“Anos de Chumbo”: tortura em Piracicaba (2)

pau de arara 4A dor de lembrar

Cecílio Elias Netto

A cada depoimento que volto a ler – ainda que mais de 40 anos depois – a indignação revira-me o estômago, machuca-me a alma. Como foi possível tudo isso ter acontecido, com o silêncio e a covardia da maioria de um povo? Quando me lembro da presença constante do psiquiatra João Carlos Forastieri – indo a O DIÁRIO para acompanhar testemunhos e atender as vítimas – não apenas me comovo, mas relembro das poucas pessoas que arriscaram indignar-se, protestar, mesmo ao risco de, também, tornarem-se vítimas.

O maldito Lazinho – e, até o fim, insistirei nesse qualificativo – chegava a passar diante d´O DIÁRIO, num jeep e acompanhado de mulheres, exibindo seu fuzil, com ameaças ostensivas de quem sabia estar protegido pela impunidade dos ditadores de plantão. Investigadores, policiais, advogados tornados comparsas fortaleciam-se com a tibieza do Ministério Público, que usava de argumentos frágeis para não denunciar os criminosos.

Lazinho, o maldito, criou um esquema de tráfico de drogas tendo, como centro de distribuição, a zona do meretrício, então no Jardim Brasil. Lá, ele obrigava prostitutas e viciados não apenas a distribuir e vender drogas, mas a preparar flagrantes criminais para aqueles que, em seguida, seriam vítimas de extorsões ou de torturas.

Amigos perguntam-me, agora, o porquê de eu retirar – do fundo do baú – essa sujeira toda, essa barbárie que deu início, em Piracicaba, ao ciclo das drogas. Não preciso explicar nada. As vítimas falam por mim, por todos nós. Os jovens – que pensam em romantismo durante a ditadura – precisam ser despertados para lutar por uma nova democracia, mais verdadeira, mais justa, mais decente. Por mais violentada esteja, a democracia – como disse Churchill – “é a pior forma de governo imaginável, à exceção de todas as outras que foram experimentadas.”

Esses terríveis depoimentos – por mais que nos doam e perturbem – devem ser estímulo para o “Nunca Mais”. Publicá-los novamente, é nossa esperança.

 

 Antonio Ciancie: podão na sola dos pés

Eu, Antonio Ciancie, solteiro, 29 anos, residente à rua São João, 453, declaro, para que o jornal “O Diário” divulgue, a bem da Justiça, o seguinte:

No dia 4 de junho, por volta das 23,30 horas, fui detido por investigadores da Delegacia de Polícia, juntamente com José Carlos de Mello. Estávamos na praça José Bonifácio, parados, ouvindo música que vinha do Clube Coronel Barbosa, quando um carro da marca Ford-Galaxie, cor escura, parou, dele descendo cinco ou seis homens, que eu não conhecia e posteriormente fiquei sabendo o nome de três deles: Lazinho, Dore e Galo. Os homens se dirigiram ao meu colega, perguntando o seu nome. Resposta: José Carlos de Mello. Quem perguntava era o investigador Lazinho, que queria saber também o apelido de José, recebendo por resposta: “Zé Pretinho”.

Em seguida, dirigiu-se a mim; mandando que eu me desencostasse da parede. Perguntei quem eram, recebendo por resposta: “Somos da Polícia”. Não me preocupei, mas assustei-me quando algemaram o Zé. Logo vieram para o meu lado, algemando meus pulsos. Disse que não precisavam algemar; eu não tinha nada a esconder e iria com eles sem qualquer problema. Mandaram que eu não fizesse escândalo e entrasse no veículo. Próximo estava o Ariovaldo José, da Rádio Difusora, sendo que o Zé pediu a ele que entrasse em contato com o Reginaldo Perina, para que fosse providenciado um advogado. Aprovei para pedir ao Ariovaldo que avisasse meu pai. Em seguida, fomos levados para a Delegacia, sendo durante o percurso me chamaram de “Cartolinha”. Retruquei, dizendo que não era o “Cartolinha”, com que tenho pouco relacionamento. Na Delegacia, examinaram os braços do Zé, nada encontrando; tirei o blusão que usava, examinaram os meus braços à procura de marcas de injeções, e nada encontraram.

