João Sampaio: “Metodistas de Piracicaba formaram a educação paulista”

Nascido em 1877, João Sampaio se tornou reconhecido na região como advogado e político, jornalista e intelectual. Genro de Prudente de Moraes, com ele militou no Partido Republicano. Em 1958, participando das comemorações do aniversário do Colégio Piracicabano, onde estudara, João Sampaio deixou registradas recordações de seu tempo de menino. Seu depoimento vale como um referencial histórico para Piracicaba em todos os tempos:

…”Nasci em Rio Claro, no ano remoto de 1877. Antes de completar um lustro de idade, acompanhei meus progenitores, de mudança para Piracicaba. O ano é exato: o de 1881. O mesmo em que se fundou o Colégio Piracicabano, nesta linda e abençoada cidade – terra de minha inolvidável esposa e berço de meus filhos – e aqui se instalava essa Escola, em poucas salas, quase desertas, no memorável 13 de setembro. …

….A ligação que faço dos fatos não tem a mínima significação para os que me ouvem, com as galas de sua presença. Tem para mim… Matriculei-me aos 12 anos, em 1890. O ensino era ministrado a oito classes. Da primeira à oitava, sem falar no kinder garden, talvez o primeiro jardim da infância criado neste País. A classe mais adiantada era a primeira. Eu entrei na terceira. E fiz o curso, com assiduidade, até o fim do ano letivo.

Em 1891 fui para o Colégio Delamare, em São Paulo, iniciar os preparatórios para a Faculdade de Direito… Eu me lembro de Malle Rennotte e das suas aulas práticas de física e química, e de noções de astronomia, com aparelhamento adequado, que faziam o encanto dos assistentes. Comecei os estudos de zoologia e anatomia descritiva com Miss Watts. Aprendi inglês com Miss Phillips; francês, com Monsieur Roi; matemática com Henrique Brasiliense; português, com Alfredo Soares; geografia com Miss Steagall. E de caligrafia, que até hoje conservo, firme e clara, várias professoras me serviram de guia, adestrando-me com os modelos e cadernos americanos….

…. Desde o começo da missão educacional de Martha Watts (fundadora do Colégio Piracicabano), em Piracicaba, entre as pessoas que demonstraram maior interesse pelo seu sucesso destacaram-se os irmãos Manoel de Moraes Barros e Prudente de Moraes, então propagandistas da República. Este último, elevado ao governo do novo estado de São Paulo, em 1889, entre as notáveis realizações que empreendeu, no curto lapso de um ano, deu início e vigoroso impulso à reforma da instrução pública, depois continuada por Cesário Motta.

O embrião desta reforma foi o Colégio Piracicabano. A instrução pública na antiga Província de São Paulo, como em todo o Império, não excedia aos limites do rudimentar. Ler, escrever e as quatro operações rudimentares. O seu tipo era a Escola Régia, mal instalada, escassa e de orientação obsoleta. Prudente de Moraes, inspirado pelo exemplo vivo do sistema norte-americano, idealizou o Plano da Reforma, cujo desenvolvimento foi uma das bases da grandeza de São Paulo.

À Escola Normal da Capital foi dada nova sede, em grandioso edifício, construído na Praça da República. Apareceu o primeiro grupo escolar, sob a direção de Miss Brown. Depois, a Escola Modelo e o primeiro Jardim da Infância no ensino público. As Escolas Complementares, sendo a de Piracicaba uma das primeiras, e as escolas normais no interior do Estado. E tudo foi se multiplicando. Do vigoroso impulso inicial, o resultado aí está, para deslumbrar nossos olhos. A alfabetização em nosso Estado já atingiu ao índice de 65%. E a do nosso município – onde foi plantada a árvore que assim espalhou o esplendor da ramagem – eleva-se a 77%.

A organização educacional de São Paulo, no decorrer do tempo, serviu de padrão a todas as unidades da Federação. E assim se tornou uma obra nacional. A Junta de Missões Estrangeiras da Igreja Metodista dos Estados Unidos merece, pois, pela fundação do Colégio Piracicabano, o profundo reconhecimento dos brasileiros. E à Miss Watts deveríamos erigir um bronze em monumento, simbolizando a nossa gratidão, pelo êxito que lhe assegurou, na magistral execução…”

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