Os “Anos Dourados” em Piracicaba (2): então, a cidade começou a sair do casulo

Seria óbvio lembrar que, após o final da II Guerra Mundial, o mundo estava transformado. Ânsias de liberdade, de reconstrução e, ao mesmo tempo, a convicção de que todos éramos sobreviventes. A democracia tornara-se um bem inalienável para o Mundo Ocidental. O Brasil, com a derrubada de Getúlio Vargas, reiniciara a construção democrática com o Presidente Eurico Gaspar Dutra. Novos partidos políticos tentavam instituir uma nova ordem. Velhas lideranças políticas eram substituídas, ainda que algumas tentassem readaptar-se, sobrevivendo.

Com o retorno de Getúlio Vargas, em eleições diretas e democráticas, houve uma recaída de melancolia, ainda que Getúlio tivesse governado sob uma nova Constituição. Os novos tempos eram irreversíveis. E, com o suicídio de Getúlio em 1954 — e a eleição surpreendente de Juscelino Kubitschek — o Brasil ingressava em um tempo transformador, onde a palavra de ordem era desenvolvimento. Desenvolver-se, crescer, romper com o passado — esse, o sentimento nacional nos anos 50, com mudanças sociais que assustavam as classes conservadoras, elites surgidas de uma aristocracia rural e que não se preparara para o desenvolvimento industrial, para as novas realidades urbanas.

Em Piracicaba, esse “frisson” em busca do novo, das mudanças, das transformações, começou com a eleição, para prefeito, de Luciano Guidotti, um comerciante muito rico, de pouca cultura, o exemplo do “self made man”. Escolhendo Luciano Guidotti — que enfrentara, nas urnas, um dos mais poderosos dos velhos coronéis da política piracicabana, Luiz Dias Gonzaga — Piracicaba optara por sepultar um passado político de coronelismos e de política paternalista, que se sucediam, no poder municipal, através do próprio Luiz Gonzaga e do médico Samuel de Castro Neves, as duas grandes forças políticas e divergentes até aquela época. Luciano Guidotti representava o novo, o moderno, ou pelo menos a esperança disso.

Na Prefeitura, Samuel de Castro Neves enfrentava dificuldades terríveis, sendo o seu último governo marcado por crises que atropelavam a administração. No entanto, o empresariado — liderado por Mário Dedini — dava o novo tom a Piracicaba: desenvolvimento. A política para a indústria do açúcar e do álcool, desenvolvida pelo IAA, era propícia a Piracicaba. Novas indústrias surgiam. (Foto: Jânio Quadros ladeado por Mário Dedini e Leopoldo Dedini. Acervo Mauro Vianna.) Mário Dedini, em 1955, inaugurava a Siderúrgica Dedini; Mausa, Morlet, Codistil, Mantoni, Santin se desenvolviam; em 1952, instalava-se a Mepir; em 1957, surgiam Lavromec, Superkaveá; em 1959, a Motocana. Com a ascensão de Luciano Guidotti — depois de um governo estadual de recuperação de finanças, o de Jânio Quadros — Piracicaba preparava-se para sair do seu casulo. Abriam-se ruas, avenidas, a juventude saía em busca de prazeres, desfilando pelo Café Haiti, pela “calçadinha de ouro”, vibrando com as conquistas do basquetebol piracicabano que, com o virtuosismo de Pecente e Vlamir, conquistara, em 1957, o torneio internacional da Argentina. Os dois jornais, “Diário” e “Jornal”, mais as duas rádios, Difusora e A Voz Agrícola, renovavam-se. A revista Mirante dava o tom dos novos tempos, com reportagens modernas. Mas ranços do passado, de tradições ainda mantidas, de um conservadorismo secular ainda estavam no ar.

Foi quando, em 1958, apareceu, em Piracicaba, o fiscal de rendas Mauro Pereira Vianna, vindo de Bauru. (Continua)

1 comentário

  1. Heloisa Piedade Meneghel em 11/09/2013 às 15:17

    Obrigada por trazer a história de nossa cidade , relembrando uma época de “ouro” para mim , para meu marido e certamente para nossos contemporâneos . Hoje moramos longe , mas nosso coração ainda suspira pela terrinha .

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