História que eu não gostaria de contar (7 – FIM)

O Diário, Herrmann, Boaventura

João Herrmann Neto e Elias Boaventura estão mortos. Mas, quando vivos – e o país já redemocratizado – chegamos a conversar diversas vezes sobre equívocos e erros cometidos à época. Na realidade, O Diário, João Herrmann – que era meu primo-irmão – e Elias Boaventura, na Unimep, tínhamos praticamente o mesmo discurso oposicionista. Mas atuamos em conflito permanente, sem conseguir um diálogo que nos levasse a uma ação comum.

João Herrmann Neto foi eleito prefeito em 1976. Foi uma campanha medíocre de ambos os partidos. João Guidotti, retornando à ARENA, lutava, dentro do partido, para evitar a vitória de Romeu Rípoli, candidato a prefeito, juntamente com Jairo de Mattos. O MDB – ao qual não se dava nenhum crédito – trabalhou devagarinho e obteve maior número de votos, escassos 86 votos. Jairo Matos foi o mais votado, mas perdeu na soma das legendas. João Herrmann – o primeiro mais votado entre os três do MDB – foi eleito prefeito. E ele próprio se surpreendeu.

Ora, o Diário tinha todas as condições para apoiar João Herrmann Neto na Prefeitura e até, inicialmente, lhe abrimos espaço. A voz do sangue também me ordenava ajudá-lo. No entanto, seu temperamento era de uma instabilidade por assim dizer doentia. Eu o conhecia intimamente e, por isso, sabia do que ele, de repente, poderia fazer. Acho que, hoje, ele seria visto como um “bipolar”, na linguagem que parece ter-se tornado moda. Pretendendo ser informal e também populista, João se perdeu em exageros e extremos de infantilidade e de irresponsabilidade em relação ao cargo. Homem de elite, não foi aceito por ela. Mas cativou o povo e poderia ter sido o grande líder político de Piracicaba, repetindo a popularidade e o magnetismo carismático de Salgot Castillon.

Posso, nesse depoimento, afirmar que, naquele período, Piracicaba se universalizou politicamente. E o que era apenas paroquial, se tornou nacional. Boaventura, na Unimep, abria as portas ao diálogo, ao confronto, à pluralidade de ideias. Na Prefeitura, João Herrmann criou centros populares, abrigou líderes de todos os matizes da esquerda, cercou-se de jovens. E O Diário manteve a sua tradição de luta, sendo, porém, crítico a muitas das ações de Boaventura e de Herrmann. Pode-se dizer que tínhamos, no atacado, os mesmos objetivos, a busca da liberdade. Mas, no varejo, as discordâncias eram muitas.

Piracicaba ferveu em ideias, em confrontos, em desafios, em espalhafatosas demonstrações de esquerdismo político. Mas havia um erro histórico que, infelizmente, percebemos tarde demais: a desunião entre aquelas três forças, mais do que democrática, era deletérea, um equivocado instrumento de libertação. Muito, neste livro, haverá de falar-se sobre isso, razão pela qual me permito saltar detalhes. A verdade, porém, é que audácia política e escândalos se misturaram e o que parecia – e poderia – ser um contragolpe aos golpistas não passou de lutas desgastantes. No fundo de tudo, permaneciam vivas, ainda, as lutas paroquiais que não conseguiram absorver o universalismo daquele período.

No livro de Gustavo Jacques Dias Alvim – “O Diário – Um jornal de causas” – ele diz não entender como foi possível um jornal tão polêmico e respeitado – apesar de amado e detestado – ter fechado as portas. Segundo o livro de Alvim, fui alvo de 46 processos, alguns deles pela Lei de Segurança Nacional. O Diário foi submetido a boicotes insuportáveis, chegando a ter créditos, descontos de duplicadas negados pelos bancos, sob pressão dos políticos do próprio MDB, até mesmo quando se tornou PMDB. Além das detenções rápidas, acabei sendo condenado a quase dois anos de prisão domiciliar. E apenas agora – quando meu tempo se esvai – consigo admitir o desgaste espiritual que aquilo me causou. Perdi bens e permiti ruísse, devagarinho, um casamento maravilhosamente feliz. Solicitei um empréstimo ao então Banespa, oferecendo o prédio de O Diário – belíssima construção, no centro da cidade, orgulhosa obra de meu pai – como garantia. A dívida, em dólares, para pagar o maquinário offset se tornava quase impossível de ser resgatada, tais as mudanças na economia nacional. No entanto – em documento que a jornalista Beatriz Vicentini, então Beatriz Elias – encontrou em suas pesquisas nos artigos do DEOPS, lá estava todo o meu dossiê, na pasta de Luiz Carlos Prestes. E num deles – o que mais me machucou – foi uma denúncia do Delegado Joseph Cella quase exigindo que o banco não nos cedesse o empréstimo. E, segundo Cella, as informações que ele tinha vinham de “fonte idônea”. E citou o nome de um jornalista respeitável, dono de jornal, cujo nome omito pelo fato de ter falecido já há muitos anos. O venerando jornalista era um dos informantes do Delegado, que remetia os relatórios à Secretaria de Educação. O documento – em meu poder – data de 1º. de março de 1977.

