“Anos de chumbo”: tortura em Piracicaba (1)

download (19)Ditadura: o terror invadiu Piracicaba

Cecílio Elias Netto

Chegamos ao cinquentenário do golpe militar de 1964. A princípio, muitos acreditaram tivesse sido necessário, dado o caos governamental no Brasil. Era um tempo em que, a cada crise, parecia haver um consenso popular: “Chamem o Exército para resolver a bagunça”. Pois o Exército era uma das mais respeitadas instituições nacionais. No entanto, no seio dele, havia golpistas históricos que, desde 1922, tentavam dominar o Brasil. Foram os responsáveis, em 1954, pelo suicídio do Presidente Getúlio Vargas, tendo como um dos seus principais porta-vozes o grande tribuno e jornalista Carlos Lacerda.

A sanha de poder cresceu com a renúncia do Presidente Jânio Quadros em 1961. Jânio tinha sido a esperança dos golpistas e ele próprio, ao renunciar, nada mais fizera do que tentar dar um golpe nas instituições. Seu sucessor constitucional era o vice-presidente João Goulart. Parte do Exército e os áulicos tentaram impedir a sua posse, considerando Jango Goulart um perigo nacional, tachando-o de comunista. No entanto, Jango era um grande latifundiário gaúcho, de fortuna imensa que, singelamente, usava medalhinha de Nossa Senhora no peito. Sua ideologia era apenas a de seguir o ideário trabalhista de Getúlio Vargas. Tratava-se, no entanto, de um político populista mas incompetente.

Sempre com a voz tonitroante de Carlos Lacerda – e com o apoio dos Estados Unidos, de empresários e das alas políticas mais conservadores – João Goulart foi derrubado pelos militares no dia 1º de abril de 1964. A data 31 de março – quando começaram as escaramuças – foi fixada apenas para não dar margem a piadas e zombarias quanto do 1º de abril, “Dia da Mentira.” Os militares chegavam, enfim, ao poder. Instalava-se a ditadura no Brasil, quando se esperava que a presença militar dar-se-ia apenas por pouco tempo. E, então, começou o terror, o horror, a derrocada da democracia, a perda das liberdades, a violência oficial.

Piracicaba festejou o golpe militar, não há como ou porquê negar. Nossa realidade política era complexa, paradoxal, contraditória. Para se ter uma simples avaliação, a UDN – que era o partido ultraconservador do Brasil – era, em Piracicaba, o partido dos sindicalistas, com tendências à esquerda, tendo como líder o também populista Salgot Castillon. Sindicalistas pertenciam à UDN ou a partidos correlatos. Contra o golpe militar, houve poucas reações. E tenho o orgulho de poder contar que a “Folha de Piracicaba” – do qual fui diretor e, em seguida, proprietário – foi uma das poucas forças a reagir contra o golpe.

Pagamos um preço altíssimo por isso. E, depois, ao me tornar um dos proprietários de O DIÁRIO, a mesma linha jornalística se manteve. De oposição, de enfrentamento, num jornalismo que – hoje, reconheço – tinha muito de suicida. N´O DIÁRIO, rebelamo-nos contra a edição do AI-5, quando verdadeiramente se instalou a ditadura violenta e sanguinária. Fomos os primeiros a reagir, deixando em branco as nossas principais colunas. E isso, muito antes de o “Estadão” e o “Jornal da Tarde” publicarem poemas de Camões e receitas de bolos em matérias censuradas. Foi uma luta de anões contra gigantes. Mas consciente.

Em 1972, chegou a Piracicaba um investigador de polícia conhecido como Lazinho. Sua fama o precedia. Tinha sido da equipe do odioso Sérgio Paranhos Fleury. E, em nossa cidade, passou a liderar e a espalhar o terror. Nada o detinha. Nem delegados, nem promotores públicos, nem juízes, nem políticos. Lazinho montou uma quadrilha com outros investigadores, formando parceria também com alguns advogados. E a tortura institucionalizou-se em Piracicaba. O horror e o terror. As vítimas – não tendo mais a quem apelar ou de quem socorrer-se – buscaram, n´O DIÁRIO, proteção e acolhida. Cumprimos –praticamente sozinhos – o dever de ajudá-los e de denunciar aquela tragédia social. Tivemos o apoio da Igreja Católica e do saudoso advogado Marcos de Toledo Piza. Prostitutas refugiaram-se nas dependências d´O DIÁRIO, fugindo à sanha assassina de Lazinho e seus asseclas.

