Tipos Inesquecíveis: Geraldo Nunes

Em 1992, quando recebi do “Jornal de Piracicaba” o convite para integrar a equipe de editorialistas, imediatamente veio-me ao coração a responsabilidade de “substituir” Geraldo Nunes. Sabemos que ninguém é insubstituível. Mas a Geraldo Nunes ninguém poderia substituir. Porque cada pessoa é única, tem sua própria marca, brilha do seu jeito, encanta ou incomoda à sua maneira, e Geraldo Nunes, como cada um de nós, é único e sempre o será. Em nossa lembrança, ficou a imagem do homem das letras, do amante das crônicas, do homem de jornal.

As pessoas ocupam na vida um espaço que lhes é devido, por ordem e graça de Deus. Algumas se acomodam nele e ditam algumas regras para si próprios, do tipo “seja feita a Vossa vontade”. Aceitam tudo o que a vida lhes dá, sem nada questionar ou buscar de novo para suas existências terrenas. Mas há os curiosos, os que agradecem, sim, ao Criador o que lhes é dado, mas ousam ir buscar além dos horizontes o que lhes falta para preencher o coração.

Uns se atiram às descobertas impetuosamente, avançando sem piedade, confundindo-se, às vezes, em seus rumos, na falta de discernimento. Sofrem e fazem sofrer os que vivem a sua volta. Mas há os que vão descobrindo aos poucos, na mansidão de cada dia, contemplando a natureza e a criação. Aprendem com elas, porque se sabem parte integrante deste universo.

Geraldo Nunes sempre me pareceu esta pessoa que, na aceitação das coisas da vida, possuía a chama da inquietude serena. Podia-se ver que buscava na palavra uma forma de manifestar esta necessidade de permanente contato com o mundo e com o relacionamento humano. As pessoas eram amadas por Geraldo e ele sabia demonstrá-lo na simples convivência diária.

Nas vezes em que compartilhei alguns momentos com Geraldo, sempre em função de trabalho, artigos e textos para publicação, percebia nele a devoção ao que fazia, o amor dedicado à missão que tomou para si, como um dever pelo qual daria a própria vida. Por vezes, tive a sensação de que, para Geraldo Nunes, o amor à cidade, ao Jornal de Piracicaba e o amor à vida eram uma só coisa. Ele entrelaçava estas afeições e o sentimento transparecia nos seus editoriais memoráveis.

Talvez saiba mais de Geraldo pelo que ouvi contarem dele, do seu modo de trabalhar, de agir, de manifestar sentimentos, do que pelo que vi propriamente, porque nossos contatos foram breves, porém marcados pela intensidade que a vida sempre cuida de nos proporcionar. Sempre que precisei de sua orientação no JP, ela veio, segura e sábia. Nunca me deixou sem resposta. Seu auxílio vinha pronto, correto, em poucas palavras.

A vaga que Geraldo deixou na nossa imprensa será eterna. Poucos de nós teremos o mesmo ímpeto, a mesma tenacidade para escrever, escrever, escrever, como teve Geraldo Nunes. Pena imbatível. Sabia tratar do dia-a-dia com a simplicidade com que deveríamos vivê-lo. Não sofisticava o texto com adjetivos inúteis. Mas conhecia a medida e a razão do que escrevia.

Seus editoriais no JP deixaram saudades, esta saudade que já sentíamos quando ele, suavemente, afastou-se das atividades jornalísticas e profissionais. O guerreiro também precisava repousar, desfrutar do merecido descanso, depois de anos na luta, no combate, na frente da batalha. Muitos já tiveram a inspiração de associar a redação, a elaboração de um texto a uma batalha. Se lutar com palavras é luta mais vã, haveremos de encontrar um modo de tornar este ofício eficiente e capaz. Capaz de transformar a sociedade. As palavras comovem, mas os exemplos arrastam. Feliz de quem, escrevendo, tenha o poder de comover e também de arrastar, de formar seguidores do bem, porque vive o que escreve.

Hoje, temos poucos destes líderes vivendo no meio das grandes multidões. Poucos conseguem arrastar, poucos tem o poder de tocar os espíritos, sobretudo nesta época atribulada em que vivemos, quando a vida mesma tem pouco valor. Parece que o desencanto tomou conta dos corações humanos, a ponto da desilusão ter contaminado grandemente a esperança.

Aprendemos com Geraldo Nunes o exercício desta esperança, com a crença de quem escreveu, escreveu, escreveu e trabalhou por um ideal. Ele levou o ofício da comunicação a sério e o exerceu como um sacerdócio. Aprendamos com o mestre que partiu há quase nove anos. Ele arrastou leitores apaixonados, por meio do seu texto singelo. Multidões na leitura diária, com o Jornal de Piracicaba dividindo o mesmo espaço do pão sagrado, no café da manhã. Na casa dos assinantes piracicabanos, o JP faz parte da mesa matinal. E ali, logo cedo, recebíamos os editoriais de Geraldo Nunes, num bom dia tranqüilo, saudando os leitores.

Nós o saudamos agora e sempre, Geraldo Nunes, na certeza de que você deixou para todos os amantes e amigos do jornalismo uma grande lição de humildade e de trabalho. De amor ao ofício escolhido, de cumprimento do dever, seguindo uma trilha que seu coração havia traçado e da qual não fugia por nada. Retidão, caráter, empenho, força, dedicação. Crença no ideal vivido, fé na vida, amor a Deus.

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