Tipos Inesquecíveis: O inesquecível Zé Maria

Fui aluna de Zé Maria Ferreira em minha primeira faculdade, de Pedagogia, nos idos de 70. Zé Maria ensinava Biologia e, como professor, era brilhante e intuitivo, o tanto quanto o foi em todos os campos da arte onde trabalhou. Zé Maria tinha a aura dos que incomodam, dos “nem aí”, mas que transbordam um talento irreprimível.

Lembro-me de Zé Maria, recém-chegado de Londres, vestido com uma espécie de uniforme dos carteiros ingleses, uma roupa verde-musgo, diferente e interessante, que fez furor na época, na sua chegada à sala de aula, visitando alunos e ex-alunos.

Por várias vezes, vi mágoa nos olhos de Zé Maria. Mas era um sentimento contido, não extravasado, pois Zé era um sujeito meigo, doce, de fala mansa e aquele talento transbordando em cada mínimo gesto.

Um encontro com Zé Maria pelas ruas da cidade era um presente muito rico. Para a cidade, Zé guardava o melhor e o mais críticos de seus olhares. Mas, assim como João, Zé Maria amou esta terra e deste povo, a ponto de servir-lhe de forma quase anônima. Humilde, eu diria. Zé Maria era todo revestido de uma quase humildade. Simples, em suas camisetas e calças desbotadas, Zé era o exemplo do despojamento. E do amor à arte.

Sim, um encontro com Zé Maria pelas ruas da cidade era a oportunidade de descolar dele um papo sempre atual e inteligente. Zé Maria possuía uma criticidade invulgar, uma posição invejável de onde avistava o mundo, a realidade e o que nela se passava.

E o que se passava ao redor de Zé Maria? Quem pôde compreender seu jeito frágil, sua erudição, sua sensibilidade e inteligência, que fizeram dele uma das pessoas mais bonitas e interessantes de Piracicaba? Para quem ficou o olhar magoado de Zé Maria, quando o assunto era a situação cultural, os setores que a dominavam e toda a herança que a cidade acumulou, naqueles anos em que ele tentou organizar um trabalho em prol da cultura?

Zé Maria pareceu ser sempre o mais capaz para dirigir o setor cultural e artístico – cargo para o qual jamais foi convidado. Possuía habilidade para conduzi-lo, movia-se livremente nos muitos ambientes culturais da época, onde tinha uma legião de amigos e admiradores. Mas, de alguma forma, era incompreendido, olhado com desconfiança, rejeitado.

Os verdadeiros amigos souberam respeitar e reconhecer o trabalho de Zé Maria. Um trabalho que, muitas vezes, passou despercebido, sem a merecida divulgação e, talvez, o necessário apoio de toda a comunidade intelectual de Piracicaba.

Mas, parece-nos, Piracicaba o compreendeu tão pouco!… A verdade é que alguns setores da comunidade não reconheceram o talento e a força de Zé Maria, a dedicação com que atuava. E nessa incompreensão, às vezes, Zé poderia ter se rebelado. Nada. Manteve-se quieto, altivo, num silêncio elegante e comedido.

Uma coisa que Zé Maria não teria suportado – creio eu – seriam homenagens póstumas e um reconhecimento tardio. Na época do seu falecimento, escrevi um artigo de adeus: ” Pois que não venham de última hora, à guisa de reconhecimento, as homenagens e indicações para nome de rua e de praça. Algo me diz que nem o próprio Zé Maria suportaria isso, tão distante de brilhos, ele que brilhou como poucos e tão raramente chegado a honrarias.” Ninguém se pautou tanto e tão corretamente pela discrição e pela sobriedade como Zé Maria.

No entanto, hoje, revendo meus conceitos, reflito que nada seria mais justo do que dar a Zé Maria Ferreira a honra de ser nome de rua e de praça em nossa cidade. Para que sua memória se perpetue entre nós. Para que um menino pergunte ao seu pai: “Quem foi Zé Maria Ferreira?”.

Zé Maria Ferreira partiu há 18 anos. Luta outras lutas. E em bom lugar, deve manter no espírito o mesmo amor à beleza e à arte que tanto o motivaram em vida. Entre nós, Zé Maria foi um filho querido desta terra, lutou e combateu. Soube oferecer a seus pares sua inteligência brilhante, sua sensibilidade de artista. Talvez sua oferta tenha se perdido pelo caminho e poucos puderam acompanhá-lo e compreendê-lo.

 

Na época do seu falecimento, Adeli Bachi definiu assim a passagem de Zé por aqui: “o Zé passou e parece que só Piracicaba não viu…”.

 

Zé Maria, hei de dedicar-lhe sempre uma prece. Sentida, sofrida, saudosa. Mas verdadeira, serena, como se estivéssemos conversando e caminhando, lado a lado, pelas ruas da cidade. Você, com sua camiseta surrada no último, seu jeans em trapos e seu tênis estranho. Seus apetrechos carregados com devoção. Você estará sempre ao lado de todos nós, que tivemos o privilégio de privar de sua companhia, que o amamos e o compreendemos. E, quem sabe, nessa caminhada de sonho, a mágoa tenha desaparecido do seu olhar…

3 comentários

  1. Francisco Ferreira em 09/06/2013 às 00:33

    Obrigado, Marisa e Cecilio, por mais uma vez registrar a passagem do Zé na Terra! Atualizando o texto: em 2011 fez 20 anos de sua partida. Francisco Ferreira

  2. toni em 09/06/2013 às 01:49

    O que o Sr. Zé Maria fez, de fato? Como ele ajudou as pessoas ? O texto diz que era um excentrico, incompreendido e que a cidade é ingrata. Não concordo com isto. Qual foi a utilidade cidadã para ele dar um nome de praça?

  3. Maria Domitila Thomazi em 13/06/2013 às 09:08

    Tive o prazer se conhecer e conversar com o Zé Maria, era um homem extremamente culto e inteligente. Existem na vida coisas mais importantes que dinheiro, poder e fama. A Arte é uma dela, não tem preço, e poucos são os que tem a sensibilidade de fazer Arte ou fazer crítica dessa Arte. Tivéssemos mais um Zé em Piracicaba.. Saudades.

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