Engenho – Usina Monte Alegre

…à procura do Engenho…

 Os engenhos-usinas de São Paulo foram divididos segundo sua operação e rendimento. Entre os chamados de dupla pressão seca e de maior rendimento estão o Engenho Central de Piracicaba, o da Vila Raffard, o de Lorena, o de Monte Alegre e o Indaiá.

O Engenho Monte Alegre foi desenvolvido pouco a pouco, improvisado com aparelhos das engenhocas e duas moendas. Foi comprado dos herdeiros da Fazenda do Marquês de Monte Alegre e de

parte da sesmaria de Carlos Bartholomeu de Arruda (Cartório do 10 Ofício de Piracicaba. Registro de Imóveis); em 1887 já produzia de 8.000 a 10.000 arrobas de açúcar.

Já em 1819, a propriedade do Marquês de Monte Alegre, Luiz Antônio de Souza Barros, situada à margem esquerda do rio Piracicaba, e aproximadamente a seis quilômetros do centro da cidade, foi avaliada em 10:822$160, contendo toda a “vasta terra, 24 escravos, casa de engenho, casa de purgar, senzalas, monjolo, olaria para telhas, alambique, três caldeiras de whe, duas rocas, dois novilhos, dois bois”.

Uma sociedade, formada por Indalécio de Camargo Penteado e Joaquim Rodrigues do Amaral,em1889, com um empréstimo bancário, remodela o antigo Engenho. Pertenciam então ao Engenho, num totalde 2.228 hectares, 856 hectares de mato, 500 hectares plantados de cana, 622 hectares prontos para plantar.

Para o transporte de cana até o Engenho, existiam alguns quilômetros de estrada de ferro, comum a locomotiva e alguns vagões. A maior parte da cana chegava em grandes carros, puxados por seis mulas, carregando perto de 1.500 quilos do vegetal. Monte Alegre era um engenho pequeno em relação à grande extensão de suas plantações de cana e de seus compromissos com os fornecedores.

Em 1901, possuía duas moendas horizontais a vapor, três caldeiras geradoras de vapor, uma chaminé de tijolo, dois filtros para caldo e xarope, duas bombas de ar para os mesmos, resfriadeiras para massa cozida, seis turbinas Five-Little, uma moenda para açúcar, dois alambiques, oficina para reparações, estrada de ferro bitola 60cm., uma locomotiva e alguns vagões.

No decênio 1881-90, a exportação do açúcar é de 6,1% das exportações brasileiras, transformando-se, portanto, em produto restrito ao mercado interno. O relatório A Situação da Cultura da Canna deAssucar, a respeito de mão-de-obra dos engenhos, ressalta: “é crença geral que o assucar se faz na fábrica, mas não é assim; o assucar se faz na lavoura e extrahe-se e crystalliza-se na fábrica.” A economia rural apresentava vários aspectos novos, tais como a integração engenhos-fornecedores e a mão-de-obra dos imigrantes.

O fazendeiro era mais citadino que rural; a propriedade rural era seu meio de vida e só ocasionalmente local de residência e recreação. As receitas gastronômicas não mais se aprendem pelo convívio; tradições e festas de moagem desaparecem.

No caso dos engenhos-usinas, famílias, maioria de italianos, eram colonos pagos por peso de cana entregue e a administração não se preocupava muito com o sistema pela qual eles cultivavam a terra.

Segundo Nícia Vilela Luz, ainda não foram totalmente elucidadas as causas das falhas dos engenhos centrais. Autores contemporâneos atribuem à especulação desencadeada pela política de garantia de juros, enquanto outros estudos afirmam que os engenhos foram derrotados pela concorrência das usinas, que não estavam adstritas às mesmas prescrições contratuais.

O processo de fabricação do açúcar na usina distingue-se, sobretudo, pela evaporação a vácuo da água contida no caldo de cana com conjuntos de moendas de grande capacidade de extração. O produto obtido é dos tipos cristalizados com menos impurezas que os açúcares dos engenhos. Fabrica-se o álcool do melaço residual.

Em 1890, a usina reúne as atividades agrícolas e industriais, forma o seu latifúndio, aplicando métodos agrícolas tradicionais e criando no colono a consciência de fornecedores de cana.

Aparece o tipo social empreendedor e dominador: o usineiro, que nada tem a ver com a figura do senhor de engenho ou a do dono de fazenda. O usineiro é homem da cidade, industrial, representante da burguesia urbana. O usineiro vale pelas suas qualidades pessoais, realçadas pelo seu poderio econômico.

A figura do colono é diversificada nas várias usinas paulistas; enquanto em algumas há um contrato de empreitada para o trato das canas, nas usinas da Société Sucrérie Bresiliénne, o colono é todo aquele que planta, roça, corta, transporta e entrega a cana, carregada sobre vagões. São pagos, tomando por base os preços médios da cotação do açúcar no mercado de São Paulo.

A utilização de colonos era uma imposição do próprio estágio de desenvolvimento da lavoura canavieira paulista, num período onde a mecanização agrícola era muito incipiente e mantinha trabalhadores fixos nas empresas durante todo o ano.

