Benzeções, bruxas e benzedeiras.

Um dos mistérios mais atraentes e respeitados da cultura popular são as benzeções. Benzer significa, antes de mais nada, abençoar. E o ato de benzer acompanha a humanidade desde os seus primórdios, quando, através do benzimento, se pedia a proteção dos deuses. A mesma súplica acompanhou todas as culturas, em todos os tempos, sob as mais variadas formas.

No Brasil, há diferenciadas maneiras de benzimentos e benzeções, entre as mais diversas religiões, mas especialmente nascidas da fé de um “catolicismo popular” que nem sempre foi aceito pela própria Igreja Católica. No mundo rural, as benzeções e benzimentos nasciam da fé simples dos moradores da roça que acreditavam nos poderes sagrados de padres, de capelães, das benzedeiras, dos rezadores e rezadoras de terço, incluindo parteiras. A partir dessa cultura rural, a benzeção se estendeu ao cotidiano dos brasileiros de forma que pais benzem filhos, os mais velhos benzem os mais jovens, padrinhos benzem afilhados, esportistas se benzem antes dos jogos, pessoas se benzem quando passam diante de igrejas ou de cruzes, benzem-se quando tem medos e receios. Há benzeções, também, para afastar os maus espíritos, benzeções que funcionam como exorcismos.

Na cultura brasileira, as principais fontes de benzeções são: a católica, dos médiuns de umbanda e candomblé, do kardecismo, do esoterismo, das mais variadas formas de pentecostalismos. No universo caipira, as mulheres benzedeiras são tratadas com respeito e, também, com medo, pois são vistas como pessoas íntimas do sagrado. E, por isso mesmo, carregam, em seu ofício, muito da incompreensão que acompanhou as benzedeiras da Idade Média, que foram tratadas como bruxas. Pois se, antes, eram tidas como bruxas e sacrificadas na fogueira, ainda hoje são vítimas de outras formas de perseguição: da medicina oficial, que vê, nelas, “médicas curandeiras”; pela psiquiatria, que as vê como loucas e, também, por igrejas, que as vinculam aos demônios. Mas são mulheres amadas e respeitadas pelas populações mais pobres, periféricas e na zona rural.

Em Piracicaba, as benzedeiras sempre foram queridas pela população. A mais famosa, talvez, tenha sido Dona Carolina, na Vila Rezende, que conhecia benzimentos para quase todos os males, desde verrugas até dores de barriga.

 Algumas benzeções

Há um folclore quase inesgotável narrando as mais variadas formas de benzeções que correm o Brasil. Em São Paulo e Minas Gerais – onde esse universo caipira ainda se mantém de forma respeitosa – as “benzedeiras” tradicionais são respeitadas e requisitadas. Elas “benzem” doenças, enfermidades, machucaduras e mantêm vivos um diferenciado “catolicismo popular”. São conhecidas, por exemplo, as “benzeções” de cobreiro, de espinhela, contra mordedura de cachorro, e “benzimento” de “quebrante, mau olhado e zóio ruim”.

Para afastar “mau olhado, quebrante e zóio ruim“, a “benzeção” é a seguinte:

“Com dois eu te vejo,

três eu quebro encanto,

a palavra de Deus

e a Virgem Maria é quem cura

  Quebranto, mau-oiado e zóio ruim.

Leve o que trouxe

Deus, benza (o nome da pessoa) com a Santíssima Cruz.

Quem está fazendo ferro? Eu sou aço.

Quem está fazendo é o demônio

e eu vos embaraço com os poderes de Deus, Jesus e a Virgem Maria.”

  Para benzer espinhela caída:

“Jisuis Cristo quando andô no mundo

treis coisas ele levantô: arca, vento, espinhela caída.

Assim eu peço a vós que levante esta arca pelo amor de Deus.”

  A “benzeção” na cidade

Com a rapidez da urbanização nas cidades brasileiras, costumes rurais instalaram-se nelas, especialmente nos bairros periféricos. As “benzedeiras” continuaram o seu ofício, estendendo, agora, “benzeções” para bons negócios, para coisas de amor, para afastar o azar. As correntes católicas, umbandistas, kardecistas, pentecostais espalharam-se e continuam tendo adeptos. A recitação do Pai Nosso foi incorporada a quase todas as “benzeções” cristãs, bem como a imposição das mãos. Ao mesmo tempo, surgiram os banhos de ervas, de pétalas de rosas, uso de sais, de pirâmides, de cristais, de alimentação diferenciada.

O esoterismo, que passou a ser habitual nos salões mais refinados, é outra face das “benzeções” e das “benzedeiras” que são alicerces fundamentais da cultura popular brasileira.

1 comentário

  1. Patricia Luz Holanda em 30/09/2016 às 15:45

    Tenho um profundo respeito e admiração pelas Benzedeiras que representam a Sabedoria Ancestral de nossas avós!!!!

Deixe uma resposta