Querida Piracicaba

Foto: agitobrasil.com.br

Fui parte sua por 17 anos, e quão inacreditável é o número resultante desse cálculo.  Sim.  Mudei para Piracicaba, vinda de São Paulo, em 1977, e fui embora em 1994.  Pensei que essas memórias estivessem enterradas, mas sou chamada a relembrá-las.  Emoções se misturam dentro de mim.  Carinho, tristeza, gratidão, e saudade se abraçam enquanto um som começa fraquinho na minha cabeça: acho que é o hino da terrinha….de uma saudade, que punge e mata…. Vejam vocês, não esqueci.

Releio o parágrafo acima e me dou conta que também saí daí mudada em 94.  Os 17 anos que vivi ai também pareciam mais quando me fui.  Pareciam com uma vida.  A mesma que teimo em achar que me separa agora de você, Piracicaba. Mas vamos lá à tarefa de recuperar um idioma e minha escrita, dos quais estive afastada por 15 anos. É como recuperar o braço direito que sentia quase que fisicamente arrancado, quando mudei para os Estados Unidos em 1994, e não conseguia manejar o idioma da terra com a destreza com que sempre manejara o Português. Julguei perdida essa minha forma de expressão – a escrita –  e aprendi uma nova pessoa dentro de mim. Esta é realmente minha primeira escrita, revivendo a jornalista, desde 94.

Cheguei a Piracicaba em julho de 1977, e já no dia seguinte me apresentava ao Cecílio Elias Neto, n’O Diário. Colegas jornalistas de São Paulo haviam feito os contactos necessários, e eu contava que poderia continuar minha carreira jornalística recém-iniciada em São Paulo, na cidade que conhecia como a do “sotaque forte”. Não podia ter tido melhor recepção. O Cecílio me abriu os braços, e lá fui eu trabalhar como repórter da geral sob a chefia de redação do incrível Adolpho Queiroz.

Todos – todos, sem exceção – me receberam muito bem. Eu disse todos? Pois confirmo. Todos! O Celso Elias, o Cerinha, o Mário Terra, a Marlene, a família toda d’O Diário e as muitas famílias da cidade me adotaram enquanto eu também as adotava. No trabalho de repórter eu ia me inteirando da história gostosa dessa gente orgulhosa de seu passado e de suas tradições. Fui pegando o sotaque meio sem querer querendo. Minha desculpa para os colegas paulistanos era que facilitava as entrevistas se eu falasse o dialeto local. Levou muito tempo para eu perder aquele sotaque, mas confesso que ajudou bastante quando eu precisei passar para o Inglês….

Mas voltemos às memórias. Como jornalista d’O Diário cobria casos locais (“causos”?), política, eventos, visitas ilustres, e aos poucos fui sendo encaminhada para escrever sobre e para as mulheres. Nasceu o suplemento Mulher do Diário, o qual editei por pouco tempo e do qual, infelizmente, não guardei uma edição sequer.  Lembro-me com prazer de conhecer o Museu Prudente de Moraes, a Rua do Porto, aprender a importância da Rua Governador Pedro de Toledo, acompanhar as modificações da Praça José Bonifácio, que acabou virando calçadão. Fui no Teatro São José cobrir shows, fiz minha primeira compra a prestação n’A Portalarga, aprendi o hino do 15 de Novembro, conheci as benemerências do Clube da Lady e da Marlene Chiarinelli, ela própria uma lady maravilhosa, passeei pela ESALQ, comprei bala naquela lojinha da Praça ao lado do antigo cinema que depois virou banco (ainda existe?), e Piracicaba foi entrando em mim devagar, suave e engraçadamente.

Conheci o querido e saudoso Dr. Losso Netto numa de minhas matérias, e ele começou a me convidar para trabalhar com ele, na competição, o Jornal de Piracicaba que nós, d’O Diário, combatíamos ferrenhamente e lográvamos dar “furos” de reportagem. O Joacyr, já naquele tempo um excelente jornalista, segurava o forte d’O Jornal junto a Geraldo Nunes.  Nos olhávamos com muita competitividade quando acontecia de estarmos perto um do outro em algumas coberturas jornalísticas.

