Projeto Beira Rio foi uma esperança (I)

Num momento em que Piracicaba se vê tomada de euforia pelo desenvolvimento econômico do País e da região, acreditamos valha a pena manter registrada a grande luta, iniciada há alguns, pela revalorização dos recursos naturais e privilegiados de Piracicaba, dos quais o rio é o centro vital. O “Projeto Beira Rio”, lançado pelo ex-prefeito José Machado, foi um notável esforços que, no entanto, continua na promessa. Para registrar o trabalho, publicamos o que foi divulgado pelo Memorial de Piracicaba 2002/2003, ao longo do ano de 2002.

O Projeto

No início do Século XXI, Piracicaba volta a reforçar a consciência coletiva de que a nossa história – e, portanto, o futuro – permanece vinculada ao Rio Piracicaba. Já se vão cerca de 40 anos de lutas em defesa do rio, inicialmente violentado pela criminosa ação das usinas de açúcar da região, lançando dejetos químicos em suas águas. E, depois, pela também criminosa ação de governantes que, a partir do Projeto Cantareira – para abastecer a região metropolitana de São Paulo – como que decretou a morte do rio. No entanto, é um rio que não morre, que teima em viver, em sobreviver. Uma frase de um líder piracicabano de passado recente, o engenheiro Felisberto Pinto Monteiro, definiu carinhosamente o rio: “O Piracicaba é um rio sem vergonha. Quando parece estar morrendo, à primeira chuva ele renasce.”

Confiante nesse renascimento – e na luta para impedir que a agonia se acentue – o “Projeto Beira Rio”, iniciado na administração do Prefeito José Machado, tenta delinear os caminhos de um novo desenvolvimento para Piracicaba, mais uma entre outras iniciativas que se mantêm vivas. Para sua elaboração, foi contratado o antropólogo urbano Arlindo Stefani, com trabalhos semelhantes desenvolvidos na Europa e África.

Organização participativa

Na introdução do projeto, Arlindo Stefani apresentou, em seu estilo de ver as coisas, “os atores que realizaram o diagnóstico”. Segundo ele, “ a comissão, a comunidade e a prefeitura”. Assim explicitado o trabalho: “em torno da comissão, intervieram representantes das entidades e profissionais. Com a comunidade ribeirinha, intervieram progressivamente as instâncias dos moradores, usuários e visitantes. A Prefeitura trabalhou com ambos.”

Certamente, vale a pena – por ser, este Memorial, um registro com pretensão de servir às próximas gerações como fonte de referência – reproduzir explicações fornecidas pelo autor do Projeto:

“Os três atores do diagnóstico sabiam o que buscavam: o estado da arte em relação ao rio e suas beiras. Sabiam também para quê: construir e realizar uma rede de projetos de revitalização do rio, como forma de desenvolvimento econômico diferente. Porém, o que mais procuraram foi a identidade que brotou desta longa relação conflitual ou harmoniosa com o rio. A essa identidade, os antropólogos culturais chamam de cultura espacial. (…) Essa identidade se apresenta com força no conceito antropológico de centro do mundo. Por centro do mundo, também chamado umbigo, entende-se o espaço do poder institucional de uma cidade, país ou região. O símbolo é a cadeira (sé). No caso de um reino, o centro do mundo é o leito do rei. Numa teocracia, é o altar. Ele funciona como marco zero do território.

Em Paris, esse marco foi definido numa placa fixada no chão na frente da Catedral de Notre Dame. Esta placa é o ponto de partida das quilometragens da França. Em Piracicaba, o centro do mundo tem por marco a cadeira do prefeito no seu gabinete.” E, em 2002, o gabinete do prefeito localizava-se à margem do rio.

O perímetro e os quatro círculos

No início, o Projeto Beira Rio estava voltado, segundo o seu coordenador, para um perímetro inicial que se limitava ao trecho entre a Ponte do Morato e a Ponte do Mirante, nas duas margens. No entanto, à medida que os estudos avançaram, avançou também a dinâmica do diagnóstico e, também, o perímetro. Assim, o perímetro final cobriu a totalidade do rio e seus afluentes, abrindo as portas para a bacia do Piracicaba.

Para efeito de viabilizar o estudo e o entendimento, o perímetro foi delimitado em quatro círculos, a partir do Salto, que são melhor compreendidos em mapas elaborados e que constam do projeto. São os seguintes:

1- O primeiro círculo compreende o rio e suas duas beiras urbanas centrais.

2- O segundo círculo abrange todo o rio urbano entre Monte Alegre e Ártemis.

3- O terceiro círculo compreende o rio na sua bacia municipal.

4- O quarto círculo passa as fronteiras do rio municipal para cobrir o “rio do Consórcio”.

Esses círculos são apenas estratégicos, não sendo, assim, sucessivos. Para o entendimento disso, basta saber que, por exemplo, Monte Alegre, Ártemis e o povoado de pescadores de Tancuã estão dentro do primeiro círculo, associado ao bairro fluvial do centro. E, no segundo círculo, estão os afluentes dos rios Corumbataí, Piracicamirim, Enxofre, associados ao corpo da cidade e do município.

Comunidades

A princípio, as comunidades mais diretamente ligadas à Rua do Porto, mostraram ceticismo diante de mais uma proposta de trabalho e de diagnóstico. O Calçadão da Rua do Porto, construído há 20 anos, continua sendo obstáculo para um entendimento. Mesmo assim, a chamada “Comunidade do Calçadão” – com associação de moradores e comerciantes – decidiu participar. E, com ela, a Irmandade do Divino, vindo, em seguida, as comunidades de Monte Alegre, do Tancuã, de Ártemis, de São Dimas, além de contatos com moradores da rua Luiz de Queiroz, Travessa Maria Maniero, Avenida Cruzeiro do Sul de Piracicaba. Em seguida, praticamente todas as entidades e instituições piracicabanas.

Os cinco ângulos do rio. Poesia

Para o diagnóstico, o coordenador Arlindo Stefani propôs estudar-se o rio e suas beiras sob cinco ângulos básicos de visão:

1- O rio que se conhece (cientificamente), notadamente o espaço e o ritmo do rio;

2- O rio que se lembra (história científica e a memória cultural);

3- O rio que se fez (os ciclos de desenvolvimento econômico-social pelo rio);

4- O rio que se vive (os ritos e funções do rio);

5- O rio que se imagina (as representações mentais e os comportamentos), o rio imaginário.

A grande inovação no diagnóstico foi a ênfase que o coordenador deu ao “estatuto da poesia”. Houve estranhamento. Muitos dos participantes não conseguiram entender o que “tem a ver o peixe com a construção de uma praça.” Ainda assim, o espírito do trabalho não prescindiu do esforço da reabilitação “ da poesia e da arte, da estética, dentro da teoria científica da forma”. (Continua)

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