Primeiro Bispo (D.Ernesto) escondeu-se para ver a Festa do Divino

Nas memórias do primeiro bispo da Diocese , D. Ernesto de Paula, há subsídios importantes para a história da mais do que centenária Festa do Divino de Piracicaba. Deixou ele registrado no livro “Reminiscências” (Editora Loyola, 1979):

“Em se aproximando a comemoração do Divino Espírito Santo, festa tradicional em Piracicaba, algumas pessoas – talvez imbuídas de idéias progressistas – vieram alertar-me,

dizendo que a cerimônia, tal como se processava, estava em flagrante contradição com as leis

litúrgicas. Alegavam que, na referida ocasião, havia uma procissão de barcos no rio Piracicaba, onde se dava o encontro das bandeiras e que era festa ruidosa, que atraía toda a gente da redondeza.

Assim advertido, julguei prudente não tomar parte ativa na primeira procissão. Desejava observar pessoalmente tudo, antes de me pronunciar a respeito, pois percebi que alguns estavam interessados em que eu proibisse aquela reunião. Por isso, no dia marcado, fui incógnito à beira do rio Piracicaba, como simples espectador. Fiquei em lugar escondido, mas de onde podia observar tudo. Minha impressão foi a mais favorável que se possa imaginar. Fiquei entusiasmado e achei mesmo uma coisa formidável aquele maravilhoso espetáculo. A procissão fluvial decorria num ambiente de grande respeito e fervor. Os barcos, superlotados, enfileiravam-se, cada qual ostentando os seus ornamentos diferentes. Fiquei encantado e, ao regressar, externei minha impressão e apresentei sugestões para a próxima solenidade.

Tratava-se, como disse, de uma procissão fluvial e o encontro das bandeiras do Divino dava-se na curva do rio. Exatamente nesta ocasião estouravam no ar os foguetes, enquanto a banda executava entusiásticos motetes, além de outras belas e sadias atrações. A festa era promovida pelos festeiros do ano em curso. A nomeação costuma ser feita na solenidade do ano anterior. Aos festeiros – era sempre um casal – incumbia organizar a nova festa e por isso trabalhavam durante quase todo o ano na arrecadação de donativos: gados (bois) e tudo o mais que era necessário. Como é natural, havia entre eles uma louvável emulação: cada festeiro se esmerava em fazer tudo do melhor modo possível.

No sábado, vigília de Pentecostes, realizava-se a procissão fluvial e as bandeiras, depois do encontro, eram levadas solenemente para a catedral, onde ficavam até o dia seguinte. No domingo de Pentecostes, logo pela manhã, havia distribuição de carne e sal para os que se apresentassem munidos de um cartão fornecido pelos festeiros. Às 10 horas, entrava a solene missa pontifical e, à tarde, havia procissão que percorria as ruas principais da cidade. À entrada da procissão, depois da bênção, procedia- se a nomeação dos festeiros para o ano seguinte. É claro que o convite já havia sido feito, com alguma antecedência. Era muito disputado o título de festeiro do Divino.

Como disse, no primeiro ano que passei na diocese, tendo observado discretamente a festa, achei-a muito a propósito para afervorar o povo e bastante original. Por isso, não só aprovei a procissão fluvial como também – para espanto de muitos – apresentei sugestões, a fim de que se fizesse o cortejo com mais solenidade e com maior número de barcos. Nos seguintes, tomei parte ativa nos festejos. Antigamente, faziam a festa num domingo qualquer de setembro, mas eu determinei que fosse realizada no próprio domingo de Pentecostes. Deste modo, íamos procurando afervorar os fiéis, trazendo- os sempre unidos às festas e cerimônias litúrgicas.”

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