O Pisca generoso onde Leandro Guerrini nadava

As lembranças são assinadas por Leandro Guerrini, um dos grandes intelectuais que Piracicaba teve, no século XX. Professor, jornalista, diretor da Biblioteca Municipal, teatrólogo, escritor que teve como principal obra “História de Piracicaba em quadrinhos”, Guerrini

também foi professor e esteve envolvido nos principais movimentos realizados na área cultural da cidade. Casado com a Profa. Jaçanã Altair Guerrini, formaram um casal que influenciou a vida intelectual de Piracicaba.

Em crônica publicada no Jornal de Piracicaba em junho de 1976, Leandro Guerrini relembrou os tempos de meninice, especialmente no que se referia às tardes de diversão junto ao ribeirão do Piracicamirim.

… “é interessante frisar a pouca ou nenhuma permanência do rio Piracicaba na enquadratura das recordações de meu tempo de moleque, começo do século(Século XX)… teimam as recordações do Pisca, ou seja, o Piracicamirim, realmente distante da minha casa.

Para quem saísse da rua do Conselho, canto da rua do Rosário, para chegar ao córrego em apreço, além do cemitério, a estirada era brava. E não havia condução alguma. Isto é, havia os carros de praça, tirados por dois belos cavalos. Mas o treco era luxo de gente graúda.

Nós, moleques da época, tínhamos boas pernas, graças a Deus, e a caminhada era sopa, sem obstáculos. Era passeio para os domingos, porquanto para os dias de semana, havia o deleite do Itapeva, quase grudado com a casa da gente. A turma dos petizes era excelente, unida, sem chefe – uma camaradagem sólida que só o perpassar dos anos dissolveu…

Foto: Nei Lima/Olhares

… então os garotos se punham à jornada, sem se importar com a lonjura, sem se importar com possíveis imprevistos. Só tinham em mira a recreação, o pretexto da molecagem, o contato com a água mansa do Pisca. As notícias funestas do riacho eram nulas, já que o Piracicamirim não tenha pretensões glutônicas (como o rio Piracicaba, onde as mortes por afogamento eram mais temidas). Era moleque como nós mesmos.

Havia um trecho de respeito: o cemitério. Sem que se saiba porque, o campo santo infundia terror. A ordem tácita era passar pelo portão sem olhar para dentro. Tinha que fazer o ‘pelo sinal’ e tirar o chapéu. Sim. O genuíno moleque daquelas quadras não dispensava a cobertura da cabeça. E sem caçoada porque o diabo estava por ali. Feliz ingenuidade!

Do cemitério iniciava-se uma corrida alegre, desenfreada, ‘libertativa’, como se o bando se livrasse de um pesadelo. Uma corrida de uns bons quinhentos metros, até atingir o córrego sonolento, que convidava com acenos de ternura. A chegada era ruidosa e a negadinha ia logo se despindo, para se entregar ao divertimento aquático, que muito prometia.

O sítio prometido não era próximo da estrada que vinha da rua Direita (Atual Rua Moraes Barros) . A gente gostava era de um local para o interior do pasto, atravessando terras, onde a água, um tanto represada, relacionava uma espécie de laguna mais funda, um barranco bem proporcionado para saltos e cabriolas, numa paisagem edênica, que se enfeitava com os meninos em pelo.

Uma vez, num salto mais infeliz, torci o pé, que logo ficou feito bola de inchado. Que tragédia a volta! Vim quase carregado pelos companheiros. Em casa, entrei assobiando, como um feliz da vida. Pois sim! As dores aumentaram e a verdade veio à tona. O dr. Cardoso, médico da família, foi chamado e o chinelo ficou em suspenso,à espera de dias melhores…”

 

Foto: Leandro Guerrini e a esposa, também escritora, Jaçanã Altair Guerrini.

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