O Cerinha, tão querido, integrou-me à “tchurma”  jornalística da cidade convidando-me a escrever para sua coluna dominical “Recados”. Quantas risadas e quantas brigas boas compramos por alí.  Uma delas o Cerinha relembrou não faz muito tempo: um mal entendido com o ilustre Professor João Chiarini. O Cecílio (ou teria sido o Adolpho?) passou-me uma pauta que incluía entrevistar o vetusto senhor. De posse de seu endereço, bati em sua porta por no mínimo três dias seguidos.  Todas as vezes tive sua esposa me atendendo e, sem perder muito tempo, me despachando com a frase de que o professor não se encontrava.  Não dava nem tempo de perguntar quando ele voltaria.  Apenas esboçava a pergunta e lá vinha a porta na cara.  Telefonava, mas com o mesmo resultado, a conversa acabava com o telefone do outro lado desligado na minha cara.

Todo mundo sabe que jornalista tem pressa, não pode esperar muito.  Uma pauta é uma pauta e tem que ser cumprida.  Pauta não cumprida é culpa do jornalista, não do entrevistado.  Não tive dúvidas: mandei um recado ao João Chiarini através da coluna do Cera.  Pedia-lhe que se estivesse lendo a coluna, por favor me contactasse, porque precisava entrevistá-lo.  Compartilhei – indevidamente – a pressa de sua esposa em me desatender.

Ah, pra quê?  Não se passaram três dias dessa vez, e lá vem o João Chiarini n’O Diário, finalmente contactado, aos gritos com o Cerinha, de “quem era essa tal de Ana Lúcia desaforada.”  Acabei nunca entrevistando o Chiarini.  Muitos anos depois, já nos tempos d’A Província, aconteceu de topar com ele algumas vezes no escritório do Cecílio.  Ele sempre me ignorava educadamente, e eu o respeitava na mágoa que sei que ele ficou de mim.  Já li mais de duas vezes referências ao incidente, e escutei muitas opiniões.  Todos sempre foram unânimes em reafirmar a doçura da sra. Charini, uma pérola de pessoa segundo quem a conhecia.  Até hoje não sei o que aconteceu alí.  Talvez o casal estivesse tendo uma semana difícil, e eu aconteci de participar dela…  Espero que os dois tenham finalmente esquecido a mágoa de mim, de onde estiverem.  E que me desculpem o mal jeito na Coluna Recados.

 Mas acabei saindo do Diário, fui de fato trabalhar no Jornal, com carta branca do dr. Losso para editar um suplemento feminino chamado “Para Você”.  Não sei se tenho todas as datas certas.  A descoberta da família Losso aumentou minha integração na cidade, e o Para Você virou uma extensão minha.  Por causa dele, e de outros suplementos que vim a editar para o JP, cresci como pessoa e como jornalista, me integrei mais e mais à cidade e sua gente, e fui me transformando em cria da terra, daquelas que passam pela rua cumprimentando todo mundo!

Editei para o JP o suplemento Vida Agrícola, a luz dos olhos do Dr. Losso.  Criamo-lo em homenagem à ESALQ, e lá mantínhamos nosso foco e fonte principal de matérias.

Fui trabalhar com o Nelson Torres, uma figura única como tantas na cidade!  Sim, Nelson me contratou para ser sua assessora de comunicação, e passei um tempo trabalhando naquela casa bonita da rua…Prudente?  Não tenho certeza do endereço, nem se a dita agência de turismo ainda funciona lá. Trabalhava perto da Eliana Tayar, uma mulher bonita, forte, confiante, viajada, que sempre admirei.

Depois trabalhei no CENA, convidada que fui pelo Dr. Frederico Windel para montar a assessoria de comunicação daquele centro de pesquisa da USP.  Esta foi uma experiência absolutamente fantástica na minha vida.  Criei a assessoria de comunicação, criei, editei , escrevi e fotografei o jornal interno (“Noticena”) e ajudei a organizar as duas primeiras (não sei se houve mais) Semanas do Ambiente, para as quais obtivemos patrocínio entre os comerciantes e industriais da cidade para trazermos cientistas ambientalistas de todo o mundo.  Trouxemos a Piracicaba o Chico Mendes, no que foi uma de suas últimas viagens antes de ser assassinado.

