A força das empresas familiares em Piracicaba

Desenvolvimento, expectativa de geração de empregos, disputa fiscal envolvendo municípios. O quadro é parte inerente do processo de desenvolvimento do final do século XX, acompanhando Estados e municípios, envolvendo criação de distritos industriais, incentivos fiscais, busca de instalação de novas e grandes empresas nas mais diferentes regiões do país.

   No entanto, o desenvolvimento da Piracicaba do início do século XXI pode passar por outros referenciais. Pelo menos se forem considerados os dados de recente pesquisa, ainda inédita, assinada pelas docentes da UNIMEP, Ana Maria Carrão e Maria Beatriz Bilac*, intitulada “As empresas familiares e a geração de empregos em Piracicaba/ Setores industrial, comercial e de serviços: agosto 1996/julho1999”.

   Entre as conclusões apresentadas, a pesquisa indica que “no setor industrial, 84% das empresas são familiares e geram 68% dos empregos, ao mesmo tempo que, no setor comercial, 91% das empresas são familiares e geram 93% dos empregos. Seguindo a mesma tendência, o setor de serviços
conta 92% das suas empresas na categoria de familiares, as quais são responsáveis por 96,6% dos empregos da amostra”.

   Não se trata, portanto, meramente de se permanecer na antiga conceituação, durante muitos anos de senso comum, que empresas familiares, em geral, eram aquelas quase que caracterizadas como de “fundo de quintal”. Para as pesquisadoras, foram consideradas empresas familiares “aquelas pertencentes a uma família, independentemente de seu tamanho, mesmo que não seja dirigida por um membro da família proprietária, ou seja, é o que se pode chamar de negócio de família”.

Tabela 1

   As empresas familiares de Piracicaba e a geração de empregos.

 Setores

Empresas 

Empregos

 Industrial

 84%

 68%

 Comercial

 91%

 93%

 Serviços

 92%

 96,6%

 

   Nos Estados Unidos, por exemplo, segundo o trabalho, as empresas familiares correspondem a 90% das empresas americanas; na Grã-Bretanha, chegam a 75% dos negócios e estima-se que respondam por 50% dos empregos. No Brasil, os dados são indicadores de que 80% das empresas sejam familiares, assim como 94% dos maiores grupos brasileiros.

Dados de 1986: familiares já eram maioria no setor industrial

   Segundo o CIESP, em 1986, eram 1.097 as empresas existentes no setor industrial de Piracicaba, gerando cerca de 20 mil empregos . Os números de então mostravam que apenas 7 não eram familiares, gerando cerca de 4910 empregos, ou seja 25% do total de vagas disponíveis. Já as restantes 99,36% empresas restantes, todas caracterizadas como familiares, respondiam por 75% dos empregos oferecidos.

   A pesquisa atual recuperou os dados, a partir de um mapeamento através do CIESP, Posto Fiscal e Prefeitura Municipal, reunindo uma amostra de 145 empresas, que respondiam pela geração de 14.602 empregos, ou seja, 75% dos postos de trabalho do setor.

   Destas, 122 eram familiares, correspondendo a 84% das empresas pesquisadas. A elas cabiam a geração de 9.906 empregos, ou cerca de 68% dos empregos analisados na pesquisa. A divisão dos empregados se dava da seguinte maneira:

Gráfico 1

Distribuição do número de empregos por categoria de empresas

 Nº Empresas

 %

 Nº Empregados

%

 Familiar

 122

 84,13%

 9.906

 67,84%

 Não Familiar

 23

 15,87%

 4.696

 32,16%

Gráfico 2

Os maiores empregadores familiares em Piracicaba

 Empresa Familiar

Nº Empregados

 01

 DZ Equipamentos

671

 02

 Construtora Piracicaba

656

 03

 Usina Costa Pinto AS

2.187

 04

 Votorantim

586

 05

 Codistil S/A Dedini

680

 06

 Siderúrgica Dedini

544

 Total

5324

Gráfico 3

Os maiores empregadores não familiares em Piracicaba

Empresa não Familiar 

Nº de empregados

 01

 Caterpillar do Brasil

2.335

 02

 GM do Brasil Ltda

663

 03

 Produtos Alimentícios Fleischmann

580

 04

 ISC Screens Ltda

135

 05

 Klabin Papel Celulose

370

 06

 RKM Equipamentos Hidráulicos

97

 Total

 4.180

 

 

Setor comercial: tendência se repete

   No caso do levantamento da participação das empresas familiares na geração de empresas no setor comercial, as pesquisadoras trabalharam com questionários enviados a comerciantes, consultas por telefone, dados do Posto Fiscal e Banco de Dados Sócio-Econômicos da própria Universidade.

   O universo foi constituído por uma amostra com 88 empresas, que geravam 2.335 empresas, ou seja, 93,4% daqueles gerados no setor comercial. As não familiares eram apenas 8, contribuindo com 6,6% dos postos de trabalho. Foram selecionadas, inicialmente, apenas as empresas com mais de 9 empregados e, aos questionários inicialmente distribuídos, houve um retorno de 33,08%.