Logo em seguida, fomos mandados para a solitária, sem qualquer registro de ocorrência; nem mesmo nossos nomes e endereços foram tomados. Meu pai foi para a Delegacia por volta da meia noite e meia. Falaram que eu já havia sido solto. Ouvi quando disseram isso, mas não sei quem falou, pois estava na solitária. Depois de uma hora, ou duas horas, quem sabe?, a porta abriu-se e fui chamado. Pensei que ia ser solto, porém o carcereiro, talvez um soldado pois não conheço os guardas, ou melhor, retificando, quem me levou da solitária foram os investigadores Lazinho, Galo e Dore. Pensei que ia ser solto, porém levaram-me para um quartinho, espécie de banheiro, quase um porão, à direita da carceragem. No quarto, fui submetido a um inquérito. Os investigadores queriam saber onde estavam as ampolas de tóxico. Eu respondia que não sabia de nada, que nunca lidara com tóxicos. Afirmavam que eu “passava” bolinha, e que eu tinha que confessar. Eu estava bastante assustado, respondia que nada sabia. Mandaram que eu me sentasse no chão, deram-me dois bofetões, mandaram que eu tirasse roupa. Tirei. Sentaram-me no chão e amarraram meus pulsos com pedaços de um cobertor, amarraram minhas pernas e enfiaram um pedaço de cano travando meus braços e minhas pernas, tolhendo todos os meus movimentos. Em seguida, penduraram-me num cavalete de madeira, desses usados para sinalização de trânsito. Mandaram que eu falasse. Nada tinha a dizer. Disseram que queriam ver o quanto eu aguentaria, que eu não era “durão” e outras coisas. Depois, começaram a bater na sola dos meus pés com um podão de cortar cana.

A gente fica pendurado, de ponta-cabeça. A cabeça parece que vai estourar. As pancadas nos pés são constantes, mas a gente aguenta. Depois, começa a ficar insuportável. Os estalos das batidas entram na cabeça da gente; as pernas ficam amortecidas; os braços doem. Comecei a gritar. Quem batia era o investigador Lazinho; os outros mandavam eu falar. Molharam a minha cueca e enfiaram ela na minha boca, para que eu não gritasse; depois jogavam água no meu nariz. Eu não conseguia respirar. Balancei a cabeça, desesperado; espirrou água no investigador Dore, que estava jogando água no meu nariz. Lazinho ficou bravo e chutou meu rosto.

Fiquei o que me parecia uma eternidade naquela posição (depois soube que foram 40 minutos). Batiam bastante, até que não aguentei mais. Perguntaram onde eu trabalhava. Respondi que em refrigeração. Perguntaram se eu passava tóxicos. Disse que não. Perguntaram se o Zé Pretinho passava tóxicos. Disse que não, até que não aguentei mais e disse que talvez passasse, e no fim acabei afirmando que o Zé passava a droga, porém apenas para que parassem de bater em mim.

Eu não sei de nada, nunca estive envolvido com tóxicos, não sou e nunca fui viciado. (Ele tira o sapato, a meia, e mostra aqui para o pessoal de O Diário marcas de sangue pisado na sola do pé. Está presente o Dr. José Carlos Sajovic Forastieri que também vê a marca).

Depois, fui levado para a cela (solitária) e levaram o José Carlos de Mello para o banheiro, digo, banheiro. Não sei o que fizeram. Ouvia os gritos. Quando fui supliciado, quem batia com o podão era o Lazinho; quem jogava água no meu nariz era o Dore e quem perguntava era o Galo.

Quando o José voltou, ele me contou que fora com os investigadores para sua casa, onde revistaram tudo e não encontraram nada. O José estava com o rosto bastante inchado.

