Tipos inesquecíveis: Dona Romilda, a primeira professorinha

Há alguns anos, na noite de lançamento do meu último romance, “Miserere Mei, Amor”, no infelizmente desaparecido Espaço Lisboa – na rua do Rosário, onde fora a Sociedade Beneficente Portuguesa – vivi um impacto emocional que, não me explodindo o coração, derramou-me lágrimas purificadoras. Foi um instante em que uma jovenzinha linda, toda sorridente, me entregou – embrulhada num guardanapo de papel – uma pequenina maçã. A princípio, não entendi. Por que aquela maçã numa noite de autógrafos, de lançamento de livros?

A quase menina sorriu, sorriso malicioso e desafiador, disse-me: “Foi minha mãe que me mandou lhe entregar, dizendo que você se lembraria.” Por alguns instantes, fiquei paralisado, perplexo, a memória como que neutralizada. Ora, uma simples maçã, quem, na vida, me dera uma simples maçã, que mulher – mãe daquela jovenzinha – me oferecera maçã? Então, quase sufocado, o peito doendo, comprimindo a alma para ela não transbordar em lágrimas, falei à mocinha: “Dona Romilda? Essa maçã é de dona Romilda? Você é filha dela?” E caí em prantos.

Romilda Casale foi o primeiro amor de minha vida, acho que o meu mais puro e belo amor, como o de tantos meninos de minha geração por sua primeira professorinha. Fiz o curso primário, no Externato São José, naquele prédio histórico que, na esquina da rua Alferes, com D.Pedro, foi Faculdade de Odontologia, entregue à Unicamp, negociado por quinquilharias, onde havia toda uma história de Piracicaba. Nele, dona Romilda foi minha professorinha, a primeira. Ela, linda, a moça, a mulher, a pessoa mais bela que eu jamais vira na vida. Toda feita de doçura. Eu tinha seis anos. E, antes de entrar na escola, já estava alfabetizado. Mas queria saber das coisas, uma fome e uma sede por dizer insaciáveis de entender, maldição que ainda me acompanha. Dona Romilda me compreendeu, mas, mais do que isso, viu, enxergou, percebeu, sentiu e viveu a pobreza de minha família naquele ano de 1946, ao final da II Grande Guerra.

Uma irmãzinha minha, Carol, tinha sido atropelada e morta por um caminhão. Foi a grande tragédia de nossa família. Meus pais foram mortalmente golpeados na alma, especialmente meu pai, que vira sua filhinha morta sob a roda de um caminhão. Todo um universo familiar desapareceu, um mundo lindo caiu. Ainda hoje, lembro-me de meus pais derrotados, abatidos, esfalfados, sem forças e sem vida, deitados na cama de casal, um ao lado do outro, mortos-vivos. Foi minha irmã Leninha, a Marlene, que cuidou de nós, com apenas 16 anos, dando aulas de piano, de Latim, guerreira, generosa, cuidadora, protetora. Houve dias em que não tínhamos o que comer. E Dona Romilda sabia disso, ainda que eu mesmo não o soubesse. Então, ela me levava – sabendo que eu, menino e seu aluno, não teria o que comer – uma doce, grande ou pequenina, mas sempre doce maçã. E ma dava às escondidas, evitando ver-me humilhado.

Dona Romilda Casale, também da família Delfini, morava num casarão da Rua Boa Morte, quase ao lado da Catedral. Ainda que parente dos Delfini, usineiros, ela também era sofrida, pobrezinha. Mas linda. E com a generosidade do coração feminino que – a partir dela e ao longo de minha, posso dizê-lo hoje – procurei em mulheres que amei. Dona Romilda foi, fora do meu mundo familiar, a primeira pessoa a me revelar a generosidade feminina. E a amei como a mulher ideal, feito um saltimbanco da Idade Média, amor cortês, assexuado, feito de delicadezas, de gratidão, de generosidade. E eu sei que ela soube – professorinha acho que com menos de 20 anos – que foi amada por aquele menino de apenas seis anos de idade. Pois eu roubava flores e pedia para minha prima querida, Ataly, deixar na mesa de Dona Romilda, antes de as aulas começarem. Ataly pulava a janela da sala de aula, deixava as flores na mesa, saía correndo.

E, quando a aula começava, dona Romilda olhava as flores e me sorria, com um olhar tão generoso que nunca me fez sentir criança, fedelho, idiota. Ela entendia o meu amor. E ao me dar a maçã, para alimentar-me, sei que Romilda Casale me amava. Ela, Romilda, é um dos meus mais admiráveis tipos inesquecíveis, pois foi ela quem – no mundo, além de meu lar – me revelou a feminilidade da mulher, feita de cuidados, de gentilezas, de doçuras, de ternura. E faço, agora, nos meus 70 anos, uma confissão serena e pacificadora: mulheres que amei, amei-as a partir da nobreza, da dignidade, da doçura, da ternura, da alma feminina de Romilda Casale, dona Romilda, minha professorinha.

A maçã – que ela me levava para minimizar-me a fome da pobreza – foi a fruta que busquei em cada mulher que amei. E, quando encontrei, vivi o Paraíso.

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