Tipos Inesquecíveis: Doutor Cera, cabeça de ateu, alma cristã

Memorável é aquilo ou aquele que fica na memória. E, se na memória está, torna-se inesquecível. De minha parte, confesso-me abençoadamente perplexo ao me dar conta de quantas personalidades memoráveis marcaram-me a vida, homens e mulheres inesquecíveis. São tantos que, sei, não terei tempo para falar deles. E tão fascinantes que será pouco o que eu contar daqueles sobre os quais escrever. O doutor Cera, Antônio Cera Sobrinho, foi um deles, lembrança viva que seu sobrinho e meu amigo querido, Roberto Antônio Cera, já tentou descrever. Usei propositalmente o verbo tentar. Pois não passará de simples tentativa narrar pedaços de vida de um homem tão complexo, polêmico, controvertido, discutido e discutível quanto o Doutor Cera.

Nele, existiram o dr.Jekyl e Mr.Hyde, opondo-se, confrontando-se, furiosamente brigando, o médico e o monstro, o santo e o pecador, o anjo e o demônio. No entanto, com atitudes muitas vezes contestáveis como médico, posso dizer que poucos homens vi com o coração tão profundamente generoso, tão humanamente solidário quanto o do Doutor Cera.

Ele era amigo de minha família e, desde a infância, eu o via de passagem, conversando com meu pai, de quem fora companheiro de atletismo no Clube de Regatas. Até o fim da vida, o Doutor Cera teve um corpo de atleta, apesar da grave doença que o acompanhava – um tipo de hanseníase – e a quase cegueira. Foi, porém, quando me tornei redator do jornal Folha de Piracicaba e, depois, diretor e proprietário, que conheci mais profundamente o Doutor Cera. A Folha estava numa espelunca da Rua Rangel, ao lado da casa da família Crocomo e em frente ao consultório e à residência do Doutor Cera. Nós, durante alguns anos, víamo-nos diariamente, algumas vezes por dia.

Ele vivia um anti-clericalismo visceral, dizendo-se ateu até a medula. Mas tinha amigos padres com quem conversava e convivia fraternalmente. A fama de realizar abortos o perseguia e este foi um assunto que nunca abordamos, apesar de o Doutor Cera, sendo médico das prostitutas – das quais o governo exigia exames clínicos mensais – esbravejar quando constatava alguma delas estar grávida: “Outro desgraçado irá nascer para sofrer no mundo, tornar-se marginal, um simples filho da puta. Que futuro pode ter um filho da puta?”

Mas não eram somente as prostitutas que o procuravam. Jovens com problemas de doenças venéreas, pobres com todo e qualquer problema de saúde, homens poderosos e mulheres da sociedade que sabiam da notável capacidade médica do Doutor Cera, de sua sabedoria, prática e experiência. Mário Dedini tinha, no Doutor Cera, um de seus médicos de confiança, conhecendo a sua história, do moço que fora farmacêutico e estudara Medicina já com idade adulta. Pelas filas imensas de clientes e pacientes em seu consultório, era de se supor fosse um homem rico. Mas era pobre: tinha uma charanga, a casa onde morava e ao lado da qual o consultório; outra casa que ficara com a primeira esposa quando da separação; a casa da amiga com quem se amasiara, a bela Anunciata, e um pequenino rancho. Certo dia, mostrando-me seus arquivos, avaliou que já atendera a mais de 50 mil pacientes, orgulhando-se de estar no mesmo time dos doutores Lula, Samuel Neves, João José Corrêa.

Político, foi integralista fanático, apaixonado por Plínio Salgado, disputando essa paixão com homens como João Vendemiatti, Lino e Guilherme Vitti. Quando o Bispo Ernesto de Paula esforçou-se para vetar a candidatura do protestante Domingos José Aldrovandi, candidato de Luciano Guidotti à sua própria sucessão, o Doutor Cera não teve dúvida: ele próprio sairia candidato para enfrentar Salgot Castillon, “esse protegido dos padres, filhote de sacristia.” Saiu candidato e quase venceu. E, quando o XV de Novembro estava soçobrando sem ninguém com coragem para comandá-lo, o Doutor Cera não teve também dúvidas: assumiu a presidência. Era um D.Quixote das causas perdidas.

Ora, muitos dizem que o homem caridoso é aquele que dá a própria camisa para quem não a tem, mesmo ficando sem nenhuma. O Doutor Cera dizia-se ateu. Certa tarde, saltou a mureta de seu escritório, entrou bufando na redação da Folha, vestindo apenas calça e um avental branco. Berrava: “Pobre devia nascer morto. Por que viver se não tem futuro?” Xingou, xingou e foi até as Casas Pernambucanas, no final da tarde, comprar uma camisa, pois a última que tinha e vestia, ele a dera a um cliente pobre que estava todo esfarrapado em seu consultório. Quantos cristãos já fizeram isso?

Amei o Doutor Cera até o fim dos dias dele e o mantenho vivo em minha memória. Não me esquecerei jamais dos fins de tarde em que ele e o nosso imortal Newton de Mello – autor da música “Piracicaba” – ficavam à porta da Folha contando-me “causos”, a história da cidade, as nossas belezas. E Newton gostava de se lembrar de quando, em tempos longínquos, o Doutor Cera fora chamado a fazer um parto de uma humilde mulher da zona rural, nas proximidades de Santa Terezinha. Era madrugada quando, em seu carrinho, chegou à beira do rio Corumbataí. A ponte estava quebrada. O Doutor Antoninho Cera – que fora grande nadador, remador, atleta – não hesitou: tomou de sua maleta, tirou as roupas, fez uma trouxa, atravessou o rio a nado. Na outra margem, vestiu-se e foi a pé até a casinha da mulher que gemia em dores. A criança nasceu, a mulher estava em boas condições e ele retornou, voltando a atravessar o rio a nado. E, quando Newton de Mello contava, o Doutor Cera fazia cara de espanto: “E o que tem isso de mais?”

Quando, ainda muito jovem, me casei, convidei o Doutor Cera, o ateu, para ser meu padrinho de casamento. Ele aceitou evitando chorar, sabendo que haveria cerimônia religiosa, que as famílias eram católicas. Abraçou-me e foi-se embora. No dia seguinte, apareceu com uns papéis que me deu como presente de casamento, presente de meu padrinho: eram as suas pouquíssimas ações da Folha de Piracicaba da qual ele era um dos sócios fundadores. Eu tinha 22 anos. De empregado, ainda que diretor, eu me tornava um dos donos da Folha, pelas mãos do Doutor Cera, meu padrinho, meu tipo inesquecível, minha saudade, homem com cabeça de ateu e alma cristã.

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