Tipos Inesquecíveis: Roberto dos Santos (Álvaro)

Falar do próprio Pai torna-se, às vezes, uma tarefa difícil porque a gente conhece muitas coisas sobre ele mas os espaços onde devemos escrever é sempre limitado.

O que me leva a escrever sobre meu Pai, contudo, não é apenas ser inesquecível para mim, mas o fato de que, na sua simplicidade de marceneiro, foi um dos maiores desenhistas e artesãos que conheci.

Não ficou rico trabalhando com artes e nem com madeira, pois sempre foi detalhista que lhe roubava o tempo mas lhe garantia, como sempre afirmava, que “meus trabalhos não podem ter falha alguma”. Se teve alguma fama enquanto vivo, foi pela auto-exigência dos resultados.

É difícil separar o Álvaro artesão-em-madeira do Álvaro desenhista, pois ele sempre considerou os seus trabalhos em madeira como artisticamente construídos. Tudo em madeira era-lhe apresentado como desafio, inclusive entalhes maravilhosos que produziu, alguns dos quais guardamos em família.

Só não ficou famoso porque se recusava a expor publicamente os seus trabalhos. Dir-se-ia que criava para ele mesmo, sem esperar outra coisa que a satisfação de ter concluído mais um retrato.

O saudoso Prof. Arquimedes Dutra, a quem um dia mostrou seus desenhos, quando soube em uma aula que eu, então seu aluno no Sud Mennucci, era filho do Álvaro, referiu-se a ele exatamente com estas palavras: “O Álvaro foi o maior retratista que conheci até hoje”.

Vindo de quem veio, pode-se imaginar o meu orgulho e a satisfação que ele teve quando lhe contei essa passagem. Aliás, gostava de repeti-la aos mais próximos quando se mostravam encantados com os seus trabalhos, e era este o único depoimento que ele nunca mais esqueceu, até o final da sua vida, precocemente encerrada em 03/setembro/1970, aos quase 61 anos de idade.

A madeira em suas mãos não era apenas madeira, mas pedaços brutos da natureza a que ele dizia estar dando formas conhecidas e úteis (móveis). A partir de 1958 ele passou a produzir, para o Brasil todo e muitos outros países, o Material Didático para o Método Montessori de Ensino. Até hoje, transcorridos tantos anos da sua morte, quem tem o Material Montessoriano que ele produziu guarda-o com carinho, pois nunca mais foram produzidos com igual qualidade.

Das mais de 3.500 escolas que ajudou a fundar, raras são as pessoas que sabiam desse lado mais artístico (retratista) do meu Pai.

Quanto à oportunidade de escrever, faço-o porque neste ano de 2009 estaria fazendo, em 21 de setembro, o seu I Centenário de Nascimento. Ia me esquecendo: o bairrismo de meu Pai, amante de todos os momentos da cidade pela qual era encantado, era chocante para quem não o conhecia e nem conhecia Piracicaba, mas no fundo nós também falávamos as mesmas coisas.

Tudo aqui era melhor, mais bonito, mais importante e aqui existiam também mais artistas que em qualquer cidade do mundo…

Marceneiro de profissão, foi discípulo de Joaquim de Matos ainda menino, com quem aprendeu a dificílima técnica de sauce sobre papel. Eu aprendi com ele, mas só observando, pois não era paciente para explicar sobre o que fazia.

O nome dele, real, de Registro Civil, era Roberto dos Santos. Ficou sendo Álvaro por terem seus pais criado o apelido, alusivo à entrada da Primavera e, a partir daí, quase ninguém o chamava pelo nome. Só nos documentos isso era visto.

Nasceu no Bongue, ali na Rua do Porto, em 21 de setembro de 1909. Segundo filho de uma grande família de 8 irmãos, Pai e Mãe, ambos portugueses de nascença, que lhe deixaram marcas de uma honorabilidade ímpar e de apego a princípios e normas de conduta que vigiava de perto.

Nunca aceitou usar cores nos seus desenhos, não apenas pela limitação cromática do sauce (fabricado até então apenas em cor negra), mas argumentando que “as cores são ilusórias…só as luzes e sombras representam verdadeiramente o que se vê”.

E gostava de demonstrar-nos isso, iluminando frutas com filtros cromáticos de diferentes freqüências. A maçã, vermelha, iluminada com filtro azul, tornava-se preta… e assim por diante.

O Prof Archimedes conheceu-o porque meu Pai fez diversos barcos para ele e eu mesmo ajudei em diversos, todos feitos no quintal da minha casa, à Rua Prudente de Moraes. Demoravam, às vezes, mais de um ano para ficarem prontos, mas o Mestre Archimedes não desistia.

Sempre que visitávamos o Cemitério da Saudade ele nos levava (meu irmão e eu) para vermos o túmulo do seu Mestre de Pintura, Joaquim de Matos, contava-nos passagens da vida desse grande piracicabano. Conhecia História da Arte como poucos, o que nos deixava abismado por ter feito apenas até o 2º ano do Grupo Escolar, no Barão do Rio Branco.

Durante a vida toda fez seis trabalhos e só parou de desenhar, na década dos anos 50, quando o seu material deixou de ser fabricado ou, pelo menos, importado. (1- o de um seu amigo que foi assassinado quando ainda era solteiro, 2- retrato do meu irmão quando tinha mais ou menos 3 anos de idade (3-este ele repetiu porque foi amassado acidentalmente e o papel não comportava restauração), 4- o meu retrato (que está aqui abaixo), 5- outro retrato do meu irmão já moço e 6- um de uma amiga nossa residente em S.Paulo.

O restinho de sauce que ele tinha, fabricado em 1910, ainda está comigo e, de vez em quando, tento fazer algum trabalho usando suas técnicas. Tento…mas teria muito que avançar para chegar no que ele era.

O desenho abaixo é um retrato meu, que ele fez na década de 40. Levou vários anos para ficar pronto, pois só trabalhava nele nos finais de semana.

 

 

 

 

 

1 comentário

  1. Joceli Felix Leite em 10/08/2013 às 14:45

    Primo vc fez eu viajar no tempo agora.Que saudades desse tio,parece que estou vendo ele trabalhando na oficina la no quintal da sua casa e esses desenhos estou vendo-os na parede na sala da sua casa o seu e o do Wladimir.Qta SAUDADES,Bjos.

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