Batuque, negros libertos, tambu.

A dança dos negros em lugares públicos, após a Abolição, se tinha a reação adversa das elites piracicabanas, passou a ser, para o povo, uma grande festa popular. O já citado Francisco de Assis Iglésias narra o que era aquele “batuque”, que ele se recordava como fascinador:

“Ao lado de enorme fogueira, um ou 2 carros de lenha, arrumada em pirâmide, ardiam crepitantes gravetos e toras de mata virgem. Os dançarinos, todos adultos, os homens com os dorsos nus, só de calças; e as mulheres, de saia, com o busto, como dizem os norte-americanos, cobertos com camisa tipo baiano, suando em bica. Os tambores, geralmente, eram três: dois pequenos, de uns 10 a 12 centímetros de diâmetro e um grande de 20 a 25 centímetros. O grande, tambu, marco o ritmo e os pequenos fazem o floreio. A voz do grande, à noite, ouve-se a distância incrível, principalmente se estão localizados perto de rios.

Vai começar o batuque da umbigada: os tambus (toras de pau perfuradas de topo a topo, deixando, propriamente, para o tambu uns três centímetros de borda, como se fosse um gomo enorme de bambu gigante; num dos topos, o mais largo, colocam o tampo de couro cru, que é convenientemente tratado para isso (…) os tambus começam a cochinar; um ex-escravo, com maneiras de diretor de festa, arranca da fogueira um tição em brasa e, sem a menor cautela deste mundo, abaixa-se e, dizendo em voz alta, passando o tição nos pés dos dançarinos, homens e mulheres: “abre roda, abre roda, minha gente, pra podê dançá.”

Os tambores mandam suas vozes livres para os ares. O chefe, chamemo-lo assim, com mais alguns, corre a roda dando música e anuncia a próxima cantoria que é repetida até dizer chega: “o dia vem, passarinho tá cantando, o dia vem, passarinho tá cantando.” Os tambus, num ritmo que pega fogo e bole com todos os músculos do corpo: tum, turum-turum, tum, turum-turum, tum, turum-turum.” Dos dançadores, um homem sai do meio da roda, dá passos cadenciados, aproxima-se da dama, faz uns requebrados que lembram os do galo ao rodear a galinha. Então, os dois corpos se encontram com certa violência – umbigo contra umbigo. Quando a mulher é forte, chega a derrubar o homem. Neste caso, uma vai tremendo coroar o feito. Os casais, depois de meia dúzia de umbigadas, separa-se: o parceiro fica na roda e o outro, homem ou mulher, sai, saracoteando a procurar outro parceiro. Já cantaram e dançaram horas e mais horas e, para variar, é lançada nova toada: “Ô, nhô Raço (quer dizer Horácio), aperta o pé que a pintada (onça) vem no rasta; ô Jeremia, aperta o pé que a pintada vem na trilha.” E assim, escurece e amanhece. Não comem, só bebem pinga. Alguns chegam a morrer de inanição, outros de facadas.”

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