No outro dia, pela manhã, fui levado para o xadrez correcional. Fiquei lá até as 18 horas, quando levaram eu e o Zé para a sala de um dos Delegados. Não sei qual o Delegado presente, mas ele saiu na fotografia publicada pelo Jornal de Piracicaba, no dia 6. Lá, mandaram que nós dois ficássemos em frente de uma mesa cheia de sacos plásticos. Eu não sabia nem o que era, mas todos os investigadores estavam muito contentes e faziam pose, pegando nos pacotes e mostrando o material um para os outros. Tiraram uma fotografia, várias fotografias. O fotógrafo era o Filetti.

Depois, levaram a gente para fazer as ocorrências, mas somente tomaram nossos nomes e endereços. Mandaram a gente embora e eu quis ir até o local onde haviam guardado minha carteira de motociclista e minha cinta. O Décio, também investigador, mandou-me embora e disse que eu viesse retirar meus próprio no dia seguinte, pois o carcereiro estava jantando. Quem estava me esperando (o Zé já havia ido embora) era o Dr. Raul Sérgio Abrahão, que meu pai havia contratado para me libertar. Quando entrei no carro do advogado, vi que não era ele que dirigia, mas outra pessoa. Fui levado para o escritório do Dr. Raul. Disse ao advogado que queria fazer exame médico e falar com um Juiz sobre o espancamento. Ele me aconselhou a não fazer isso, disse: “Você é livre, mas pense bem no que vai fazer, pois você pode ficar prejudicado”. Fui embora. Soube, em casa, que o advogado pedira à minha irmã trezentos cruzeiros, sem o que seria difícil me libertar. Disse que o dinheiro não era para ele, mas para “dividir” com o pessoal lá da Delegacia. Minha irmã não tinha o dinheiro, somos pobres, trabalhamos todos para, em conjunto, sustentarmos a família. Minha irmã emprestou o dinheiro de uma outra irmã, cujo marido trabalha na firma Dedini. O dinheiro foi entregue.

No outro dia voltei a falar com o advogado, sobre o que havia sido feito. Eu fora espancado sem nada dever, sem qualquer indício de culpa contra mim; minha família pagara 300 cruzeiros para me soltar, dinheiro que vai fazer falta para todos nós. O dr. Raul voltou a dizer que eu era livre, que devia fazer o que achava certo, mas que podia ficar complicado. Fui para o Fórum, e contei tudo ao Promotor, acho que o Dr. Sérgio. Ele perguntou se eu havia sido inquerido. Eu disse que não. Então ele disse que nada poderia fazer. Estava lá, também, para fazer queixa contra espancamento sofrido na Delegacia o Reinaldo, que falou com o Promotor, o mesmo Promotor. Eu não sei o que resolveram. Parece que a resposta foi a mesma: “A Justiça não podia fazer nada porque não houve, ou melhor, ele não fora inquerido”.

O José Carlos de Mello ficou doente no dia seguinte; acho que ele apanhou mais do que eu. O pior, agora, é que a gente fica sempre com medo, não sabe o que vai acontecer; se eles vão voltar a prender a gente, para espancar mais. O José pagou quinhentos cruzeiros, segundo ele me disse, para ficar livre. Estou contando isso tudo porque não dá pra gente viver assim, sendo perseguido injustamente, sempre ameaçado de apanhar, sem fazer nada. O pior de tudo, ainda, é ver o rosto da gente no jornal, junto com um monte de tóxicos que a gente nunca viu, a ser taxado de contrabandista e viciado, sem nunca ter participado em coisa alguma que envolvesse essas drogas.

Piracicaba, 26 de junho de 1972

Antonio Ciancie

 

Edemil, o agricolão supliciado

Eu, Edemil Arena Silva, brasileiro, 29 anos, estudante na Esalq, residente à rua Carlos de Campos 629 (“República”), declaro o seguinte:

No dia 17 de junho de 1972, no “Bidito”, fui arguido pelo investigador Lazinho, que me pediu, digo, juntamente com o investigador Galo, que me pediram documentos. Mostrei-lhes a carteira de identidade. O Lazinho declarou-me: “É você mesmo que estamos procurando”. Fiquei atônito, pois não podia imaginar do que se tratava.

