Piracicaba nas cartas de Miss Martha Watts

Algumas cartas que Miss Martha Watts, fundadora do Colégio Piracicabano, escreveu ainda em 1882 – a seus superiores e amigos nos Estados Unidos foram resgatadas e dão uma visão minuciosa da Piracicaba do final do Século XIX.* Datada de maio de 1882, a carta registra as impressões da educadora metodista sobre o cotidiano dos domingos na cidade, ” no exato limite do que vi em meu caminho de ida e volta da igreja e da janela enquanto estou na igreja”.

(…) ” já é hora de sair para a escola dominical e, assim, deixe-nos trancar as portas e começar.Nossos vizinhos não parecem sentir a santidade do dia, pois cada um deles dá continuidade a suas tarefas diárias. O carpinteiro está trabalhando: deve ser algo de extraordinário – certamente é um caixão! Mas todas as lojas estão abertas; e vejo os ferros do alfaiate esquentando à porta. Sim, e há um deles tirando medidas e outro costurando – e o fundidor de estanho também está trabalhando! Ah! Eu gostaria de poder reunir estas crianças sujas, lhes dar um banho e levá-las à escola dominical comigo! Ah! Bom dia, irmão, está um dia agradável; espero que todos venham à Igreja hoje.

O que são esses sinos? Não há neve, e ainda assim escuto guizos de trenós. Ah! É por isso : uma tropa de bestas de carga carregadas de café está atravessando o solo sagrado em frente à Igreja de São Benedito**, e o líder está todo enfeitado com ostensivos ornamentos de prata, e uma faixa de verdadeiros guizos cruzando o peito. Veja isto, os condutores tiram seus chapéus com reverência ao passar pela porta. … E o que aquele homem está fazendo com aqueles guarda-sóis? Sem dúvida sua senhora quer um novo para o passeio da tarde e o mandou à loja, como é costume, e o comerciante enviou todo o seu estoque para que ela pudesse escolher. Como é fácil sentar-se em casa, com um vestido caseiro, e ter a ‘ loja” trazida para si! Eu imagino se as mulheres nunca vão às lojas por aqui. Sim, pois aí vem a senhora ( mas ela é velha, e tem seu empregado com ela), que esteve fora para as compras de Domingo, e comprou um tapete de Bruxelas muito bonito, em honra a seu filho que logo estará voltando da Europa, e o qual fala ‘inglês americano’ e muitas outras línguas, como a negrinha contou a um de nossos amigos….

…agora vejo as mulheres indo para casa com seus fardos de roupas para lavar sobre suas cabeças. Elas devem ter ido ao rio muito cedo para que pudessem ter feito tanto até agora. E vejo aquele velho cavalheiro que queria colocar suas meninas em nossa escola, mas que como não tínhamos uma professora de música estrangeira, ele preferiu deixá-las continuar com seu velho ‘ mestre’. Ele parou para ouvir o canto, eu sei, mas agora já seguiu. Eu me pergunto por que os homens tiram seus chapéus quando passam por essas janelas. É para nós? Ou é para o local de culto? Devo perguntar sobre isso quando puder falar com eles. A senhora sabe que é costume nesse lugar para cavalheiros de boa educação saudar as damas que passam? …

…. chegamos em casa, tentamos manter o dia de Domingo sagrado, mas nossos ouvidos são ofendidos pelo som de conversas de tom alto e risadas em uma mercearia e bar no caminho; e nossa cozinheira vem com uma ‘barganha’ especial em ovos, e pede o privilégio de comprá-los para nós, já que estão tão baratos (dois centavos cada). Ela vai embora depois de exaurir seus poderes de persuasão , insatisfeita por saber que teremos que pagar quatro centavos na mercearia…”

*As cartas de Martha Watts são reprodução do livro “Evangelizar e civilizar, 1881/1908”, organizado por Zuleica Mesquita, Editora UNIMEP, Piracicaba, 2001.

 

3 comentários

  1. Linneu Stipp em 25/12/2012 às 16:40

    Pois é…

    Miss Martha Wats pode não ter conseguido levar crianças à Escola Dominical, porém deve ter ensinado a quem de direito…

    Tive tias-avós muito bondosas, nos ajudou muito nas nossas dificuldades…

    Mas eu e meus dois irmãos não podemos nos esquecer das idas à Escola Dominical, pelas mãos de tia Helena (Schalch) uma das tres irmãs missionarias e professoras no Colegio Piracicabano.

    Tia Helena nos colocava na Classe Cordeirinhos para aprender as histórias biblicas, e e não me falha a memoria um dos nossos colegas, era o Gustavo Alvim…

    Depois das aulas sobre as historias que nos eram contadas, subiamos para assistir ao Culto e no final acompanhavamos tia Helena até sua residencia na rua do Rosario, quando ganhavamos a mesada para o cinema…

    Às vezes nos convidavam para o almoço, aguardavamos na sala de visita, até o momento solene.

    Sim, momento solene porque uma delas tocava um pequeno sino, indicando que o almoço estava à mesa..

    Eramos conduzidos até os assentos que nos eram designados, e antes de tocar na comida, deviamos fazer as orações agradecendo pelo alimento concedido…

    Lembranças, Saudades, de tempos passados…

    (As tias-avó Ida, Helena e Sophia, foram filhas de Johannes Schalch, suiço, e Henriette Dorothee Buch, alemã, imigrantes do ano de 1855, desembarcados na Colonia Dona Francisca, Henriette em outubro e Johannes, em dezembro. Eram missionarias protestantes, lecionaram no Colegio Piracicabano)

  2. Renata em 05/04/2015 às 19:32

    que bom saber mais da minha história. Gratidão…..

  3. renata em 05/04/2015 às 19:34

    sou neta de Helena, tenho por hábito a moderação

Deixe um comentário