Ao chegar, o golpe militar, aos 50 anos, decidimos divulgar, aqui n´A PROVíNCIA, a longa série de depoimentos de vítimas dos “ditadores de esquina” que se instalaram em Piracicaba. São depoimentos dolorosos, pungentes, dramáticos, que machucam corações. A nossa decisão de fazê-lo é para alertar os que – candidamente – não conheceram aquela trágica realidade e ainda pensam em regimes de exceção. Para nós, aqui e também, o brado é um só: “TORTURA, NUNCA MAIS!”

São transcrições – que mantive em meu acervo – dos dolorosos depoimentos então publicados n´O DIÁRIO a partir daquele malfadado ano de 1972.

Regina Célia, a primeira

Eu, Regina Célia Ferreira Carvalho, tendo já prestado minhas declarações a O Diário e à Justiça, tenho a informar, ainda, o seguinte:

– na noite de 3 de junho de 1972, às 20,30 hs., estando eu no Jardim Brasil, onde resido, fui procurada pelo investigador Lazinho, que se fazia acompanhar do investigador Dore;

– o investigador Lazinho quis saber quem me mandaram ir a O Diário apresentar as denúncias, quando eu disse que fora “por conta própria”, dizendo ele não acreditar nisso;

– então, o investigador me perguntou se eu sabia que seria chamada pelo Juiz para depor (ele não sabia, ainda, que eu já fora ouvida); eu disse que não sabia e, então, ele me disse para tomar cuidado com o que eu fosse falar, porque, depois de tudo terminado, conforme o que eu dissesse para o Juiz ele iria preparar um processo contra mim;

– e ele completou: “Não pense que eu tenho raiva de você; eu tenho pena, porque, quando isso tudo terminar, eu vou preparar um bom processo contra você.” Queria saber se eu tinha feito exame de corpo delito.

A verdade é que eles foram em minha casa para me intimidar, não sabendo que eu já fora ouvida pela Justiça.

Assumo a responsabilidade por essas declarações.

Piracicaba, 3 de junho de 1972

Regina Célia Ferreira de Carvalho

 

O martírio de Ademir

 Eu, Ademir Antonio Cantão, brasileiro, 24 anos, residente à rua Bernardino de Campos, nº 1881, tenho a declarar o que segue, fazendo-o de minha livre e espontânea vontade

– no mês de maio, não me recordo mais o dia, mas sei que foi antes do dia 30, já que passei o meu aniversário na cadeia (meu aniversário é dia 30), tinha chegado de São Paulo, onde trabalhava, quando, por volta das 20 ou 20,30hr., me encontrei com os investigadores Galo e Dore (Fubá), que estavam numa perua vermelha e branca; eles me disseram que eu tinha que ir até a Delegacia, fazer uma declaração para o Delegado e que, em seguida, eu seria solto;

– chegando à Delegacia, eles me mostraram ao Delegado, dr. Cella, e me mandaram para uma solitária, totalmente escura, com ventilação que entra apenas por baixo da porta e onde só se consegue ficar de pé, ou sentado, com uma privada no chão, sem descarga; lá fiquei cinco dias, praticamente sem comer, já que a comida que me davam era restos dos outros presos, que me era dada porque o faxineiro ficou com pena de mim;

– depois de cinco dias, me puseram na cela correcional (no “corró”), ficando mais quatro dias preso;

– já estava nove dias preso, quando o Lazinho apareceu e me chamou, dizendo que “eu tinha muito para dizer para ele”, levando-me para um quartinho, no porão da Delegacia; lá, ele começou a perguntar coisas de que eu não sabia, sobre um latrocínio; dava-me bofetões e disse que se eu não falasse seria pior para mim; como eu não tivesse nada para contar, ele me pendurou no “pau de arara”, tirando minhas roupas e deixando-me nu, durante uma hora no “pau de arara”;

