O investigador e casos que deixaram Piracicaba de cabelo em pé

No total foram 26 anos de vida policial, praticamente todo esse tempo como investigador da polícia. Afirmando ser a delegacia “o aterro sanitário do comportamento da sociedade, um lugar de tristeza constante por estar canalizado ali tudo o que há de ruim – desgraças da cidade, homicídios, acidentes com mortes fatais, Antonio Gomes do Amaral, conhecido na profissão por Gomão, relatou à Província (Semanário, ano 1988) um pouco de sua experiência de vida.

“A policia não traz felicidade para ninguém. Tive apenas duas alegrias lá dentro: o dia que eu entrei, e quando eu saí.”

Esperar o mal é o destino de quem trabalha na polícia, advertiu. “A vida se resume numa eterna expectativa de que algo de errado vai acontecer. A desgraça alheia pode vir dali a um minuto mesmo.”

Ao lado dessa expectativa caminhava a tensão, uma mais que constante, tanto que Antonio já teve até problema de úlcera, e apontou como sendo esta a causa. “Oitenta por cento dessa úlcera são conseqüências da tensão do meu trabalho. Tenho 12 pontos na barriga.”

Esse era um dos motivos que levava Antonio a pensar o quanto era preciso uma pessoa ter aptidão para seguir carreira na polícia. “É uma coisa que vem da infância. É nato”, relatou.

Sua vida como policia iniciou-se com 19 anos, quando entrou para a guarda civil de São Paulo. Ficou três anos trabalhando como escrivão. Em 1963, transferiu-se para Piracicaba, e depois de alguns anos passou a ser polícia técnica. “Trabalhei 10 anos na guarda civil até quando a classe foi extinta. Aí optei para a parte de investigação”, profissão que desenvolveu por 16 anos. Por 12 anos Antonio levou em frente também a Ciretran – expedição de carta de motorista, chefiada pelo Dr. Imai.

CASOS DO INVESTIGADOR

Das suas experiências na vida de investigador, ele falou muito. Relembrou casos que o marcaram e chegaram até a “escandalizar” a sociedade piracicabana. Falou de uma quadrilha de marginais que tinha planos de assaltar a residência de um conhecido industrial da cidade, o D’ Abronzo, e pegar sua neta como refém.

“Eu consegui me infiltrar na quadrilha sem que eles soubessem. Acabei trocando suas armas por armas de festim. Consegui desarmar os bandidos.” A quadrilha era ousada, continou Antonio. “Andava com o croqui de uma casa na Argentina. Tinha a intenção de fazer o mesmo por lá.”

Um acontecido que muito repercutiu na imprensa local foi o caso do taxista Domingos Poli, morto por dois assaltantes quando tentavam roubar seu carro de praça. “Virou um alvoroço na cidade com o ocorrido. Os motoristas de taxi para reivindicar, fizeram até passeatas. Nos carros os dizeres eram os seguintes: ‘Queremos justiça. Pena de morte para ladrão.’ No final da estória os bandidos, que por sinal eram irmãos, foram presos.”

Um outro crime que marcou bem o investigador Gomão, foi quando ele, por acaso, conseguiu desvendar o assassinato de uma mulher. “Um cara telefonou lá no plantão dizendo que sua mulher tinha amanhecido morta. Fui até o necrotério como quem não queria nada e percebi uma mancha no pescoço da vítima, uma mancha de violentação. Na hora que eu vi tive a certeza de que se tratava de um crime, e já comecei a investigar. Fui até onde o casal morava, perto do Bar do Cícero lá na Sorocabana e fiquei sabendo que eles eram amasiados e que na noite anterior ela o havia desobedecido. Eles acabaram discutindo até que ele bateu nela. Foi aí que ele deve tê-la matado. O cara além de tudo, deu um banho no corpo e o vestiu; ligou para a polícia dizendo ter sido uma morte natural. Em quatro horas de investigação descobri tudo isso.”

FRUSTRAÇÕES

Mas nem só êxitos Antonio obteve na profissão. Uma de suas frustrações foi o fato de não ter conseguido desvendar o crime da “Dama de Verde”’, denominação que a própria imprensa deu para o caso naquela época. “E a estória de um corpo de mulher todo esquartejado que vestia um vestido verde, encontrado boiando no rio dentro de um saco.”

Outro caso que não conseguiu identificar o autor do crime foi o do Anselmo Brasiliense encontrado morto com 12 socadas de estilete no peito. “Não tive meio de clarear esse caso, bem como o do Orsi que conseguiu provar sua inocência com relação à morte do Dito Cueca.

Munido apenas com um calibre 38 e uma algema, Antonio ia lutar na profissão. “Se corria risco de vida? E lógico que sim, mas a proteção divina lá de cima saia de casa comigo todos os dias”.

Ameaças afirma ter recebido, mas nunca foi agredido.

Alheio a tudo

Um policial não pode deixar de ser uma pessoa fria, explicou. “Você tem que ser alheio a tudo, não se emocionar. No início realmente foi difícil.”

Que ele se lembre uma das passagens pela qual não tenha conseguido se controlar foi quando trabalhou na remoção dos cadáveres com o desabamento do Edifício Comurba e complementou apontando a causa da catástrofe: a ambição dos responsáveis. “Utilizaram material não adequado e segundo constava fizeram um número maior de andares modificando o projeto inicial do prédio.”

Outro fato que comoveu muito Antonio ocorreu quando ainda trabalhava em São Paulo, em 1961 mais ou menos, inicio de sua carreira como guarda civil. Um bonde acabou pegando um Aero Willys que estava parado numa avenida. Uma japonesa com seus três filhos que estavam dentro do automóvel morreram na hora.

Criticando a profissão, Antonio contou tê-la porque a oferta de trabalho, naquele tempo, era restrita.

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