Igreja dos Frades: arte e história de um dos mais belos templos paulistas

Piracicaba dificilmente se refere à Igreja do Sagrado Coração de Jesus. Para a população é, ainda, a “Igreja dos Frades”. E isso remete ao carinho e respeito que os frades capuchinhos conquistaram junto à população, desde a sua instalação, em Piracicaba, no ano de 1890. O Prof .Guilherme Vitti foi um dos estudiosos dessa longa história dos capuchinhos,especialmente da atuação deles em Santana e Santa Olímpia. Aliás, quanto à ação missionária dos “capuchinhos trentinos” àqueles dois importantes distritos do município, é importante o estudo de Glaura Maria Miné Paiva Leone, para obtenção do grau de mestre em Ciências de Religião, na PUC-SP, em 1993, em dissertação intitulada “Sob o olhar dos capuchinhos.” Guilherme Vitti faz uma observação importante: “a fachada não revela todo o esplendor da igreja”.

A obra é monumental. Após a sua plena aceitação em Piracicaba, os capuchinhos dispuseram-se, três anos após a sua chegada – em 1893, portanto – a construir uma igreja própria, onde pudessem dedicar- se, inteiramente, à sua missão apostólica. A vinda deles ao Brasil havia sido uma resposta ao insistente pedido à ordem franciscana dos imigrantes “italianos do Norte e do Tirol”. Em Piracicaba, os frades oficiavam suas celebrações na Igreja Nossa Senhora da Boa Morte, que lhes fora cedida pelas irmãs de São José. Adquirido o terreno, a planta da igreja foi elaborada pelo arquiteto S. Madein, natural do Tirol e, imediatamente, as contribuições dos fiéis surgiram. (Ilustração: São Lodovico, Bispo de Soloza.Óleo sobre tela, de Frei Paulo Maria de Sorocaba.)

No dia 1º de janeiro de 1893, era lançada a primeira pedra, tendo dirigido a função o agora lendário frei Félix Dallavale. No ato, segundo Guilherme Vitti, discursou o então famoso Padre Francisco Galvão, vigário da Matriz de Santo Antônio, completando-se a cerimônia com um sermão considerado “fogoso” de Frei Luiz de Santiago. O conteúdo integral do sermão está lançado no Livro do Tombo dos Capuchinhos, de autoria de frei Damião de Grumes.

A construção

O construtor responsável pelos trabalhos foi o piracicabano Luís Morandi, auxiliado pelos pedreiros também piracicabanos, e tidos como exímios profissionais, Carlos Adâmoli e Antônio Del Fávero. O projeto, no entanto, precisou ser modificado pois, a uma certa altura das paredes, surgiu grave ameaça de desabamento, dada a fragilidade dos alicerces. E o problema se agravou porque, inexplicavelmente, o engenheiro S. Madein desapareceu da cidade. Coube a

Luís Morandi a responsabilidade de resolver o problema, solução vinda com a construção de capelas laterais à nave central.

Enquanto prosseguia a construção, um irmão leigo muito piedoso, Frei Caetano de Pietra Murata, arrecadava esmolas por todo o município de Piracicaba e pelas cidades da região. O impulso decisivo para a edificação aconteceu através do testamento de uma senhora piedosa, Dona Carolina – cujo sobrenome Guilherme Vitti não cita – que deixou a importância de 94 contos de réis para as obras. Foi de tal forma decisiva a doação que, no dia 10 de dezembro de 1895, o Bispo D. Joaquim Arcoverde fazia a bênção da igreja, mesmo que ainda inacabada.

Festa tirolesa

A inauguração da Igreja dos Frades foi, na verdade, uma “festa tirolesa”. Com a presença de autoridades civis e religiosas, benfeitores e o povo realizou-se grande almoço ao ar livre. O destaque foi a presença do cônsul da Áustria. Mas toda a alegria ficou por conta dos tiroleses que eram, então, colonos da Fazenda Monte Alegre. Cantaram músicas do Tirol e, de maneira entusiástica, o hino nacional do Império Austríaco.

