Um Natal piracicabano de Roberto Rodrigues

O ex-ministro da ministro da Agricultura do primeiro governo de Lula, Roberto Rodrigues, sempre se orgulhou de sua passagem por Piracicaba, como aluno da ESALQ. Formado em 1965, Roberto ficou conhecido, ao longo do tempo, como um grande “contador de causos” e, em 2001, em co-autoria com Ivan Wedekin, publicou um livro – “Pequeno Dicionário amoroso da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz – onde recuperou e reuniu muitas das histórias que marcaram os universitários da Instituição, como a reproduzida a seguir e que é um depoimento da Piracicaba antiga:

… “houve um ano em que o Centro Acadêmico Luiz de Queiroz fez uma campanha em favor de um melhor Natal para os pobres. A idéia básica era arrecadar alimentos para as famílias pobres passarem bem o 25 de dezembro e, naturalmente, arrecadar brinquedos para as crianças…

Aos poucos, à medida que os dias iam passando e os resultados iam surgindo, rapazes e moças foram se apaixonando pela causa, cada vez mais criativos, e transformaram o compromisso do Natal dos pobres em um verdadeiro dever… Conseguiram toneladas de alimentos e milhares de brinquedos e foram lotando as dependências do CALQ com as doações.

Os bairros da periferia foram percorridos, famílias pobres foram cadastradas e escalonadas de acordo com sua renda, enfim, foi um trabalho ardentemente assumido pelos estudantes com o apoio de vários professores.

Nos dias que antecederam o Natal, os moços resolveram agregar magia à festa. Como não poderiam ser papais noéis porque tinham seus próprios compromissos familiares natalinos, optaram por colocar em pontos selecionados de cada bairro uma árvore de Natal encimada por um grande A encarnado, além dos enfeites comuns. Precisavam de 10 árvores, tarefa que não conseguiam cumprir porque as disponíveis já haviam sido vendidas… A comissão pediu aos estudantes que viviam em Piracicaba para assumir essa parte do programa… Procura daqui, procura dali e nada. Até que alguém teve uma idéia: roubar alguns pinheiros!

Aceita a idéia, a pergunta era: de onde? E a resposta óbvia iluminou aquela parte podre do projeto: no cemitério. … Arrumou-se uma caminhonete, conseguiram-se alguns serrotes e, no fim da tarde de 23 de dezembro, lá se foram nossos sacrílegos benfeitores para o campo santo, cheio de idéias demoníacas.

Como é natural nestas ocasiões, buscaram coragem em alguns goles de cachaça. Tiveram azar. Houve um enterro já na hora de fechar o cemitério, e quando os últimos acompanhantes saíram, a porta foi trancada. Pior ainda: havia um guarda-noturno, o que eles desconheciam.

Já escuro, alguém teve uma idéia melhor: na fazenda da ESALQ tinha uma boa plantação de pinheiros, perto do Piracicamirim. Lá era aberto, sem guarda, seria uma canja surrupiar 10 árvores no meio do talhão… Por volta das duas da madrugada estavam os garotos distribuindo suas abençoadas árvores pelas praças dos bairros. Os meninos da comissão, eufóricos, iam, em seguida, enfeitando os pinheiros com algodão, pingentes e o belo A na ponta.

No dia de Natal, a grande revelação estampada nos jornais de Piracicaba: ‘vândalos cortam árvores raríssimas’ da coleção exótica da ESALQ, trazidas de diversos países do mundo, especialmente do Caribe, pelo querido professor de silvicultura, grande amigo dos estudantes e por eles admirado, Heládio do Amaral Mello…”

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