Thales de Andrade, segundo João Chiarini – II (final)

Thales é uma criança grande que sonha. Não há literatura infantil sem sonhos. E é por isso que sabe onde está o interesse infantil. E habilmente não fez histórias seriadas. Apanhou os problemas e transformou-os em cantilenas, porque páginas, que correspondem à atuação da criança.

Ele fabula como as crianças, com estas sonha e cria mundos realizáveis. Não se achega ao fantástico e ao encantamento, embora tenha partido destes estágios da cultura. Não há uma cultura num povo. Há, sempre, eternamente duas. Se-lo-ão mais diversas, mais distintas, quanto mais primitivos forem os povos, as nacionalidades. Porque também a forma erudita é o primitivo. O folclore é o nível popular da cultura; a literatura é o nível superior, a cultura oficial. Há uma dualidade cultural indiscutível:

a cultura da elite é para uns poucos e se lha conquista a longo prazo, envelhece-se procurando- a, pesquisando-a.

A cultura popular é de todos, se firma, se consubstancia, é inalterável,

porém raramente antagônica à outra.

A cultura do povo tem a sua poesia, a música, as cores, as danças, oriundas de sonhos, de sentimentos, de aspirações, de recessos, etc.

É evidente que a esse folclore Thales deu literatura, que um e outro se confundem, tendo-se em vista, sempre, que o folclore construiu e alimentou a literatura infantil.

ESPECIAL

Logicamente a literatura infantil não surgiu infantil. Entretanto, não será contraditório que escrevamos, que a de Thales é geneticamente infantil.

Aqui está o seu outro poder.

Não escreve para adultos, para depois transformar o material em qualidade e características infantis.

Thales pertence à criança, é criança. A historiografia infantil brasileira compõe-se de 2 mil títulos.

60 volumes pertencemlhe, 313 edições são suas e mais de 3 milhões de exemplares trazem o seu nome.

Cifras resultantes do sentido humano que dá às suas obras.

Responde aos anseios das crianças.

São mensagens, comunicam-lh’as traços de cultura nacional popular.

A matéria prima é brasileira, tradicional, folclórica. Nada de motivos orientais ou do exterior, com formas novas. Naqueles 2 mil volumes apontados, quase 80% têm tema estrangeiro. Desnacionalização terrível.

Os seus propósitos são sadios.

O seu maravilhoso não é fictício, inverossímil. Está aos nossos olhos “Itaí, o menino das selvas”, lº edição, esgotada, 300 páginas tão juvenis como infantis de portentosa natureza brasílica. É dum lirismo comovente.

Itaí é o protetor avançado das águas, das árvores, dos peixes, de todos os bichos bons. São seus amigos os mitos e as lendas brasileiras: curupira, iara, perudá, uirapuru, boitatá…

Thales compreendeu Itaí e lançou-o como uma história interessante e emocionante, recreativa e edificante, de um brazilíndiozinho prodígio, mas cheia de proezas e aventuras, em transes de fábula.

O seu autor é humílimo. Nunca lhe fizeram propaganda, divulgação.

Lobato tinha meios publicitários e uma editora. “Saudade” foi vendido ao “Jornal de Piracicaba” por 300 mil réis. Deu já milhões e milhões à Companhia Editora Nacional. E seu autor é paupérrimo.

Mesmo assim, Thales em qualidade e quantidade sobrepuja Lobato.

Thales tem 60 obras; Monteiro, 17, considerando-se tão somente as infantis.

Que missão terá a literatura de ambos? Lobato fez apenas histórias! Enredou contos!

A criança grande não desejou isso. Fundamentalmente conduz os leitores a uma educação diferente.

Não a quem receita muitas escolas primárias, defeituosas, velhas, de princípio deste século.

Preconiza, isso sim, a escola humanizada em consonância com os processos educativos socialmente úteis.

Thales não imaginou nenhum de seus livros sem diretrizes. Traçou rumos seguros. Planejou. Alcançou sua finalidade, porque, afora o seu poderoso espírito inventivo, criador, aproveitou bem, humanamente, as nossas coisas, os seres e deu-lhes formas novas, coletivizadoras.

O fantástico, na sua técnica, chega a ser muitas vezes realidade. As lendas e a mítica envolvem-nos de uma atmosfera pura, sem o falso, o temerário.

