Piracicaba de 1967, apenas uma saudade

A praça José Bonifácio, pelo que me consta era dividida em duas, a parte que ficava ao lado da Rua Prudente de Morais era Praça Sete de Setembro, onde havia o marco da bandeira, em que os atiradores (jovens que serviam ao Tiro de Guerra) faziam guarda na semana da Pátria. O jardim era feito por alamedas cheias de bancos onde sentávamos à noite, disputávamos o pum mais longo, apreciávamos as moçoilas que por lá passavam. Na esquina da São José uma sorveteria, al lado uma casa de sinuca, o cinema Politeama, ao lado a chocolataria do Passarela, tinha ainda a Escola de Contabilidade e na esquina da Morais Barros uma outra lanchonete. Nessa esquina virava o bonde que ia para a Vila Rezende. Do outro lado da praça, um prédio antigo em que funcionava o Banco do Brasil, mais adiante um restaurante, a Brasserie, ao seu lado o Alvorada, depois casa de lanche Brasil, virando a Rua São José o bar do Tanaka, em que intelectuais freqüentavam, na esquina em frente o Clube chique da cidade o Coronel Barbosa com seu Teatro São José, que era cinema também. No meio das duas praças, José Bonifácio e Sete de Setembro uma fonte luminosa de três andares que em dia de comemoração virava piscina, bonita, que jorrava água constantemente, à sua esquerda os restos mortais de um edifício em construção ruído, e na praça Sete de Setembro larga, um pátio enorme por onde os cordões e escolas de samba desfilaram um dia. À sua direita o prédio da PRD6 com seu auditório e regional, e nos domingos um lindo programa de cururu, com gente famosa. Podíamos ficar a noite inteira na praça que não havia inconveniente nenhum, nem desses que existem hoje em dia. Mas o melhor de tudo era o ‘footing’, isto é, nos domingos à noite as moças solteiras andavam de um lado circulando a praça José Bonifácio e os garotos em sentido contrário, procurando seus futuros pares. Entre os jovens, famílias passeando com suas crianças, comendo pipoca, chupando sorvete e no inverno comendo pinhões cozidos. Bem em frente à catedral um enorme estacionamento por onde começavam as passeatas de protesto contra a ditadura, capitaneadas pelo movimento estudantil. Não acho que deva voltar tudo isso, mesmo porque tenho na memória e dela não se apaga, para mim existe essa Piracicaba até hoje. Mas a praça se modernizou, perdeu a sua fonte luminosa, agora é um espelho de água horrível, as duas praças viraram uma só, com um coreto quem nem de perto tem o charme do antigo. As estátuas saíram, algumas voltaram, mas aquela Piracicaba de 1967 não existe mais. Nem poeticamente, apenas na memória dos saudosistas como eu.

 

*Rodolfo Galvão de Oliveira é professor e pedagogo

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