Tipos Inesquecíveis (3)

Permitam-me voltar a falar da minha irmã Neusa, após quase dois anos da sua morte, quando A Província me permitiu escrever uma crônica sobre ela e suas qualidades.

Neusa era onze anos mais velha do que eu e, quando criança, eu sofria em suas garras enérgicas, acompanhando meus estudos, no curso primário. Graças a ela, entrei, já alfabetizado, na escola. Era ela quem tomava as minhas lições e me dava coques e petelecos, quando errava as respostas. Isso, em absoluto, não me traumatizou, o contrário do que argumentam os papais e protetores da infância e da juventude de hoje. Eu gostava muito da minha irmã, nos entendemos muito bem, durante toda a nossa vida e ela soube me acolher com carinho, nos meus momentos de tristeza.

Em suas férias escolares, na adolescência, ela ia, frequentemente, passar alguns dias em Piraçununga, na casa do meu tio João, irmão do meu pai, que era farmacêutico. Foi nessa cidade que veio a conhecer meu cunhado Manoel, excelente pessoa, com quem viria a se casar.

Durante a minha infância, eu era sócio da biblioteca infantil, que ficava no piso superior do Teatro Santo Estevão, onde o “seu” Mário, carinhosamente, nos indicava livros de estórias, os mais belos, que me deslumbravam. Foi o início do meu gosto pela leitura, já que naquela época não havia, ainda, a televisão e era, através dos livros, que conseguíamos acesso ao maravilhoso mundo da imaginação.

Neusa, sabendo do meu gosto e prazer pela leitura, a cada viagem que fazia, me trazia um livro de estória, carinhosamente escolhido, de preferência colorido e alguns deles trago ainda guardados, até hoje. Digo alguns, porque minha casa, há anos, foi invadida por uma legião de cupins, que corroeram livros, revistas, elepês e até fitas de vídeo. Estas, até que não lamentei, porque já estavam sendo substituídas pelos DVDs, que, futuramente, serão também impiedosamente substituídos por alguma nova tecnologia. Em cada um dos livros ela escrevia uma dedicatória, datando-os.

No curso primário do Sud Mennucci, onde estudava, minha irmã fazia o curso normal, que formava futuros professores. Quando algum professor faltava, eles atuavam como substitutos. Numa dessas ocasiões, uma amiga da Neusa acabou substituta, na minha sala de aula, e, para agradar os alunos, levou uma espécie de aeromodelo, a fim de oferecer como prêmio a quem desse a melhor resposta a uma pergunta, que formularia. O que era uma esfera? Eu respondi que era o globo terrestre e um colega respondeu que era uma bola de futebol. Eu achava que a melhor resposta teria sido a minha e fiquei magoado, quando a substituta deu o aeromodelo para um colega.

Criança inconsolável, em casa, não me contive e desabafei com a Neusa, que ouviu as minhas lamúrias. Passados alguns dias, ela chegou com um belo livro de estórias, com uma dedicatória da Benedita, a substituta, teria me mandado. Fiquei eufórico esqueci do aeromodelo.

Devem ser passados uns sessenta anos desse acontecimento e, há pouco tempo, andei colocando as coisas em ordem, em baixo de um balcão, que existe no meu quarto, onde está o computador, com o qual escrevo estas mal traçadas linhas. Encontrei, entre badulaques, os livrinhos de estórias da minha infância. Comecei a folheá-los e ler as dedicatórias, com emoção. A maioria deles era produto das viagens da Neusa a Piraçununga e, curiosamente, o último deles era o livrinho que um dia eu ganhei da substituta Benedita. Foi quando a ficha caiu: as letras eram todas as mesmas – a da Neusa e a da professora substituta. Lá se vão tantos anos e só agora fiquei sabendo que minha irmã, quando me viu, inconsolável, por ter perdido o aeromodelo, comprou um livro, escreveu uma dedicatórias me deu, como se fosse a Benedita.

Depois disso, não tenho como deixar de incluir Neusa Theresinha Cera Pedroso de Lima como mais um dos tipos inesquecíveis, que passaram e estão passando pela minha vida.

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