O magistério deu-lhe experiências proveitosas, sem embargo dos dissabores nos cargos que exerceu na administração. E daí os seus livros vivos, extuantes de animação.

Thales é poeta, Monteiro não o é. Leia-se o “Itaí, o menino das selvas”- há mais dinamismo e mais musicalidade do que no “Saudade”. Os seus textos são como o imã, sugestivos, atraentes.

Com explicação de vocábulos técnicos nas páginas que se lêem e no final. Um monumento de beleza e de graça.

E vem vindo “Itaí, fora das selvas”.

Em preparo: “Itaí, entre os cariocas”. Logo depois de “Itaí, o menino das selvas” apresentounos “O irmão café” em quadrinhos.

É contra a monocultura e a monoprodução, pró policultura e poli-produção.

Nele fala da festança do terreiro. E faz discurso o café, com gritos e vivas do açúcar, da laranja, do cacau, do côco, do minério de ferro, do manganês, da banana… E peroram o algodão, o cacau, a laranja, outros mais, irmãos de produção, da família solo, que vara a noite, com danças, cantorias, rodas, fogueira, bambus com bandeirinhas. A assistência técnico-científica aos nossos problemas rurais, a fixação do rurícola ao meio, produção agrícola, tudo de mãos dadas com o folclore.

Tema básico, fundamental à economia brasileira, com o timbre da inovação em sua dupla apresentação: em quadrinhos e com folclore.

O processo criativo popular não é momentâneo, cujas personagens sofrem aculturações com o tempo. Opera-se nelas transformações amplas.

A imaginação popular é incessante, modificadora. Há séculos passados os episódios que compunham os textos tinham uma significação.

Hoje os mesmos aspectos têm outros destinos e estruturas. De uma mesma história há inúmeras versões. Entes que eram maus,

agora, são bons. É psico-pedagogia de novo tipo, é o poema pedagógico de Macarenko, contribuindo para o aprimoramento da literatura infantil.

Se assim não o fosse, ela seria delinqüente. Ninguém mudará a arquitetura da novelística de Thales. Sonhou em cores, quentes e vivas, contrastantes. O original de “Saudade”, de 1919, comparado com “Saudade” quarentão é o mesmo. Mudaram os caracteres tipográficos. As ilustrações são coloridas. Edições gigantes. Mas “Mário”, “Nhô Lau”, “Rosinha” são as mesmas crianças, que deparamos nas travessias dos canaviais e das roças.

É muito difícil mudar a fisionomia de nossos povoados e arraiais. Só a reforma agrária planejada, não dirigida, é capaz disso.

A ecologia de nossa roça é a mesma descrita pelos viajantes-escritores setecentistas, octocentistas.

O boletim que usamos nas nossas escolas primárias é o mesmo que se entregava em 1900. O Código de Educação tem a nossa idade. O nosso grupo escolar fez em junho 4 anos. Não tem bomba d’água. Não tem água limpa! O que quer dizer: as nossas instalações são higienizadas ao Deus dará. E como é uma escola típica rural há práticas rurais, cujas plantas aguardam a chuva, alimentando-se da seca irreverente e má.

Dizíamos, que as obras de Thales não tomam novas formas. De “Saudade” fizeram-se mais de 20 peças teatrais infantis. Ninguém eliminou o seu conteúdo e os seus seres. Não poderá existir “Saudade” sem “Nhô Lau”.

Em Monteiro — referimonos sempre a ele porque alguns apressados o colocam além de Thales – o processo não se repete.

“Emília no país da gramática”, literatura infantil, não é o mesmo teatro infantil.

Livro com textura e poder imaginativos, cheios de epítetos, são alteráveis, modificáveis, dão versões diversas. A personagem folclórica de Malazarte é uma reivindicação, subconsciente do populacho. É universal e com tantos nomes diferentes.

Vejamos um exemplo do cinema. “Carlitos” não poderá atravessar uma rua de Ifni, na costa africana, que é reconhecido e impedido de fazê-lo. Massacrado até. Mas se Charles Chaplin, septuagenário o fizer, passará incólume. Uma roupa, uma cartola e uma bengala mudam os homens e a história.

“Carlitos” é um símbolo. Charles Chaplin, um gênio!

