Tipos inesquecíveis: D. Aníger Melilo

Quando amigos me cobram para escrever mais a respeito de pessoas que me marcaram a vida, meus tipos inesquecíveis, acabrunho-me e, ao mesmo tempo, sinto desejo de render graças. Pois me reconheço um privilegiado, tantos os homens e mulheres, de todos os níveis sociais, que me marcaram a vida, influenciando-me, impregnando-me de suas qualidades que nem sempre eu soube somar dentro de mim.

Estou escrevendo um livro, talvez o meu último – que reúne tantas histórias, personagens, acontecimentos – pelo tempo que exigirá de mim de trabalho, de reflexão, de recuperação de memória. Nele, as personagens reais são tantas – marcando-me com seus exemplos de vida, com suas qualidades e defeitos, com sua humanidade completa – que passei a chamá-las de “meu povo”. Pois é um povo, uma multidão que, desde a infância, se me fixou na retina dos olhos e da alma.

Um homem há, no entanto, que me marcou a vida como se com um ferro em brasa: D. Aníger Melilo, Aníger Francisco Maria Melilo, segundo bispo de Piracicaba. Ainda hoje, numa mesa antiga onde criei como que um altar de meus ancestrais, lá está a foto de D.Aníger, parte essencial de minha família espiritual. Disse-o sempre, digo-o ainda: tive um maravilhoso pai carnal, Tuffi; e um extraordinário pai espiritual, D. Aníger Melilo. E tudo começou, como se o destino tivesse traçado linhas ou bordado a renda intrincada, em minha atuação nos movimentos comunistas da juventude. O Partidão me encarregara, com outros então jovens universitários, a fazer proselitismo junto às então chamadas juventudes católicas: JOC (Juventude Operária), JEC (Juventude Estudantil), JUC (Juventude Universitária). Nós, então comunistas de carteirinha, tínhamos a missão de infiltração, de cooptação, de doutrinação. João Chiarini era um dos principais teóricos, ao lado do inesquecível Hélio Krahenbuhll.

Ser comunista, nos 1950/60, era de bom tom, de bom gosto, como que uma moda intelectual. E havia um paradoxo: a proclamação do materialismo ateu e a expectativa do então chamado “compromisso histórico”, a união dos partidos socialistas e comunistas com a Igreja Católica. Este, porém, era um lado estratégico, pois ser ateu era um dos fundamentos marxistas daquela época. E eu, tendo saído de colégio salesiano, mergulhei fundo naquele ateísmo, na “religião, ópio do povo”.

Sessão do Concílio Ecumênico Vaticano II, Dom Aníger se encontra na terceira fileira, o segundo da esquerda para a direita

Sessão do Concílio Ecumênico Vaticano II, Dom Aníger se encontra na terceira fileira, o segundo da esquerda para a direita

Foi quando D. Aníger se tornou bispo de Piracicaba. Já acontecera o Concílio Vaticano II. Mas o histórico de D.Aníger, quando padre em Piracicaba e coadjutor na Igreja Matriz, era de um conservadorismo radical, de moralismo ultrapassado, de sectarismo infenso a qualquer diálogo. Como coadjutor da antiga Matriz de Santo Antônio, ele liderava movimentos marianos, estimulava denúncias a filmes considerados moralmente atentatórios à orientação católica. João Chiarini elencava todas as antigas atividades pastorais do então Padre Melilo. Ou seja: D.Aníger, como bispo, chegou como inimigo ideológico a ser enfrentado.

Mas, de repente, ele se revelava um pastor com idéias e projetos totalmente diferenciados. Foi buscar jovens seminaristas tidos como rebeldes em seus seminários de origem, moços que se tornaram padres atuantes em Piracicaba desde o início dos 1960: Otto Dana, José Maria de Almeida, José Maria Teixeira, Quirino, Valmor, muitos outros. E a Diocese rejuvenescia e os intelectuais de esquerda se espantavam. Com D.Aníger, chegara, a Piracicaba, a Primavera da Igreja. E quem se incomodou foram os conservadores, os tradicionalistas católicos.

Mesmo assim, a juventude comunista se mantinha à distância, apesar da expectativa de um possível “compromisso histórico”. Fui, no jornalismo, um ácido crítico do bispo e de seus padres. Nunca, pessoalmente, eu vira ou me encontrara com D. Aníger. Então, veio o golpe militar de 1964, a decepção, a amargura, o choque. Jovens estudantes eram perseguidos ao lado de intelectuais, jornalistas, professores.

Minha primeira surpresa com D.Aníger foi quando, numa ousada passeata de estudantes e operários, a polícia pediu auxílio ao Exército, em Campinas, para conter os manifestantes. Havia tanques de guerra na rua, cães amestrados. Então, vimos o que parecia impossível: à frente das centenas de manifestantes, estava D.Aníger, protegendo-os, de mãos dadas com o pastor metodista Ângelo Brianesi. A multidão foi abrigada dentro da Catedral e, à porta, D. Aníger e o pastor Ângelo, de mãos dadas, enfrentaram pacificamente policiais e soldados do Exército, protegendo a juventude rebelde. Veio-me, no mais fundo das convicções, a primeira dúvida: quem era aquele homem, em que se transformara aquela Igreja?