A missa, solene, foi oficiada pelo Bispo Arcoverde. Foi durante a cerimônia de inauguração que se dedicou a nova igreja ao Sagrado Coração de Jesus. O término do templo deu-se em 1898, quando se colocaram, no topo da fachada, a imagem do Sagrado Coração de Jesus (no meio, com 2,50 m.), ladeada pelas estátuas de São Pedro e São Paulo, com 1,23 m. O escultor das estátuas foi o pedreiro Antônio de Favero que, sob a direção do desenhista Luís Facchini, as fez com tijolos e cimento.

Detalhes e estilo

O estilo da igreja é um misto do toscano, do jônico e do romano. A nave central tem 25 m. de altura por 30 m. de comprimento e 12 m. de largura. As capelas laterais, três de cada lado, medem 9 m. de comprimento por 6 m. de largura. O presbitério tem 8 m. de comprimento, por 7,70 m. de largura e altura de 22 m. Os coros laterais, em continuação das capelas, medem 9 m. por 8 m. e as tribunas ficam acima deles. O esplêndido altar-mór é de estilo toscano. Segundo Guilherme Vitti, “a imagem do Sagrado Coração de Jesus, pompeando nele, é de papelão ‘Pierre’, uma doação das devotas Dona Eudóxia e Maria Pinto de Almeida”. Trata-se de destacadas mulheres piracicabanas, filântropas, da época, da família de José Pinto de Almeida, grande benemérito da Santa Casa de Misericórdia.

Em 1900, ficou pronto o tabernáculo do altar-mór, construído pelos irmãos Trentini, de Taubaté, ao preço de 4 contos de réis. O púlpito foi esculpido por Antônio Spinelli, com ajuda do marceneiro Emílio Adâmoli, custando 3 contos de réis. E foram eles, também, que esculpiram os altares das capelas laterais, por 6 contos de réis, misturando estilos toscano, romano e da renascença. Em 1902, chegaram, da Europa, os santos de madeira esculpidos pelo entalhador tirolês, Antônio Tavella de Gardena. São as imagens de São Francisco, Santo Antônio, São Félix, São Fidélis, São Luís de França, Santa Isabel, Santa Clara e São Benedito, ao preço aproximado de 6 contos de réis. A imagem de Santo Antônio foi paga por Antônio Morato, pai de Francisco Morato, e a Ordem Terceira pagou as imagens de São Luís e Santa Isabel.

A fachada da igreja foi pintada pelo também lendário frei Paulo de Sorocaba, em 1915, tendo como serventes Plácido Zenatti e Eriberto Zabrecato, um espanhol. Emílio Adâmoli projetou e construiu os andaimes, que custaram 900 mil réis. E foi, também, Frei Paulo, com os mesmos Zenatti e Zabrecato, quem fez a pintura do presbitério e do altar-mór, de 1916 a 1917, além de idealizar os respiradouros das paredes, que melhoraram a acústica e a ventilação. Em 1917, Frei Paulo de Sorocaba pintou o quadro de São Francisco recebendo os estigmas, obra que mede 3 m. por 2 m., transformando a Igreja dos Frades num dos mais belos e artísticos templos religiosos do Estado de São Paulo.

2 comentários

  1. Walter Cossa em 30/03/2015 às 08:33

    Artigo muito interessante. Minha mãe sempre me falou que o pai dela tinha trabalhado na construção da igreja. Eu só não sabia que ele foi servente do Frei Paulo. Eu sou neto do Plácido Zenatti.

  2. […] O site piracicabano “A Província”, em um texto sobre a fundação da tradicional igreja dos frades capuchinhos em 1898, descreve a festa de inauguração a partir dos estudos históricos do professor Guilherme Vitti, renomado descendente de tiroleses e um dos fundadores do Instituto Histórico Geográfico de Piracicaba (link): […]

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