A “NOIVA” com nome de Pérola, Atenas e Florença

Piracicaba, já nas últimas décadas do Século XIX, impunha-se no cenário paulista e brasileiro por seu pioneirismo na educação e por sua vitalidade artística e cultural. Essa vocação para a busca da cultura e do conhecimento foi, ainda em 1836, registrada no “Quadro Estatístico da Província de São Paulo”, por Daniel Pedro Müller, quando alguns números revelaram a liderança piracicabana em relação a algumas cidades paulistas.

Na época, Piracicaba tinha 10.291 habitantes e se orgulhava de ser, em toda a Província, a cidade com o maior número de pessoas que sabiam ler e escrever: 395 de seus moradores. E se os números parecem insignificantes, serão significativos quando comparados a outras importantes cidades de São Paulo: Itu e Porto Feliz, então com 11.146 e 11.193 moradores, tinham, respectivamente, 166 e 124 pessoas que sabiam ler e escrever. E Curitiba, ainda na Província de São Paulo, tinha apenas 152 alfabetizados entre os seus 16.157 habitantes.

Educação e cultura, artes e ofícios não foram algo apenas incidental em Piracicaba. Nas últimas décadas do Século XIX, houve todo um projeto estimulado pelos liberais republicanos que, de maneira especial, deram ênfase ao desenvolvimento cultural de Piracicaba. Liderada pelos Moraes Barros – o ex-presidente Prudente de Moraes e o Senador Manuel de Moraes Barros, seu filho Paulo de Moraes Barros (foto) – essa ebulição cultural contava, ainda, com o mecenato de líderes monarquistas do estofo dos barões de Serra Negra e de Rezende e de seus familiares.

Ao final do Século XIX, Piracicaba já contava grande número de escolas, revelando um esforço coletivo tomando a educação como base da construção social. Assim, já tínhamos dois grupos escolares – os atuais Barão do Rio Branco e Moraes Barros – os colégios Piracicabano e Assunção, uma escola complementar ( que se tornaria o atual “Sud Menucci” – três escolas complementares, um colégio dos frades capuchinhos, mais 13 escolas mantidas por particulares ou por entidades locais.

As artes piracicabanas foram marcadas por um patrono que alcançou admiração e respeito nacionais, Miguel Arcanjo Benício D´Assunção Dutra, o Miguelzinho, cujas trabalhos passaram a ser disputados em todo o País. Miguelzinho seria o grande incentivador das artes e da cultura piracicabanas, legando-nos uma família de grandes artistas, uma descendência de pintores ilustres: Alípio, Antônio de Pádua, João, Joaquim, Luiz, Archimedes, os Dutra. Foi, ainda, Miguelzinho o construtor do primeiro museu sacro de que se tem conhecimento no Brasil, que ele próprio manteve em anexo à Igreja da Boa Morte. A partir dos Dutra, Piracicaba se tornou, então, a Meca dos pintores, destacando-se a presença constante, na Cidade, do notável Almeida Júnior, que seria vítima de um crime passional.

A paixão piracicabana pela música já se revela ainda nas últimas décadas do Século XIX. Já existia o Teatro Santo Estevão e clubes onde se realizavam recitais e peças teatrais. Entre eles, o Club Republicano, o Club Piracicabano, duas sociedades italianas, o Grêmio Espanhol, a Sociedade Portuguesa, o “Verein Frohsinn” dos alemãe, um grêmio dramático e diversas sociedades dançantes. Famosas e disputadas eram as três bandas piracicabanas: a do Stipp, do Azarias Mello e a Banda Carlos Gomes. O “Almanak de Piracicaba de 1900” registra a existência de 90 pianos nas residências piracicabanas, onde a sociedade se reunia em saraus que se tornariam famosos, como os patrocinados por Lídia de Rezende, filha dos barões de Rezende, e Francisco Morato. Os seresteiros encantavam a cidade, havendo o hábito de as serestas se encerrarem, já ao amanhecer, quase às margens do Salto de Piracicaba, nos jardins que haviam sido criados por Luiz de Queiroz e por André Sachs, o famoso Parque Sachs. A Orquestra Sinfônica de Piracicaba data de 1900, o que revela a mais do que centenária vocação musical de Piracicaba.