Doutra feita, enfrentando todos os problemas da ditadura e comandando um pequenino jornal, a Folha de Piracicaba, denunciei, furiosa e ferozmente, uma situação de repugnante injustiça social: uma família, sob frio intenso e chuva, morria de fome e de frio sob um viaduto da cidade. Vicentinos vieram em busca de auxílio, apelando ao jornal. Num acesso de fúria, escrevi a palavra que, hoje, até o Lula usa sem qualquer problema, mas que era indecente à época: “Esta sociedade é uma merda!” Piracicaba se escandalizou não com a injustiça, mas com a palavra chula. Professores da UDN pediam a minha cabeça, senhoras católicas, as de passeata da Marcha da Família, queriam minha punição. Então, sem que eu soubesse, D. Aníger, numa missa da Catedral, saiu em minha defesa: “Ele usou a palavra certa, na hora certa. O escândalo está na injustiça, que merece, sim, um palavrão.”

Fiquei aparvalhado. E, logo em seguida, o Exército me alcançou, processando-me como subversivo – a mim, pequenino jornalista interiorano – como incurso na Lei de Segurança Nacional. Foram dias terríveis, pois minha primeira filha tinha apenas alguns meses de vida. Então, meu advogado me procurou, emocionado. Ele recebera uma carta de D.Aníger Melilo saindo em minha defesa, a mim, jornalista que se dizia ateu. Na carta, dirigida às autoridades militares, D.Aníger dava-lhes uma garantia: “O jovem jornalista é um bom cristão.” Nem eu sabia disso.

Em 1967, o falecido Luiz Carlos Cassab – amigo de infância, irmão – me convidou a fazer um curso que, segundo ele, iria me trazer grande experiência. Enganou-me dizendo ser um encontro de discussões filosóficas, políticas. Era o Cursilho de Cristandade, o segundo de Piracicaba. Aceitei, sem saber tratar-se de um curso de fundo religioso. E, sem o pretender, entrei em minha estrada de Damasco. Lá estava D. Aníger, que me recebeu com um sorriso doce e um abraço paternal. Comecei a sofrer com dúvidas, com inquietações, com conflitos interiores. Na madrugada do 7 de julho de 1967, saí, sozinho, a caminhar pelos espaços do Seminário da Nova Suíça.

Era noite gélida, mas havia mais frio em minha alma. Então, detive-me diante de um viveiro de pássaros, que começaram a voar, assustados com minha presença, despertados de seu sono noturno. No chão, duas cobaias – uma pretinha, outra branquinha – começaram a correr, também assustadas, como que com medo de mim. Então, um relâmpago e um raio de lucidez me atingiram o coração e a inteligência: que fazia, eu, pregando luta de classes, negando o divino, ridicularizando o sagrado da vida, defendendo revoluções se até animaizinhos de cores diferentes se agasalhavam um no outro, solidários, em comunhão?

Na minha estrada de Damasco, naquela madrugada, caí do cavalo. E, desesperado, quase arrebentei a porta da capela do Seminário, precisando de algo que eu não sabia do que se tratava. Mal toquei na porta, ela se abriu. E lá estava D. Aníger, de braços abertos para mim, abraçando-me, acolhendo-me: “Eu o esperava, meu filho. Eu sabia que você viria. É a sua hora da graça.”

Até o fim de seus dias, D. Aníger foi meu pai espiritual. Quando ele morreu, minha orfandade de alma e de espírito nunca mais foi preenchida. É o mais inesquecível dos tipos humanos que passaram em minha vida, uma saudade eterna, tão intensa que dói.

Autor: Cecílio Elias Netto

2 comentários

  1. Tarsila Melillo de Magalhães Andrade em 09/03/2014 às 22:37

    Querido Cecílio!
    Não o conhecia, mas só de ler sua crônica, já o quero bem, de coração!
    Sou sobrinha de Dom Aniger, essa doce e esclarecida pessoa que também nos acompanhou com muito amor na nossa infância, sem nunca falar em pecado, nem diabo, nem no fogo dos infernos.
    Posso dizer que Dom Aniger não era assim como diziam “ultra conservador e moralista ultrapassado”, não era não.
    Ele sempre teve uma mente muito sadia, não acompanhava beatos e não se atrapalhava com o fervor de devotos de santos e marias.
    Ele dizia “Cristo é o centro e o amor nos leva até onde não imaginamos chegar”; “Olhem para o Cristo e olhem para quem ama”; “Não parem, não voltem para trás, mas caminhem olhando em frente, nos caminhos que fez o Cristo e nos caminhos que faz quem muito ama ou quem muito já amou”; “Abram os olhos, empenhem-se numa luta, há muito o que fazer p’ra esse mundo ficar melhor”.
    Com afeto, Tarsila

  2. Maria Marta em 11/03/2014 às 13:14

    Sou irmã da Tarsila e tenho mais 6 irmãos filhos de Pérola Melillo de Magalhães, irmã de Dom Aniger e Auta – viúva de Mesquita. Queria também parabenizar e agradecer as crônicas q escreveu sobre nossa família, especialmente sobre nosso tio Bispo. Estão ótimas e muito reveladoras. Minha mãe com 93 anos, também leu e ficou comovida e repetiu a última frase, pensativa: “É o mais inesquecível dos tipos humanos que passaram em minha vida, uma saudade eterna, tão intensa que dói.” Como é bonita sua história e as coincidências que conta. Acho sempre muito bons os seus artigos e crônicas. Contando o que v. viveu e suas opiniões a gente percebe como é uma pessoa boa. Continue semeando o bem. Parabéns
    Maria Marta M.Battistoni

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