Pediram-me que os acompanhassem, e me algemaram, dizendo que se tratava de “suspeita”. Levaram-me para a república onde moro, “Chatô”, e lá revistaram todo o meu quarto. Não acharam nada que me comprometesse, mas pegaram óculos, um rádio, jaqueta “Lee”, uma máquina fotográfica, um regulador e um transformador de voltagem, etc.

Aí me levaram para a Delegacia. Na Delegacia, me levaram direto para um banheirinho, num porão embaixo do prédio do presídio. Mandaram-me tirar a roupa. O Galo amarrou uns pedaços de cobertos nos meus punhos, passaram um cano por baixo dos joelhos, nele amarrando minhas mãos. Lazinho e Galo me penduraram, então, de cabeça para baixo.

Aí eles me diziam: “Você é um menino bom; se você nos ajudar, vai sentar aqui nessa cadeira conosco, não vai precisar nada disso aí”. Eu disse que podiam me matar, mas não falaria nada porque não sabia de nada que lhes pudesse interessar. Aí eles, o Lazinho e o Galo, iam jogando, alternadamente, água no meu nariz, eu gemia e vomitava, a água era tão contínua que não dava quase para respirar. Eu me afogava com a água, e parece que perdia os sentidos por alguns segundos. Eles me diziam: “Você não falou ainda, mais daqui a pouco o seu pescoço vai sair, e você vai falar”.

Eles queriam nome de duas pessoas que, diziam eles, traficavam tóxicos. Eu dizia que não sabia de nada, e não podia acusar alguém de algo que não tinha certeza.

No fim, depois de umas três horas, eu vi que a coisa estava ficando insuportável, a minha mão já estava preta, e eu raciocinei: “Bem, vou respirar bem fundo, assim desmaio e não sinto mais nada”. A dor estava amortecendo todos os meus membros.

Eles parece que desistiram, inclusive um deles declarou que de mim não iam conseguir nenhum serviço. Aí me mandaram por a roupa, e me levaram para o correcional, por volta das 6 horas da manhã. Lembro que fui preso por volta de 2 horas da manhã. Ali pelas 10 horas, o Lazinho perguntou por mim, dizendo que eu ia sair. Como eu não conseguia andar, ele me disse para que eu desse umas voltas, fosse andando para acostumar as pernas, que logo ele me soltaria. Por volta das 15 horas, chegou o dr. Airton Pinassi, que me disse que para me soltar ele precisava falar com o Lazinho, porque eu era preso dele. Fiquei até cerca de meia noite esperando.

Daí, eu estava na sala dos investigadores, e o dr. Guido (Delegado) telefonou para o Dr. Airton, dizendo que ia me soltar, porque não via nada que pudesse me comprometer. Ele me soltou. Eu fiquei sabendo, depois, que o Lazinho não gostou de o Delegado ter me soltado sem a ordem dele.

No outro dia, fui falar com o Dr. Airton, porque eu só queria as minhas coisas de volta. O Dr. Airton me disse que isso era só com o Lazinho, mas que este iria exigir a presença de alguém da minha família. Eu fui para minha casa, em São Carlos, e avisei à minha família para que não viesse para cá, que isso poderia lhes causar algum aborrecimento. O importante era eles saberem que não tinha nada a ver com o que eles estavam procurando.

Até o momento, portanto, as coisas que eles pegaram na minha república estão ainda na Delegacia.

Eu falei depois com o Dr. Nelson Martinez, e me comprometi a fazer declarações à Ordem dos Advogados, sobre as irregularidades contra mim cometidas.

Tudo o que está acima é a pura verdade, e eu declaro isso tudo, para que essas coisas não aconteçam com outros.

Piracicaba, 26 de junho de 1972

Edemil Arena Silva

 

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