De Sordi: do Palmeirinha a campeão do mundo

A primeira Copa do Mundo conquistada pela Seleção Brasileira, em 1958, foi um sonho que, finalmente, matou o “complexo de vira-lata” que, no dizer de Nelson Rodrigues, os brasileiros tínhamos desde a derrota de 1950 no Maracanã.

Para Piracicaba, o grande acontecimento revestiu-se de importância ainda maior, de um orgulho bairrista que, literalmente, enlouqueceu de alegria a população. Pois dois piracicabanos estavam entre os jogadores campeões: Nilton de Sordi e José Altafini, o Mazolla, mais conhecido como Cuíca, nas suas origens no Atlético Piracicabano. De Sordi foi titular até o último jogo, quando se machucou, dando lugar ao notável Djalma Santos, que se consagrou como um dos mais completos laterais direitos de todos os tempos.

A recepção em Piracicaba foi acontecimento memorável, com multidões incontáveis saindo às ruas e os atletas desfilando em praça pública. As então Oficinas Dedini patrocinaram o evento. Uma tristeza irreparável, porém, marcou o retorno de De Sordi: seu pai não resistiu à alegria de ver o filho campeão do mundo e morreu, com um fulminante ataque cardíaco.

Impressões

O jovem atleta caipiracicabano, já então defendendo as cores do São Paulo FC., deixou registradas suas impressões da gloriosa jornada na Suécia. Para ele, uma das mais agradáveis surpresas foi a companhia dos jogadores russos – envoltos em mistério pela “Guerra Fria” – que, segundo De Sordi, se revelaram amáveis vizinhos de alojamento. Um detalhe de cavalheirismo esportivo: derrotados pelo Brasil, os russos fizeram questão de visitar o atacante Vavá, após o jogo, já que ele se machucara.

E quem diria que Pelé poderia jogar no gol? Pois era isso que estava definido no caso de o goleiro Gilmar se machucar durante a partida, época em que não se podia substituir jogador segundo as regras internacionais. O garoto Pelé, se Gilmar se contundisse durante uma partida, estava escalado para jogar como goleiro.

Para De Sordi, o jogo mais difícil foi contra o País de Gales, quando o Brasil venceu por um a zero, com um gol antológico do menino Pelé. “Eles jogavam com oito jogadores na defesa e apenas três no meio do campo e à frente, dificultando nosso ataque.”, contou De Sordi à Revista Mirante.

Promessa de Jânio

Os jogadores campeões foram recebidos pelo Presidente JUscelino Kubitschek, pelo Governador Carlos Lacerda (Guanaraba, Rio de Janeiro) e por Jânio Quadros, governador de São Paulo que prometeu, aos campeões, “um emprego público para cada um”. Os prêmios mais recebidos foram dados por empresas particulares: televisores, máquinas de costura, aspiradores de pó, aparelhos de barbear.

Preto, artigo de luxo

De Sordi fez questão de lembrar a sua grande surpresa na Europa: “Preto era artigo de luxo.” Referia-se aos jogadores negros que despertavam intensa curiosidade dos europeus. Eram os mais fotografados pela população e por torcedores e De Sordi não se esqueceu que, na Alemanha, havia quem quisesse tocar no jogador negro para ter certeza de que a cor era mesmo verdadeira.

Mário Dedini e Milão

O grande industrial Mário Dedini, um dos maiores beneméritos de Piracicaba, tinha uma edênica vila em Milão, onde costumava passar alguns meses por ano. Quando da visita da Seleção Brasileira à Europa, Mário Dedini fiz questão de recepcionar os jogadores brasileiros na sua belíssima propriedade em Milão, lembrança de que De Sordi jamais se esqueceu. “Foi uma visita à sua casa e, depois, um jantar num dos principais hotéis da cidade.”

A lembrança inesquecível de De Sordi: quando a Seleção deixou o hotel na Suécia, o povo chorou de tristeza, oferecendo buquês de flores aos jogadores.

Deixe um comentário