– aí começou o meu martírio: o Lazinho, na frente do Fininho, começou a jogar água, com uma canequinha, dentro de meu nariz, batia com a lamina de um podão na sola de meus pés, dava choque, com um fio elétrico de uma maquininha, no meu corpo e nos meus órgãos genitais; eu pedia pelo amor de Deus para que ele parasse e o Lazinho me dizia que só pararia se eu contasse o que ele queria; quando eu estava quase desmaiando, ele percebeu e me tirou do pau de arara; eu não aguentava ficar em pé e, então, o Lazinho e o carcereiro me levaram para o “corro”; o Lazinho me disse que eu não contasse o que ocorrera comigo para ninguém, senão eu ficaria preso novamente; durante mais 15 dias eu fiquei no “corró”, não sabendo por que eu estava preso, sem que nenhum Delegado aparecesse e ninguém me explicasse nada; nos primeiros dias, eu passei muito mal e os presos é que me ajudavam, dando-me água e deixando restos de comida para eu comer; quando eu estava fisicamente melhor, o carcereiro e o investigador Décio me levaram até a presença do dr.Messias e do Lazinho, que me interrogaram sobre tóxicos e sobre a morte de um motorista, exigindo Lazinho que eu citasse o nome do Valdir como responsável pela morte do motorista; como eu não sabia nada, o Delegado me liberou e o Lazinho, quando eu saia, me deu 24 horas para eu sair de Piracicaba, senão me prenderia todas as vezes que me encontrasse;

– depois de uns dez dias, num sábado à noite, estava junto com um colega, em frente à Igreja da Paulicéia, quando o Lazinho, Galo, Maquinista, o jornalista Tuca, me abordaram; o Lazinho me algemou e o Galo me revistou, me deixando nu em plena rua; depois, puseram a roupa em mim, me levaram para a Delegacia novamente e lá fiquei mais doze dias; quando fui libertado, me perguntaram de novo sobre aquele creme e o Lazinho disse que eu “estava demais na cidade” e que fosse embora, senão acabava, ou melhor, estava sujeito a tomar um tiro dele, se continuasse na cidade; outro dia (dia 3 de junho), ele, o Lazinho, me viu na casa da Mazola e me tocou de lá, dizendo, “cachorro, sem vergonha, suma daqui.”

É o que tenho a declarar, assumindo a responsabilidade das declarações.

Piracicaba, 4 de junho de 1972

Ademir Antonio Cantão

(CONTINUA)

 

4 comentários

  1. toni em 10/03/2014 às 21:21

    Tortura condenável sempre. Infelizmente não é exclusividade de ditaduras no Brasil. Mas teria havido natureza política nos dois casos?

    • Cecílio Elias Netto em 11/03/2014 às 00:57

      Qualquer tortura é, antes de mais nada, um atentado à dignidade humana, Toni. Antes de ser uma questão política, é de ordem ética. E, basicamente, também se trata de política, por ser, esta, uma atividade nobre, pois busca o bem comum. Se está denegrida, o fundamento tem que ser recuperado. E qual a importância de “tortura não ser exclusividade no Brasil”? Ela é abominável em qualquer tempo ou lugar. Filosofar sobre isso é abrir espaço para que tudo se repita. Abraço.Cecílio

      • Carlos A.A. Campos em 11/03/2014 às 11:07

        Não podemos nos esquecer dos milhares de “Amarildos” que são torturados, mortos ou “desaparecidos” diariamente pelas polícias do Brasil. Houve uma reportagem de dias atrás que estimou só nos anos recentes em torno de 40.000 essas vítimas, então denominadas de “Amarildos” naquela matéria investigativa e reveladora. Há ainda por aí muitos “Lazinhos” a praticarem as mesmas barbáries. Com a imprensa livre e um jornalismo investigativo podemos avançar na denúncia dos abusos cometidos por criminosos disfarçados de autoridades. É a vigilância necessária para a nossa civilidade. Não há mal nenhum em filosofar profundamente para que isso não se repita, já que se repete com tanta frequência a violência nos meios policiais. Além de filosofar é preciso denunciar, assim como na corajosa e contundente matéria acima.

  2. Eloah Margoni em 18/03/2014 às 12:20

    O que dizer, Cecílio ? Chorar apenas. Chorar. E admirar sua coragem!! Precisaríamos de muitos mais Cecílios em Piracicaba

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