Monte Alegre: glória, queda e renascimento (2)

 

 

Monte Alegre:
glória, queda e renascimento – II

Ainda que não morando em Piracicaba, para onde vinha apenas esporadicamente, José da Costa Carvalho – Barão e Marquês de Monte Alegre – participa ativamente das questões locais, como a construção de pontes, que são de grande interesse para a sua atividade agrícola. As terras são situadas junto “ao rossio da Vila” e no já conhecido “Caminho de Monte Alegre”. Não são as maiores propriedades do município, mas chamam a atenção pela sua organização exemplar.

A influência de Costa Carvalho no Brasil vai-se ampliando. E Monte Alegre começa a receber visitantes ilustres, como Augusto Emílio Zaluar, historiador português, que faz longa viagem pelo Brasil imperial. Zaluar encantou-se com Monte Alegre, falando da “casa perto do rio Piracicaba, sobre uma suave colina, rodeada de plantações de cana”, mas com pouco café. Segundo Zaluar, “Monte Alegre seria uma das melhores e mais produtivas propriedades agrícolas do município, onde havia horta e pomar magníficos, cômodas e bem construídas senzalas, reinando em toda parte, ordem e disciplina”.

Em 1854, a Câmara Municipal envia ao governo da Província uma relação dos principais engenhos do município. O Brigadeiro Luiz Antonio de Souza é destaque, com três engenhos; Costa Carvalho, em seguida, com dois, ao lado do Barão de Itu.

Trabalho escravo

A lavoura piracicabana ressente – se de mão de obra. Naquele ano de 1854, há claras referências às dificuldades “para se obter escravos”. As senzalas de Monte Alegre são testemunho da existência deles que, no Vista geral da Usina Monte Alegreentanto, “escasseiam e começam a envelhecer”. Começa – se a falar em “política de colonização”, de busca de mão de obra no exterior. A produção piracicabana chama a atenção pela fertilidade do solo. Além da cana do açúcar, a prioridade, há café e chá. O alto custo dos escravos e a escassez deles em meados do Século XIX revela a importância que representam não apenas como mão de obra, mas como “instrumento de trabalho”. Um escravo custava 2:000$, sendo que uma criança, filha de escravos, valia 200$, preço de foices, enxadas e enxós.

Após a morte do Marquês de Monte Alegre, quando o Engenho de Monte Alegre foi visitado pelo Barão J. J. von Tschudi, este se surpreende ao encontrar o arado, instrumento para o amanho da terra então quase desconhecido em Piracicaba, mas muito usado na Fazenda Ibicaba, do Senador Vergueiro, em Limeira, já desde 1847.

O Senador Vergueiro e o Brigadeiro Luiz Antônio chegaram a diminuir o trabalho escravo, quase extinguindo-o, substituindo-o pela mão de obra estrangeira, especialmente alemã. Mas o José da Costa Carvalho, o Marquês de Monte Alegre, morre, em 1860, sem ter adotado a política da migração européia.

Sem o Marquês, mas aristocrata

José da Costa Carvalho, morrendo em 1860, não deixa filhos. Sua segunda esposa e viúva, Maria Izabel de Souza Alvim, herda suas terras e bens. Casa-se com um primo do Marquês de Monte Alegre, o dr. Antônio da Costa Pinto e Silva, que se tornaria famoso como Conselheiro Costa Pinto. Assim, o sítio de Monte Alegre passa, de sucessão em sucessão, por mãos de origem aristocrática e de forte influência política: Brigadeiro Luiz Antônio e Senador Vergueiro, depois José da Costa Carvalho, em seguida o dr. Antônio Costa Pinto. Sem o esplendor dos engenhos do Nordeste, do Vale do Paraíba ou do Rio de Janeiro, Monte Alegre continua recebendo visitantes ilustres.

Um desses visitantes é o escritor José de Alencar, amigo pessoal e companheiro de turma de Costa Pinto. Alencar é considerado o fundador do romance brasileiro, que ele introduz com temas indianistas. O escritor, ainda que muitos o tenham criticado por não ser fiel às paisagens que descreve, era apaixonado por ambientes rurais. Hóspede de Monte Alegre, também se encanta ao ver o rio Piracicaba, as colinas, a dureza do trabalho escravo. Em Monte Alegre, José de Alencar se inspira para escrever o romance “Til”, que se desenvolve no ambiente rural de Piracicaba e Santa Bárbara. É publicado em 1872 e fala da casa de Monte Alegre e de outra, na rua São José, como “relíquia histórica” . O nome “Til” é de um personagem, garoto, inspirado, segundo o intelectual Joaquim Luiz – em memorável palestra no “Theatro São José”, em 1912 – no sinal gráfico “til” que o serpentear do rio parece desenhar.

Tempos de Costa Pinto

Antônio da Costa Pinto e Silva é um dos mais poderosos e influentes brasileiros na segunda metade do Século XIX. É um dos polGrupo escolar da Usina Monte Alegre. Foto de 1940íticos que, também ao lado do Marquês de Monte Alegre e Senador Feijó, definiu a política do segundo reinado. Ocupou altos cargos, governando diversas províncias, como a Paraíba, Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro e São Paulo. Entre outras atividades, associou-se ao Visconde de Mauá e ao Marquês de São Vicente para a construção da estrada de Ferro Santos-Jundiaí.

