que produzia a gordura “óleo” é que produzia o torresmo.
    Primeiro a gente comia a carne, e depois o torresmo, sempre esquentando as porções adequada para o almoço e para a janta. Na região tinha uma igrejinha e tinha também uma venda, quer dizer; armazém, onde era o ponto de encontro dos moradores da região, principalmente nas rezas do mês de maio chamados de mês de Maria.
    Os términos das rezas diárias terminavam com festas e fogueiras na noite véspera de santo antônio, do dia 12 para 13 de junho. A região é montanhosa com pedreiras pra todos os lados, e alguns fazendeiros criavam cabritos soutos nas serras e os bichos ficavam pra lá, acabavam ficando selvagens e nós reunia muitas pessoas para ir na pedreira pegar cabrito, era todo mundo descalço, a sola dos pés era tão cascuda que era muito difícil a gente se machucar.
    hoje tenho 67 anos e moro só em São Paulo a quase 50 anos, mas tenho grandes saudades da minha infância por lá, mesmo com um grande conforto que as cidades nos oferece e com a modernidade de agora a gente não esquece a terra onde nasceu.
    tenho nítida lembrança da minha primeira namorada que até hoje me lembro daqueles cabelos compridos que era proibido pelos pais cortar. O seu nome; Maria Nazaré.
    meu primeiro beijo no rosto, nunca na boca. O respeito tanto dos pais como dos dos amigos eram supremo, Meu pai era tocador de sanfona de oito baixos e na região era um dos poucos tocador de sanfona chamado para tocar nos bailes, principalmente nos finais das colheitas de café. nos bailes se preparava muitos comes e bebes, como broa de fubá biscoito de polvilho e muito café, isto era a vontade a noite toda.
    Quando o pai ou a mãe olhava de lado para o filho ele já sabia que algo estava errado, e pronto, nem um pio. É lógico, se fosse comentar a vida na roça daqueles tempos os caracteres disponível seria fichinha, então vamos parar por aqui, enquanto a saudade não nos mata.

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