Retrato das tradições piracicabanas: O Cavalo do Nhô Felix.

A história a seguir aconteceu lá pelos anos 20. O registro é do Semanário A PROVÍNCIA, do ano de 1989.

Nhô Felix foi uma figura heróica. Foi uma figura humana, viveu pelo sopro lírico que anima os homens de boa vontade…Filho da roça, não recebera como herança a majestade dos grandes paüs-d’alho, mas era uma boa alma, um coração de criança, em corpo adulto. Vivia, com certa tranquilidade no seu pedacinho de terra, a umas quatro léguas da cidade.

Cegamente confiando sempre no próximo, estava a todo o momento pronto para servir quem quer que fosse.  Entre todos estes atributos, Nhô Felix era dono do único cavalo de sela de toda aquela redondeza em volta de seu rancho.

A quadrinha retrata a sabença popular:

“Espingarda de caça,
Cavalo de raça,
Mulher de estimação,
Não se empresta não”

A “Lei de Cavalaria” na Idade Média rezava:

“Cada cavaleiro com suas armas, seu cavalo e sua dama”.

Porém, Nhô Felix não era lá muito devoto dessa reza. Seu alazão, emprestava-o a todos quanto dele tinham necessidade de vir a Piracicaba. Assim foi, até que, o cavalo de Nhô Felix, tornou-se conhecido no município.

Na estrada poenta, que dava entrada à cidade, apontava o cavaleiro, os do arrebalde, curiosos, comentavam: – De longe, não dá prá ver quem é, mas, a montaria é o cavalo do Nhô Felix…

E, como não podia deixar de acontecer, o alazão tornou-se “Casa da Mãe Joana” – Onde todos têm domínio, vontade e liberdade. Podem por e dispor, mandar e desmandar, usar e abusar.

Então, se alguém pretendia sobrecarregar outrem de uma tarefa, logo vinha a contestação:

-Você está pensando que eu sou cavalo de Nhô Felix?

Naqueles idos, o Brasil vivia sob o quadriênio de Artur Bernardes, que governava, estando o país em estado de sitio. No norte, o governo sufocava movimentos de insurreição, contudo não era capaz de fazê-lo com a mesma presteza em São Paulo, onde oficiais de guarnição federal, unidos a uma parte da Força Pública, tendo a frente o Major Miguel Costa, obrigaram o presidente do Estado, Carlos de Campos, abandonar o posto e refugiar-se. O estado maior revolucionário comandado por Joaquim Távora, confiou a direção do movimento a Isidoro Dias Lopes, general reformado e veterano da Revolução Federalista.

A cidade de São Paulo foi o cenário da luta durante 23 dias (05 a 28 de julho de 1924). Depois, os revolucionários bateram em retida a encontro dos companheiros sublevados, que vinham do Rio Grande do Sul. Era formada a Coluna Prestes. Este movimento revolucionário se liga aos “18 de Forte de Copacabana”, opunha-se ao sistema eleitoral, o qual não representava a vontade popular.

Ora, depois de vencida a revolução, o Governo deu início a uma onda de perseguições, provocando como conseqüência o fortalecimento da oposição.

Aproximavam-se as eleições municipais. O poder em Piracicaba estava nas mãos governistas e eles usavam de todas as benesses da administração na campanha eleitoral.

A prefeitura possuía um fordinho, o único para o uso do serviço público, que passou a transportar “de cima para baixo e de baixo para cima” os cabos eleitorais do partido governista. Diante desse fato, a oposição, por sua vez, não teve dúvida em fazer a denúncia pública:

– O automóvel da prefeitura não é cavalo de Nhô Felix, não pode ser usado na campanha do Governo. Isso é peculato, é corrupção, crime praticado contra a coisa pública.

A denúncia estourou como bomba. Cada vez que o fordinho cruzava pela cidade, a oposição dizia:

– Propriedade municipal não cavalo de Nhô Felix..

A piada caiu no gosto popular. Era o fordinho passar e a criançada sair correndo gritando:

– Cavalo de Nhô Felix, cavalo de Nhô Felix!

A coisa chegou a tal ponto que o alcaide piracicabano, Fernando Costa, foi obrigado a por fim no abuso.
As eleições foram vencidas pelo partido de oposição. O fordinho foi aposentado e o cavalo de Nhô Felix morreu, mas a expressão popular, a frase “não sou cavalo de Nhô Felix” permaneceu por muito tempo.

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