As personagens de Thales são imutáveis, as histórias também e em quaisquer áreas geográficas.

Thales é religiosidade do que punitivo. Um e outro centro são expressões folclóricas. A literatura infantil é cheia de punições, repletas de atos sentimentais. Shakespeare é todo folclore medieval.

É claro que o folclore de Shakespeare é puro, autêntico, medievo. O de Thales é literalizado, um estetismo pronunciado. Auto-crítico, depurou certas formulações, que desagradariam as crianças.

Repetimos, como reforço, que já uma vez lhe dissemos, que recolhesse abundantemente o folclore: nomes, roupagens, utensílios, locais, regras de bem viver, etc. Que lhe desse polimento, até mesmo um tratamento mais completo: mudando, fixando, localizando, atualizando, o que se tornará mais próprio ao público menor.

Em “Itaí, o menino das selvas” aproveitou o folclore indígena, incluindo-se o do campo e o do mato.

Tome agora, para si, o folclore negro ou africano. Dê-nos mais livros, bastante, muito, novelas infantis ou especificamente escolares, como “Ler brincando”, cartilha, 54º edição; “Espelho”, primeiras leituras de divertimento que instrui, 17º edição;

“Alegria”, lº ano, uma história em 25 historinhas, 13º edição; “Vida na roça”, 2º ano, 26º edição, desenvolvimento de um centro de interesse – o milho – feito uma história especial para leitura na escola rural; “Trabalho”, 2º ano, 34º edição, primeira parte de uma história de menino pobre contada por ele próprio, revelando o valor do trabalho, para a honesta obtenção do que se precisa na vida; “Na oficina”, 2º ano, l º edição, segunda parte dessa narrativa, epilogando com a conquista de vantajosa posição financeira e social pelo trabalho. Em ambos os volumes esplana-se a idéia de que todos devem habilitar-se profissionalmente. “Senhora pernilongo” é uma publicação do “Diário Carioca”.

O escritor que também foi criador da Cotubaína

Ao pensarmos na composição camarária local para o quadriênio 1960/1963, precisaremos registrar que ele fora vereador em nossa urbe.Possui mais de uma dezena de medalhas culturais e comemorativas.

No começo desta ano (o texto de Chiarini, sem data, provavelmente foi escrito no final da década de 70) o Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo tributou-lhe excepcional homenagem, que se embreou em festas, que duraram meio ano, por ocasião do 30º aniversário de Saudade (1949). Será, em breve, um sócio honorário.

Colocaremos a sua cabeça, obra de Morrone, na Biblioteca Infantil “Monteiro Lobato”, em São Paulo. Losso Netto escreveu certo, quando sugeriu o nome de Thales à Academia Paulista de Letras.

E teve tempo de criar a Cotubaína, refrigerante tão doce como o seu “Saudade”e tão refrescante quanto a sua vasta, ampla, imensa e inconfundível literatura – que é folcloricamente, inteirinha piracicabana.

 

 

Thales nasceu em Piracicaba a 15 de setembro de 1890. Fez todos os estudos na terra natal. Cursou o Grupo Escolar Rio Branco e o Colégio Piracicabano, diplomando-se pela Escola Normal Oficial.

Já lhes contamos que iniciou o magistério público em escola rural isolada, no bairro do Banherão, em Jaú. Hoje, a escola chama-se “Saudade”, homenagem a seu segundo livro. Foi depois professor no Grupo Escolar de Porto Ferreira e na Escola Normal Oficial de Piracicaba, onde ocupou a cadeira de História da Civilização e o cargo de diretor, por quase cinco anos.

Nomeado inspetor do ensino público rural, logo a seguir promovido a assistente técnico, participou de inúmero congressos.

Iniciou os Clubes Agrícolas, com o apoio da Sociedade de Amigos Alberto Torres.

Foi diretor geral do Departamento de Educação. Em 1948, secretário de Estado desta pasta. São seus os concursos de provas e títulos para o ingresso no ensino típico rural. Trinta por cento de toda a legislação rural (atos, portarias, decretos e leis) até hoje são oriundos de suas medidas e propostas.

Colaborou na imprensa piracicabana, na “A Cigarra”, “Vida moderna”, “Revista da Educação”, etc.

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