Em 1982 – quando os primeiros sinais de abertura democrática se revelavam – entendi estar, a missão, cumprida. Mais do que injustiças, boicotes e agressões a mim e a meus familiares – foi o cansaço que me exauriu. A censura aos jornais fora afrouxada, anunciava-se a anistia “lenta, gradual e segura”. Pediam-se eleições diretas para a Presidência da República. A Arena esfarelava-se e o PMDB se fazia poderoso, ainda que transformado – agora ele – num saco de gatos, onde um Orestes Quércia convivia com Franco Montoro.

O Brasil retornaria à democracia. Tantos anos e tantas lutas depois, é possível – pelo menos, para alguns – repetir o que Saldanha Marinho dissera da novel república: “Não é a República dos meus sonhos.” As nossas, em meu entender, não são, também, a República e a democracia dos nossos sonhos. São as possíveis, exigindo, das novas gerações, a responsabilidade de aprimorá-las.

Ao cerrar das cortinas

No dia 21 de março deste ano de 2013 – e, portanto, 49 anos depois do golpe militar – recebi, da Comissão de Anistia do Ministério da Justiça, um documento cuja síntese, “ipsis literis”, reproduzo:

“Indubitavelmente, o Anistiando sofreu monitoramento ostensivo por parte do Estado, na medida em que a maioria das suas publicações eram encaminhadas ao DOPS para averiguação, e o mesmo, concomitantemente, tinha que se dirigir ao órgão para prestar esclarecimentos.

Assim, por decorrência lógica, não fica difícil supor que um cidadão que sempre está sendo obrigado a se dirigir a um reconhecido órgão de repressão para prestar esclarecimentos, sofra constrangimentos e retaliações de várias espécies, restando assim comprovado a perseguição de cunho político.(…)

Assim, diante dos documentos que instruem o presente Requerimento de Anistia, e em decorrência da comprovação da imprescindível motivação exclusivamente política (…) opino pela “Declaração de anistiado político, oficializando em nome do Estado Brasileiro o pedido de desculpas ao sr. Cecílio Elias Neto.”

Pergunto-me: anistiado de quê, anistiado por quê? Ninguém que luta contra ditaduras e tiranias há que ser anistiado, mas tem o direito de aguardar que o tempo abra o caminho da justiça. Creio não haver justiça quando se anistiam, ao mesmo tempo, inocentes e culpados, torturadores e torturados. Nunca esperei recompensas pelas lutas que fiz obrigado pela minha consciência. Nem reclamei jamais de prejuízos e perseguições, de perdas e danos.

No entanto – quando estou em fase de minhas cerimônias de adeus e 50 anos depois – recebo o maior de todos os presentes, o mais belo dos prêmios, a mais emocionante e gratificante das recompensas. Não foi o “pedido de desculpas do Estado Brasileiro”. Mas uma carta eletrônica de meu filho Marcelo – hoje, com 45 anos – que emoldurei em minha parede, como bênção para minha vida. Recebi-a no dia 26 de março de 2013, logo após a decisão da Comissão de Anistia. Comovido, peço permissão para divulgá-la:

“Pai, o que mais um homem pode querer da vida?

Você construiu uma família maravilhosa! Olhando de perto, poucas são assim.

Você viveu tudo o que viveu e teve tempo para tudo. Para as suas convicções, para nós, para as pessoas e também teve o melhor dos tempos: o tempo de colher tudo isso.

Você viu seus filhos se tornarem boas pessoas, você viu a mudança que o país passou com a contribuição do seu suor; você resistiu a todas as dores e sofrimentos dos tempos mais duros (que para nós, filhos, eram só diversão. Olha que mágico!) Mas o melhor de tudo é que você também teve tempo de ver o reconhecimento por tudo isso.

Parabéns por toda a nossa vida. Muito, muito, muito obrigado por seu meu pai! Beijo enorme.”

Esta é a história que eu não gostaria de ter contado. Mas valeu a pena por, em especial, ter recebido – dos céus e através dos filhos – essa bênção como pai, como pessoa humana. Para mim, descerram-se, enfim, as cortinas.

FIM

1 comentário

  1. wilhe gerdes em 01/04/2014 às 12:11

    Meu irmão…não! não entendo por descerrar as cortinas. Entendo sim, estar recontando em show que mais se parece com um filme de horrores, uma luta lhe impôs sacrifícios irreparáveis que te lavaram até o AMOR.
    Assim, demonstrado está, que o sangue de jornalista combatente que sempre permeou fundo em suas veias, deixou marcas e cicatrizes que nenhum tempo, nem ninguém consegue apagar.
    Por isso, como cidadão e menino dos meus nove anos,onze meses e três dias por ocasião de ’64’, reverencio-me ao grande e sofrido soldado que fez da sua arma, palavras em forma de denúncias em defesa da bandeira da liberdade.
    Por tudo isso, exceção feita à poucos, essa cidade em especial não te conhece nos méritos da causa.
    Entretanto, como nativo que sou, expresso por mim e tantos outros anônimos nosso reconhecimento pelas lutas, medos e aflições. Por fim e por aquilo que de ti conheço, sei que bem sabes o tamanho e grandeza de ser um jornalista que nunca se curvou em ameaças.
    Mexer em lembranças dessa natureza pode até machucar; e sei que machuca, mas para um homem como ti,tenho a mais plena convicção que faria tudo como antes, somente mudando algumas encruzilhadas que te marcaram fundo no peito.
    Obrigado meu amigo! obrigado meu irmão.
    Forte abraço.
    Wilhe Gerdes

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