A imprensa piracicabana foi, desde o Século XIX, ativa e diversa. Em 1900 – quando nasceu o atual “Jornal de Piracicaba” – circulavam a “Gazeta de Piracicaba”, os jornais “O Popular”, “A Aurora”, “O Brasileiro”, “O Holophote”, circulando, ainda, importantes jornais paulistanos e brasileiros, tais como o Estado de São Paulo, “A Gazeta”, “Diário Popular”, “Jornal do Brasil”, “Jornal do Commercio”, além de publicações espanholas e italianas.

No Século XX

O pioneirismo piracicabano em eletricidade, água, esgotos, telefonia repercutiria também na vida cultura do município. Destacavam-se não apenas clubes e residências como locais de lazer, entretenimento e cultura. A cidade se esmerava em parques e jardins, estimulando o hábito das récitas públicas e dos piqueniques que se tornavam oportunidades de intercâmbio cultural. O surgimento da Escola Agrícola deslocava os piracicabanos para as terras da Fazenda São João da Montanha, que se tornava local de lazer e de cultura, como já ocorria com o Mirante do Salto, com o Parque do Engenho e, nas primeiras décadas do Século XX, os jardins do Sanatório São Luiz, criado por Lídia de Rezende.

A influência cultural de Piracicaba foi tal, já na segunda década do Século XX, que ela se tornou conhecida como “O Ateneo”, por suas escolas, ou “Atenas Paulista”. Para outros, Piracicaba seria – por seu urbanismo e desenvolvimento harmônico – a “Pérola dos Paulistas”. E, também, por sua excelência cultural e artística, Piracicaba foi chamada de “A Florença Brasileira”. São nomes que revelam o prestígio de uma cidade que se organizara em torno dos mais altos valores humanos. Em 1910, algo inédito em todo o Brasil haveria de acontecer em Piracicaba, aumentando o prestígio de uma cidade e de um povo: a criação e instalação da Universidade do Povo, instituição que se abria a todas as camas da população.

E isso foi de tal forma significativo e notório que Piracicaba despertou a atenção nacional por grandes vultos que começaram a animar a cultura paulista e brasileira: Sud Mennucci, Thales de Andrade, Leo Vaz, Marcelino Ritter, Mário Neme, Brenno Ferraz do Amaral – que se tornaram redatores do jornal “O Estado de São Paulo”, uma elite intelectual que se tornou conhecida como “a geração piracicabana do Estadão”. E mais Pedro Krahenbuhll, Pedro Crem, Antoninho Pinto, Fabiano Lozano, que seria responsável pela instituição do canto orfeônico nas escolas brasileiras. (Na foto, orquestra com Erotides de Campos.) Essa geração faria Piracicaba se tornar conhecida como o “Bloomsbury Caipira”, em referência ao bairro de Bloomsbury, em Londres, onde Virgínia Woolf e outros intelectuais vieram a dinamizar a cultura e a arte londrinas.

Ao longo do século, Piracicaba haveria de se destacar nas artes e na cultura, sendo incontáveis os piracicabanos que galgaram posição de destaque e de liderança em São Paulo e no Brasil. A Sociedade de Cultura Artística(1925) e, depois, a Escola de Música(1953) tiveram papel preponderante nessa evolução. Os fatos marcam essa presença marcante de Piracicaba até meados dos anos 70, sendo de se destacar a dimensão que vieram a tomar os salões de arte criados ao longo dos anos: o de Belas Artes(1953), de Arte Contemporânea(1972), de Humor (1972).

Após a crise institucional brasileira, a partir do movimento militar de 1964 e estendendo-se até meados dos anos 80, as mudanças foram rápidas e profundas. Piracicaba ressentiu-se disso e sofreu, também, as grandes transformações econômicas e urbanas do município. O surgimento da Unimep – influindo poderosamente na cultura, nos hábitos e na própria linguagem caipiracicabana – acabou por descortinar novos tempos que ainda não estão definidos, especialmente por suas crises institucionais a partir do ano de 2006. No entanto, a vocação cultural de Piracicaba não sofreu abalos. É algo que parece inerente à própria terra, à nossa natureza. E, com toda certeza, será essa vocação cultural que irá influenciar, decisivamente, no reencontro do grande destino piracicabano, o de ser sempre “Atenas Paulista”, de sempre ser vista como “Florença Brasileira”, por que não?

Essas reflexões são feitas para se tornarem balizas neste final da primeira década do século XXI, quando se fala em desenvolvimento desorganizado, dando-se ênfase a empresas de grande porte sem que, no entanto, se cuidem de estruturas sociais fundamentais para Piracicaba não perder seu espírito humanista.

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