Tipos Inesquecíveis: por Roberto Antonio Cêra (1)

Nosso tipo inesquecível

Lembro-me de uma seção da revista “Seleções”, há muitos anos, não sei se ainda hoje, porque nunca mais a li, depois que, na época da intitulada revolução de 1964, nela foi publicado um artigo cujo nome era mais ou menos “A nação que se salvou por si mesma”.

Em “Meu tipo inesquecível” eram publicados depoimentos de leitores sobre pessoas especiais. Durante a minha vida, já presenciei inúmeros tipos inesquecíveis, o último deles, um senhor pouco mais velho do que eu, que veio morar, com a esposa, na casa ao lado da minha. Antes de adquiri-la, conversou comigo para se apresentar e saber como era o seu futuro vizinho mais próximo. Preocupou-se com os dois gatos que possuía e adorava e mandou colocar grades e telas sobre os muros, a fim de que não viessem a me perturbar, embora eu insistisse que isso não era necessário.

Durante a reforma da casa, ele ainda estava em Brasília e eu lhe prestei alguma colaboração, pouca coisa, para dizer a verdade, mas ele ficou muito agradecido. Após sua mudança, como eu moro sozinho, passou sempre a se lembrar de me oferecer alguns quitutes árabes e guloseimas que ele comprava ou a esposa fazia, descendente de árabes que era. Até mesmo uma canja, acompanhada de sobremesa, me serviu quando certa manhã lhe contei que não havia passado bem, durante a noite.

Conversávamos sempre e ele se preocupava, quando deixava de me ver, em algum dia. Da sua casa, me saudava, com seu vozeirão inconfundível: “-Bom dia, Roberto!”. Mal saía na rua, motoristas, coletores de lixo, transeuntes, o saudavam, com simpatia. Soube que fora um vendedor de tecidos que, incansavelmente, oferecia seus produtos nas lojas de Piracicaba e viajava por este Brasil. Já havia morado aqui na cidade, durante mais de 40 anos e para cá voltou, não conseguindo ele e a mulher ficar longe da terrinha.

Sua casa anterior estava até que próximo da minha, mas eu nunca o havia visto. Entretanto, podia perceber o grande número de pessoas de quem já era amigo e o saudavam ao passar pela frente da sua casa.

Certa noite, me convidou a participar de um bolo e salgadinhos que oferecia a sua irmã, de Pindamonhangaba, que o visitava. Éramos quatro pessoas. Subitamente, ele colocou uns salgadinhos em um prato e saiu a fim de levá-los ao dono de um bar da vizinhança. Era por demais solidário.

Durante menos de um ano, morou ao meu lado e também ficamos grandes amigos. Lamentavelmente, há algumas semanas ele partiu para sempre, surpreendendo seus novos vizinhos, deixando dois filhos e a esposa.

O tempo da nossa convivência foi pequeno, mas ele conseguiu não deixar de ser não só meu, mas o nosso tipo inesquecível.

Ah, ia me esquecendo de escrever o seu nome: Jorge Jabor, para sempre a lembrança de um grande e bondoso amigo.

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