Sua vinda a Piracicaba, aliás, foi cercada de segurança.  Já nos contactos telefônicos desde o Acre, ele me pedia segurança 24 horas por dia.  Assim fizemos.  Na noite após sua palestra, um momento piracicabano: fomos eu, ele e seu segurança comer peixe e tomar cerveja na rua do Porto.  Conversamos até de madrugada sentindo o cheiro do rio, compartilhando a amizade de Arakén Martins (o pintor, que também tinha – tem ainda? – um barzinho ajeitado na barranca do rio), e discutindo ideais de um mundo melhor.  Tenho ainda o cartão de Natal que ele me mandou aquele ano, do Acre, pouco antes de nos deixar.

Tive uma assessoria de comunicação com um colega jornalista que virou, na experiência, um desafeto eterno.  Dei aula – com muita honra e orgulho – na UNIMEP, convidada que fui pelo Adolpho Queiroz, já então galgando a carreira acadêmica.  Fui correspondente do suplemento Agrícola do jornal O Estado de São Paulo durante sete anos (de 87 a 93) para Piracicaba e região, publicando textos e fotos das experiências dos professores esalqueanos. Destaco as matérias sobre a criação de capivaras e de jacarés em cativeiro (coisa do Abel Lavorenti), sobre novos métodos de plantio com menos espaçamento entre plantas; do método de incorporação dos restos de colheita no solo para enriquecê-lo….e fui me tornando um pouco agrônoma no contacto com a ESALQ.

Tanto que quando a vida se torceu de um jeito em que eu nada mais tinha a perder, e resolvi tentar a loucura de fazer um mestrado nos Estados Unidos, foi a área de Comunicação Agrícola que eu escolhi.  De lá para cá, eu chamo de sobrevida. Tudo – e muito! – mudou.

Virei pesquisadora – que gosto de descrever como apenas uma jornalista bem mais profunda – e trabalhei em vários lugares junto aos meus novos compatriotas norte-americanos, um povo que eu sempre admirei, e admiro ainda muito mais após viver esse tempo todo com eles.  Quando eu fui, a idéia era nunca mais voltar.  Meu plano era de “puxar” meus filhos eventualmente para lá, e esquecer prá sempre o Brasil.  Mas como dizem nos Estados Unidos: “A gente faz planos, e Deus dá risada”. Meus filhos não foram. Ou melhor, minha filha foi, ficou lá três anos, não se acostumou. Meu filho só foi visitar algumas (muito) poucas vezes, e por 15 dias cada vez. A crise econômica norte-americana, aliada ao fato de que eu não estava ficando mais jovem a cada dia que passava, me convenceram que, difícil por difícil, melhor ficar perto dos meus filhos, pelo menos.

Então voltei. Resistindo. Não convencida. Com saudades das boas pessoas que encontrei por lá, que me acolheram, me deram oportunidades incríveis. Meus filhos têm feito ter valido a pena, e aos poucos vou conhecendo de novo pessoas boas por aqui.  Está tudo bem.  Sei que estou no lugar onde deveria estar, e vou sempre fazer o melhor com o que a vida me jogar. Já dei conta de muita coisa antes, e sei que posso continuar dando conta.

Enquanto re-descubro criticamente o Brasil, esse pedido do Cecílio – que eu aliás entrego atrasadíssima – me faz mergulhar na memória de uma vida minha que existiu em Piracicaba.

Meu querido Cecílio, você sempre essa pessoa tão generosa comigo, muito obrigada por esse rever, por essa oportunidade, e também muito obrigada desde já por me perdoar o atraso.

Comecei a escrever este texto logo em seguida a nossa conversa por e-mail um ano atrás (mais ou menos?) e fiquei de continuar em seguida… e um ano se passou quando agora o retomo e termino.

Ao encerrar esse texto, agradeço Piracicaba e sua gente, de coração, por tudo o que me ensinou, pela acolhida, pela riqueza de experiências. Tudo o que vocês são, o que a cidade e sua cultura são, são parte de quem eu me tornei, e se estão envelhecendo comigo, ainda – de fato – não morreram.

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