A lenda da noiva do rio

Rio Piracicaba Foto: Jefferson/Olhares

Conta-se que o rio Piracicaba era belo e calmoso, sem corredeiras, como se fosse um remanso. Às suas margens, moravam pescadores brancos e índios. Viviam em paz. Mas, vinda não se sabe de onde, apareceu uma jovem de “cabelos longos e tão negros que parecia ter-se, numa noite escura, diluído em fiapos mil para adornar-lhe a cabeça. Lábios carnudos, vermelhos como a romã, pernas longas e bem torneadas, olhos verdes como o verde das folhagens. Seu nome, ninguém nunca o soubera, como, também, nunca souberam onde morava e do que vivia.”

Dizia-se que ela, como uma deusa, surgira das águas. Quando não aparecia, pescadores tomavam de suas canoas e iam em busca dela, do som que vinha das entranhas do rio. Forasteiros começaram, também, a aparecer na povoação querendo a jovem misteriosa. Os homens se apaixonavam por ela, as mulheres odiavam-na. Certa manhã, a povoação de Piracicaba acordou em sobressalto. O filho de um dos pescadores, o mais bonito – de “pele trigueira, cabelos de ouro” – havia desaparecido. Procuraram-no nas matas, ao longo do rio, gritaram seu nome. Não o encontraram. Mas perceberam que algo estranho acontecera: havia mais luminosidade no ar, mais perfume, um “ar doce e almiscarado”.

Então, numa certa manhã, aconteceu o horror. O rio corcoveou, o céu se fechou, os pássaros, pacas, veados fugiram, estrondos cortaram os ares. E, de repente, tudo silenciou. O rio ganhara uma cachoeira enorme, espumas e roncos que, de quando em quando, se transformavam em gemidos. Daí, soube-se o que acontecera: o rio, enciumado com o amor da moça pelo belo rapaz, desafiou-o para uma luta sem fim. E rio e homem lutaram pela mulher que ficara prisioneira no fundo das águas. O rio venceu. E foi por isso que ganhou a cor que tem, que não é de barro, mas do “trigueiro do corpo do rapaz”.  O gemido do rio são soluços da jovem à espera do seu amor.

Até hoje, quando alguém morre nas águas do rio, sabe-se que morreu em busca da noiva enclausurada. O rio reage sempre. E manda avisos: se alguém morre, a enchente vem. E somente se vai quando outro apaixonado morre em busca da noiva que está presa nas pedras do Salto. Pois foi desse amor que nasceu o Salto do rio Piracicaba.

* Esse texto, do autor, foi publicado, na íntegra, na Antologia do Folclore Paulista, Editora Literart, 1959.

2 comentários

  1. bru fonseca em 10/08/2014 às 09:23

    muito sinistro kaaraa!!!!!!!!!!!!!!!!

  2. Teresinha Oliveira dos Santos em 03/08/2016 às 07:58

    Muito bom. Adoro contar essa lenda para meus pequenos na escola. Cada vez que conto eles me surpreendem com comentários que me alegram e me estimulam mais a contar histórias.

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