   A análise considera, inclusive, o crescimento significativo do comércio, entre os anos de 1970 a 1985, com a importância cada vez maior do ramo varejista sobre o atacadista. Pesquisa datada de 1977, envolvendo uma parceria SEBRAE/UNIMEP também indicou que o setor comercial era o que mais gerava empregos no município, ao lado do setor de serviços. Da pesquisa conduzida por Ana Maria e Beatriz Bilac, os principais indicadores foram os seguintes: (vide gráficos abaixo, nº 4 e 5).

   Como os números indicam o elevado número de pequenas e micro empresas, é possível se apontar para as possibilidades de investimentos nestas empresas já existentes para geração de novos postos de trabalho.

   Há que se ressaltar, entretanto, que 58,1% dos empregos são gerados justamente por apenas 6 empresas, se considerado o universo das empresas não familiares. Quando a análise se volta apenas ao universo das empresas familiares, 27 pequenas empresas respondem por 52,5% dos empregos do setor.

Gráfico 4


Classificação geral por tamanho das empresas não familiares

 Classes

Nº empresas 

Nº empregados 

%

 Micro A

 01

 12,5

 09

 5,4

 Micro B

 06

 75,0

 96

 58,1

 Pequena A

 01

 12,5

 60

 63,3

Gráfico 5

Classificação por tamanho das empresas familiares

 Classes

 Nº empresas

 %

 Nº empregados

 %

 Micro A

02

2,5

17

0,7

 Micro B

 49

 61,2

835

 35,7

 Pequena A

 27

 33,7

 1227

 52,5

 Pequena B

 02

 2,5

 256

 10,9

Setor de serviços: menor participação na geração de empregos

   Ao pesquisar o setor de serviços, as docentes trabalharam novamente com o mesmo conceito de empresa familiar adotado anteriormente, e ainda com a caracterização de serviços como bem intangível, cuja posse é dificilmente transferível, que não pode ser revendido nem estocado, não pode ser transportado, cujo comprador e cliente participam diretamente da produção.

   O universo de trabalho foi selecionado através da ACIPI, Posto Fiscal, IBGE, Junta Comercial do Estado de São Paulo, Receita Federal, SEBRAE, Banco de Dados da Divisão de Tributos da Prefeitura de Piracicaba e Bando de Dados Empresas e Empresários.

   Foram excluídas empresas individuais e sem empregados, assim como os profissionais liberais, autônomos e ambulantes. Restaram, então, 534 empresas na cidade, com um total de 13.021 empregados. A amostra trabalhada contou com participação de 49 empresas, ou 9,18% do total, responsáveis pela geração de 4.553 empregos, ou 34,97% do total do município nesta área de serviços. Destas 49, eram familiares 45 , gerando 96,94% dos empregos disponíveis.

   Entre as principais informações geradas, destacaram-se nesta terceira etapa da pesquisa:

a) em 66,7% dos casos estudados, as empresas familiares pertenciam a uma só família. Entre as 45 empresas analisadas, 17,78% eram controladas por duas famílias; 11,11% por três famílias e 2,22% por quatro famílias;

b) no grupo familiar predominam as micro e pequenas empresas, numa proporção de 67,53%, embora gerando apenas 21,97% dos empregos. As de grande porte representavam a geração de 20,64% dos empregos e as macro empresas propiciavam 39,75% dos postos de trabalho.

   Com estes dados, os pesquisadores puderam sugerir que 66,21% dos empregos do setor de prestação de serviços estavam sendo gerados por 91,57% empresas, provavelmente não familiares.

   E acrescentam que tal quadro, que detalha o emprego existente no município, “indica uma realidade local que não foge aos parâmetros do cenário internacional, no que se refere à participação das familiares no conjunto das empresas”.

   Como a comprovar a importância deste segmento da iniciativa privada na região, basta se recuperar um outro dado de pesquisa da UNIMEP, entre seus alunos no curso de Administração de Empresas, em 1996. Envolvidos 125 alunos dos primeiros semestres, 40,61% trabalhavam em empresas familiares; 25,46% eram filhos de empresários e apenas 8,48% não tinham qualquer parentesco com os empregadores. Identificou-se, em 1995, pelo menos um empresário em cada sala de aula.

* Ana Maria Carrão, professora da Faculdade de Gestão e Negócios da UNIMEP, é coordenadora do Centro de Estudos e Pesquisas em Administração (CEPA).

** Maria Beatriz Bilac é professora da UNIMEP, atualmente realizando o Pós-Doutorado na Inglaterra. Durante anos, respondeu pela coordenação do Núcleo de Pesquisa e Documentação Regional da Universidade.

1 comentário

  1. João em 26/11/2015 às 11:09

    Não vejo relevância nos dados. Pesquisas muito antigas e pouca comparação com o cenário atual ou no caso, de 2014.

Deixe um comentário