Por laços de amizade e de parentesco, por interesses econômicos, Costa Pinto é vinculado à chamada “dinastia açucareira” paulista. Em primeiras núpcias, foi casado com D. Maria Nazareth de Souza Queiroz, descendente de um dos mais ilustres troncos familiares paulistas, Francisco Antônio de Souza Queiroz, irmão do Brigadeiro Luiz Antônio de Souza Queiroz. Os laços de parentesco, Costa Pinto os fortalece ao se casar, em segundas núpcias, com a viúva do Marquês de Monte Alegre, Maria Isabel, que é filha de Ana de Souza Queiroz.

Apenas após cumprir o seu mandato no governo do Rio de Janeiro, o Conselheiro Costa Pinto passa a ter mais tempo para saborear do sossego de suas terras e residências em Piracicaba. Além de Monte Alegre, ele tem uma grande propriedade rural junto ao rio Corumbataí e uma bela casa ao lado do Jardim, onde é, hoje, o antigo cinema e atual Teatro São José, na rua São José. Nessa casa, Costa Pinto hospedou o Presidente da Província de São Paulo quando se inaugurou o abastecimento de água em Piracicaba e o chafariz, que foi uma doação de o fazendeiro Júlio Conceição, irmão do seu genro, João Conceição, casado com a filha Maria de Nazareth.

Conceição, Costa Pinto, depois os Silva Prado, todos eles se unem em laços familiares e interesses comuns. A eles se unem também os Pacheco e Chaves. A Chácara Nazareth resulta dessa história. Costa Pinto morre no dia 1º e julho de 1887, no Rio de Janeiro, ao visitar uma das filhas, Maria Catarina, casada com o Conselheiro Antônio Prado. O usufruto de seus bens é da viúva, Maria Isabel e, após o falecimento desta, os sobrinhos de Costa Pinto entram no gozo da herança.

Até o final do Século XIX

Com a dissolução da herança, Monte Alegre passa – antes de atingir o fastígio com Pedro Morganti – por diversos outros proprietários. Em 1881, torna-se propriedade dos herdeiros do Marquês, Pedro Augusto da Costa Silveira e sua mulher Virgínia. Em 1888, com a morte de Pedro Augusto, a viúva Rita vende a fazenda a Joaquim Rodrigues do Amaral e a Indalécio de Camargo Penteado.

Naquele século XIX, o modelo de exploração agrária do Brasil era baseado na grande propriedade, na monocultura e na escravocracia. As terras e o Foto, 1935engenho de Monte Alegre tiveram muitos desses traços fundamentais. No entanto, não se pode dizer que o desenvolvimento de Piracicaba, no Império, possa ser comparado em tudo ao do Brasil. Por ter se destinado a centro de abastecimento da longínqua Colônia de Iguatemi, Piracicaba desenvolveu a policultura e, logo depois, manteve uma economia mista, não exclusivamente açucareira.

Em Piracicaba, os engenhos – Monte Alegre, entre eles – não se apresentam como eram os do Nordeste brasileiro, pois vão além da simples produção do açúcar para exportação. Há a “casa de morada”, não “casa grande”, com suas senzalas, mas os donos do engenho não residem na fazenda e, muitas vezes, nem mesmo em Piracicaba, mas em São Paulo ou no Rio de Janeiro.

Maria Celestina Teixeira Mendes Torres encontra a descrição de um engenho piracicabano, datado de 1825:

“As fornalhas destas fábricas são construídas simplesmente. As caldeiras são assentadas sobre arcos feitos de tijolos e crivos em cuja cavidade por um arco em ponto menor que os outros, que lhe chamam boca, deitam a matéria combustível cuja cavidade segue com diminuição e alguma elevação até avante por onde deita o fumo deste chamam-lhe de ouvido; na parte inferior há outra cavidade aonde fazem depósitos de cinzas. Queimam-se nestas fornalhas todas as qualidades de madeira. Tempo próprio para o trabalho é de junho a dezembro.”

As primeiras grandes mudanças começam a surgir quando João Tibiriçá de Piratininga traz, para o Brasil, novas técnicas de produção a partir do engenho a vapor. Até aí e com as novas técnicas trazidas pela eletricidade, são os engenhos centrais os responsáveis pelo desmatamento das regiões açucareiras. É em 1890 que o antigo engenho de Monte Alegre será incluído entre os poucos engenhos centrais de São Paulo. Antes dele, havia o Engenho Central de Porto Feliz, de 1878. E, em 1884, o futuro Barão de Rezende, Estêvão Luiz de Souza Rezende, inauguraria o Engenho Central de Piracicaba. No mesmo ano, inaugurava – se o de Capivari.

É a nova e brilhante fase do ciclo do açúcar, com leis imperiais protegendo engenhos e estipulando condições e normas para a criação dos engenhos centrais. Em 9 de março de 1900, uma nova sociedade, a Companhia Engenho Central do Monte Alegre, adquire a Fazenda Agrícola Monte Alegre que “contém 835 alqueires de terras mais ou menos, ocupados por cultivados, matos, capoeiras, pastos, etc cerca de 200 quartéis de cana, um pequeno cafezal, Engenho Central bem montado, casas de morada, de administração”… (continua)

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