As usinas, que desfrutavam de grandes extensões de terras, aproveitaram-se da instabilidade do colono nas lavouras de café, decorrente das crises do fim do século XIX. Passaram a usar os colonos cada vez mais intensamente nas lavouras de cana. Os colonos pagavam aluguel do terreno que ocupavam, variando entre 30$000 e 80$000 por alqueire. O preço da cana era de 8$000 por tonelada, quando o preço do açúcar cristal era inferior a 28$000 e a despesa de transporte, em média, 200 réis por tonelada de cana ou por quilômetro percorrido.

Em geral, o imigrante encontrou, à sua espera, um cenário pré-fabricado, com casas, todas do mesmo estilo e do mesmo material, pintadas da mesma cor e com as mesmas dependências: varanda, sala, cozinha, despensa e quarto, jardim, horta e instalação sanitária (casinha) no espaço externo. O colono introduz o forno externo para assar pão. As casas, em grupos de duas, três ou quatro, ficavam numa distância aproximada de 60 metros, uma da outra. Este cenário é rotineiro e padronizado, com plano simples e racional para facilitar a construção em serie. Os colonos que não dispunham de imediato de casas prontas, recebiam telhas, caixilhos, portas e janelas, madeira e cal, construíam seus próprios ranchos, comprometendo-se a devolvê-los ao deixarem o emprego.

No interior das casas encontravam-se móveis padronizados e formados, em geral, por cadeiras simples, amplas mesas retangulares e camas toscas, paredes recobertas de fotografias de parentes e gravuras de santos. Dentre as construções para atender às exigências iniciais da colonização, era construída a igreja com o seu campanário. O seu interior apresentava, geralmente, cenas da via sacra.

Quando as reações dos imigrantes, em particular da mulher, são focalizadas, sabe-se que a mulher reagiu, negativamente, às modificações de seus costumes domésticos. Na Itália central e do sul, o banho diário não fazia parte dos hábitos rotineiros. Aqui, a terra chamada toxa impregna a pele, a roupa, escurece as paredes e os móveis da casa. Essas alterações influenciaram o quadro cultural de algumas famílias, que já começaram a construir uma espécie de banheiro, fora da casa.

Direta ou indiretamente, o calor e a terra levaram o italiano à mudança de certos padrões de vida.

Os chamados “nortistas”, migrantes do nordeste brasileiro, por sua posição inferior na estrutura ocupacional, eram os empregados; os italianos eram os patrões e aqueles se sujeitavam aos horários destes.

Em 1877 havia, na região de Piracicaba, 1.660 imigrantes italianos. Já se percebia a marca do peninsular nesta região, onde foi fundada, nesse ano, a Societá Italiana di Mutuo Soccorso. Ainda nesse ano, vem à cidade de Piracicaba o representante da Itália, Alessandro D’ Atri, para verificar denúncias feitas por colonos italianos da cidade, de maus tratos infligidos pelos fazendeiros. D’Atri manda retirar a interpelação, noticiando “a grande amizade reinante” .

Já na terceira década do século XX, em 1938, a ação do empresário Pedro Morganti consegue novamente juntar as antigas propriedades que pertenceram ao Senador Vergueiro e ao Brigadeiro Luiz Antônio de Souza, em anos da primeira metade do século XIX. A Usina Monte Alegre, ainda no século XX (1965), era uma comunidade rural organizada, com aproximadamente 1.709 moradores da própria Usina e 1.169 provenientes de outras fazendas do município.

Foi formado o bairro de Monte Alegre, que contava com condições comunitárias de educação, saúde e lazer. Os moradores de Monte Alegre dispunham de armazéns, padaria, farmácia, barbearia, torrefação de café, bar, cinema e, até mesmo, pensão.

O Grupo Escolar Marquês de Monte Alegre foi inaugurado no dia 7 de fevereiro de 1927. Foi construída, em 1936, a Capela em homenagem a São Pedro e, em 1937, no alto da colina, a Igreja São Pedro, que acompanhava “o mesmo estilo da Igreja de São Frediano, de Lucca”. A pintura da Igreja ficou a cargo do então chamado “pintor de paredes” Antônio Volpi. O artista teve o auxilio de dois pedreiros da Usina.

Em 1953 é implantada, no local, uma fábrica de papel e celulose.

O império Morganti entra em decadência. Os novos proprietários, em 1981, são da família Silva Gordo (Refinaria Paulista). A partir de 1982 a Usina, já incorporada à Indústria de Papel Simão S.A., passa a negociar com a Votorantim Celulose e Papel (VCP), da família Ermírio de Moraes.

Quanto ao programa da propriedade, foi mantida a urbanização central, com o prédio da Escola, o espaço de comércio, farmácia, empório e biblioteca, edifícios sem o seu uso específico. No alto da colina, a Igreja e algumas casas de moradia mantiveram-se como tais; outras tornaram-se escritórios e arquivos da empresa atual; os edifícios fabris estão plenamente desativados, descaracterizados em processo de deterioração.

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