Minhas memórias de Piracicaba antiga (3)

Sobra AvulsaO HORRENDO DEFUNTO DA LINHA DO TREM

1942 – Julho – Piracicaba

Nossas brincadeiras, no frio intenso das noites de julho, ficavam quase que restritas a contar estórias intermináveis de assombrações, caveiras, almas penadas, gritos angustiados ouvidos nas madrugadas e, de vez em quando, alguma brincadeira que não exigisse muito movimento do corpo. Os garotos ficavam então colados, uns aos outros, cada um produzindo e recebendo calor dos próximos e em círculo, para que ninguém ficasse encostado em um só. Nenhum de nós gostava de encostar-se ao Insto, pois o miserável não tomava, como todos nós, banhos aos sábados.

Naquele ano corria a lorota de que um defunto tinha sido visto andando pela linha do trem.

O guarda-linhas da Sorocabana já tinha visto a figura fantasmagórica e até chamado a atenção do vulto, por circular pelos trilhos. Quando gritou para ele que era proibido passar por ali, o defunto teria parado bem sobre eles e ficado imóvel, calado, forçando que o guarda se aproximasse para ver de quem se tratava. Nem bem chegando perto, a alma foi se transformando em fumaça que se elevou rodopiando aos céus, deixando o pobre guarda sem voz.

O bom e quase sempre sóbrio e solitário homem não mentiria sobre uma coisa dessas e nós mesmos, com medo, também não íamos circular por ali.

Ouvíamos a descrição do defunto com os olhos esbugalhados, respiração tensa, tentando imaginar a figura dele: sujeito alto, magro como todas as caveiras, terno branco, olhos cavernosos, mãos descarnadas…

O pessoal ouvia essas coisas todas, contadas mil vezes pelo Didi, que as tinha ouvido diretamente do seu vizinho, que era parente meio distante do vizinho do guarda-linhas.

Ouvíamos atentos, com os olhos voltados para a direção do cemitério, tentando penetrar a vista na escuridão de breu que o separava do nosso poste, único até lá.

Todos ali sabiam assobiar, e era sabido de todos que as almas não se aproximavam quando ouviam assobios. Contudo, se era remédio infalível, tinha como contra-indicação o fato de que os assobios provocavam o surgimento de sacis. Tinha que saber qual a hora certa para começar assobiar e o único ali que já havia visto e até lutado contra um saci era Insto, conforme nos contava do seu encontro com uma figura traquinas dessas, bem nas proximidades do bosque do coreto, perto da ponte.

Insto tinha entrado em luta corporal com um, derrubado o sujeitinho facilmente por ter uma perna só e dado nele tantas bordoadas que ele sumiu e nunca mais ousou vir assustá-lo.

Eu me aproveitava dos assobios dos outros, pois o meu próprio nunca conseguiu passar de sopro sem som algum, o que me dava um desespero danado, ao ver que até Waldemar era capaz de fazer isso, quando tirava da boca sua chupeta.

Didi recontava tudo novamente.

Foi nesse momento que eu, de costas para o cemitério e perscrutando a escuridão na direção da linha férrea, avistei o defunto, só que estava voltando para o cemitério, depois de provavelmente ter assustado a alguma criança ou guarda-noite no lado oposto da cidade.

Avistei e dei o alarme, começando a assoprar como maluco, enquanto apontava na direção do vulto, sem conseguir dizer nada. Todos começaram a assobiar como doidos, enquanto que eu apenas soprava desesperadamente na esperança vã de ouvir algum ruído.

Quando olharam na direção apontada, lá para as bandas do Itapeva, puderam ver claramente o defunto de branco vindo em nossa direção! Não ficou ninguém esperando por ele. Sumi para dentro de casa, sem olhar para trás.

Lembro-me que o susto foi monumental e indescritível: o defunto parou bem à frente da nossa porta e bateu palmas! Tinha vindo ajustar contas comigo, com certeza, por alguma coisa que havia feito erradamente. Foi meu maior pavor! Urinei nas calças de medo…

Minha Mãe atendeu às batidas na porta e o defunto foi recebido em nossa casa. Também não me recordo de nada mais nessa noite, pois creio que passei para o sono imediatamente.

No dia seguinte, quando lhe perguntei sobre a insólita visita, ela riu muito e esclareceu: era o Sr. Antônio Romero, barbeiro do meu Pai, sempre vestido de terno de brim branco, alto e magro como um palito, que tinha vindo nos trazer uns peixes de presente.

Mais à noite, sob o nosso poste, antes de eu esclarecer, Insto nos contou que teria acompanhado o vulto até perto do cemitério para ver mais de perto. Teria visto que na verdade era um defunto antigo, pois não tinha mais carnes e sim apenas ossos de uma caveira horrenda, e contou-nos que, já perto dela tentou pega-la, mas transformou-se em fumaça e se elevou em rolo até o céu.

Eu não disse nada para não levar umas tapas dele ao ser contrariado, mas não entendi o motivo pelo qual Insto precisou nos mentir naquela ocasião.

condensada do livro:

SANTOS, Wladir dos. CONTANDO CAUSOS. Max. 1986. S.Paulo.

* é piracicabano, professor, historiador, atualmente residindo em Americana.

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