Minhas Memórias de Piracicaba antiga (1)

MORTE DE MUSSOLINI

Ele era pequeno, menos de três anos, o que o colocava mais ou menos como saco de pancadas de todos os demais, igualmente pequenos, porém mais velhos que ele. Seu nome ninguém sabia e acho que nem ele mesmo. Nós o chamávamos de Mussolini pela semelhança que tinha com a fisionomia do ditador italiano que naqueles tempos estava levando a Itália para o desastre que se seguiria. Anos 40, mais ou menos em 41 ou 42.

Mussolini morava com a mãe e alguns irmãos pequenos naquela favela que ao longo do tempo se formara ao lado da linha férrea da Sorocabana e do leito do Itapeva entre a Prudente e a 13 de maio.

A mãe dele era bruxa, eternamente descabelada, suja, feia, suando muito sempre, gorducha, cheirando mal. Para nós era intrigante ver que uma pessoa com cabelos loiros morasse na favela, que nos parecia lugar apropriado para gente preta.

Além da sua fisionomia, lembro-me muito bem que nós o reconhecíamos desde longe, quando vinha em nossa direção, pelo meio da rua, gingando o corpo. Estava sempre pelado e nem tinha vergonha disso. Também não ria nunca e até chorava por qualquer coisa que gente dizia ou por qualquer peteleco que alguém lhe dava na cabeça por fazer coisas erradas.

Seria um menino que passaria despercebido ali se não fossem algumas coisas nojentas nele: quando ficava de cócoras invariavelmente defecava no lugar, não se limpava, deixando sob o nosso poste o ar pestilento. Um dia Insto pisou no monte de merda e ficou furioso com Mussolini, metendo-lhe a mão, por ser porco. Nós também lhe demos uns tapas por esse motivo. Quando isso acontecia, partia de volta para sua casa, mas no dia seguinte estava novamente entre nós. Outra coisa nojenta é que das suas narinas pendiam permanentemente dois filetes de muco verde, que de uma chupada só mandava para dentro quando começava a atingir a boca.

Tirando essas coisas era um garoto que dava pena em todos nós, especialmente quando a bruxa vinha buscá-lo. Ela o pegava pela orelha e ele era assim levado, mal tocando o chão com os pés.

Um dia, depois do almoço, vimos que as pessoas passavam pela nossa rua correndo, como se algo de grave tivesse acontecido mais para perto de centro da cidade. Saímos para ver e notamos que na esquina da via férrea havia se formado uma grande concentração de pessoas. Como minha Mãe queria ver o que tinha acontecido, fomos juntos com ela, pois não tínhamos autorização para sair do nosso quarteirão.

Deu para perceber na hora o que acontecera: o menino brincava sossegadamente à margem dos trilhos como sempre fazia, quando o trem carregado de açúcar, vindo da Usina Costa Pinto, saiu dos trilhos e tombou sobre o menino, que ficou esmagado sob o mesmo.

Naquela tarde todos ficamos com dó da bruxa, que tirava os cabelos em mechas, lamentando pela sorte do menino: “Ai…Ai… meu pobre filho… o único branquinho que eu tinha… Deus, se tinha que pegar um, pegasse um dos meninos pretos, mas não este que eu amava tanto…”…

Os operários da Sorocabana tentavam inutilmente tirar açúcar com pás, porém ele escorregava sobre o garoto novamente, e assim iam passando as horas, já sem esperanças de resgatá-lo com vida. Contudo, continuavam nessa faina, mais por desencargo de consciência que por esperanças. Nós fomos embora para casa, pois minha mãe não queria que víssemos o corpo sendo desenterrado. Só nós, garotos, à noite sob o poste, ficamos lamentando a morte do coitadinho.

Foi nesse verdadeiro muro de lamentações que pudemos ver, lá pelas bandas da linha do trem, o vulto de Mussolini subindo com seu gingar característico a rua Prudente. Fixamos os olhos para ver se não tinha erro: não tinha: o vulto era mesmo o dele. Mas não o vimos chegar: todos saímos correndo dali para que não fôssemos importunados pelo fantasma do garoto.

Foi no dia seguinte que ouvi minha Mãe contar para a nossa vizinha o que acontecera:

“Perto da entrada da noite surgiu uma grua enorme, montada sobre eixos ferroviários, para erguer os vagões tombados. Ninguém mais estava cavoucando o açúcar para a inútil tentativa de resgate do corpo do indigitado garoto. Quando se retirou o primeiro deles, o açúcar se agitou e dele surgiu ninguém menos que Mussolini, todo branco, metendo a boca no mundo:

“fidi puta… fidi puta…”

Foi uma alegria só, com muita gente abraçando o garoto. A mãe veio correndo e, não acreditando no que via, abraçou o garoto e deu-lhe uma porção de beijos, numa cena comovente. Logo depois, recompondo-se, ela pegou o menino pelas orelhas como sempre fazia, aplicou-lhe umas chineladas e o levou para dentro, berrando com ele: “não sei porque não foi verdade… esta peste ainda me mata do coração…”.

(crônica condensada, do livro: SANTOS, Wladir dos. CONTANDO CASOS. Max. 1986. S.Paulo. )

Wladir dos Santos é piracicabano, professor, historiador, atualmente residindo em Americana

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