De Sordi: Campeão do Mundo em 1958

Fotos: CICERO (Revista Mirante)

Retrato oficial de um campeão. Os brasileiros provaram, em campos europeus, o valor do atleta nacional, quebrando todos os tabus e descrenças que ainda perduravam.

Foi fabulosa a recepção proporcionada aos craques piracicabanos campeões do mundo, De Sordi e Mazolla. As fotos aí estão para comprovar.

Basta dizer que ninguém nunca antes teve recepção igual em nossa cidade. Foi uma festa do povo àqueles que consagraram definitivamente nosso futebol aos olhos do mundo. Não nos foi possível ouvir Mazolla, como queríamos, isto é, sem os atropelos do dia da chegada, pois o atacante palmeirense voltou a São Paulo no dia seguinte. Mas De Sordi aqui esteve para contar aos leitores curiosidades do inesquecível campeonato mundial – Copa de 1958.

De sordi fez observações sobre fatos que se deram nos bastidores da grande competição. Segue a entrevista dada à Revista Mirante na ocasião:

– Não ficávamos nervosos nas vésperas e nem durante os jogos. Isto é, havia apenas aquele nervosismo normal que acompanha todo jogador entes de cada partida. Mas isso também acontece por aqui durante o campeonato. Nada mais do que isso. Na última partida foi a mesma coisa. Os que ficaram de fora, como eu, estavam mais nervosos. Para isso, contamos com a colaboração preciosa do Dr. Carvalhaes, o psicanalista que acompanhou a delegação. Havia testes para se constatar das condições do sistema nervoso de cada elemento antes das partidas. Estes “testes” eram feitos da seguinte forma: Tínhamos que ir rabiscando em um cartão com linhas transversais e horizontais, sem apoiar a mão e sem ver também o que estávamos fazendo, para o que havia um anteparo entre nossa vista e o cartão. O gráfico resultante desses rabiscos feitos a esmo, dava ao Dr. Carvalhaes os elementos indispensáveis à sua conclusão quanto ao estado emocional de cada um.

– Não joguei na última partida porque tinha um começo de distensão e com o campo molhado como estava, poderia haver complicações durante o jogo. Como não havia substituições, vocês podem imaginar o que seria … A propósito de substituições, acho que bem poucos sabem que, no caso de Gilmar se machucar, o seu substituto seria o caçula Pelé.

E ele continuou contando:

– Gostei dos Russos. São bons jogadores e excelentes camaradas. Eles eram nossos vizinhos de alojamento e sempre vinham visitar-nos. Estive conversando (por mímica) com uma turma onde estava o goleiro Iaschin. Cativou-nos sobremaneira a visita que eles fizeram a Vavá depois do jogo que nós os eliminamos, e no qual o nosso centro-avante saiu machucado. Seu jogo é na base de defesa e contra-ataques. São velozes mas não possuem a habilidade dos nossos. No começo do jogo podíamos ter feito mais “gools”, pois demos uma saída de arrasar!

 

O adversário mais difícil, contou, foi o País de Gales, pois eles jogaram com 8 atrás e 3 na frente e dificultaram assim nossos ataques. A pior partida foi contra a Áustria.

– Com um pouco mais de sorte, poderíamos ter derrotado a Inglaterra. Perdemos nossa maior oportunidade de desforrar-nos do “English Team”. Mas Mac Donald aquele dia fez milagres.

-Tivemos um alojamento perfeito no Hindas “Turist-Hotel”. O lugar é muito bonito e a “bóia” tinha o tempero mais ou menos igual ao nosso, conforme pedido do médico da delegação. O peixe era diário, pois estávamos não muito longe do mar. As refeições constavam geralmente de: sopa, bife, batatinha, peixe e salada.

– O clima era parecido com o de São Paulo. As noites eram curtas. Geralmente anoitecia às 22h30 e às 3 ou 4 horas da madrugada já havia sol. A turma dormia bem, em camas confortáveis, e dormíamos de dois em cada quarto. Havia uma sala de enfermaria, onde recebíamos curativos e massagens. Todas as noites havia cinema e música com discos que levamos daqui.

– O povo em geral e em particular nossos vizinhos do Hotel eram muito dados e nos cumularam de gentilezas que nunca mais esqueceremos. Imagine que na hora da nossa partida eles nos ofertaram “bouquets” de flores e muitos choraram!

– Quando vencemos a Rússia e fomos classificados, houve uma festinha no Hotel, com baile e tudo. Não é preciso dizer que deixamos os nossos discos de presente aos bons amigos suecos.

– De Hindas a Gotemburgo, onde jogávamos levava meia hora de ônibus. A Stokolmo era uma viagem longa, mas só os dois últimos jogos foram lá realizados.

– Estivemos com o comendador Mário Dedini em Milão. Ele esteve em nosso Hotel e convidou-nos a jantar na melhor cantina da cidade. Foi uma esplendida festa.

– Na opinião da maioria, o Brasil era o favorito. Todos tinham para nós palavras de elogio tais como: os artistas da bola … etc. etc.

– Os portugueses que lá estavam para a Copa de Mundo foram nossos amigos inseparáveis. Para onde íamos eles estavam juntos. Faziam mesmo parte da nossa delegação, inclusive entrando nos campos junto conosco. Foi inestimável o incentivo dos nossos irmãos de além-mar, e a eles daqui vai nosso reconhecimento. – A meu ver o segredo do nosso sucesso se baseia nessas três palavras: direção, compreensão e liberdade.

– Sim, ganhamos uma infinidade de presentes. Por exemplo lá na Europa, recebemos: Bicicletas, Rádios Portáteis, máquinas de escrever. Aqui no Brasil já ganhamos: Televisão, aspirador de pó, máquina de costura, Aparelho de Barbear e muitos outros.

Quanto ao prêmio em dinheiro, ainda não tinha sido repartido no momento da entrevista, De Sordi declarou.

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