Projeto Beira Rio: uma esperança (III)

Entre os muitos diagnósticos apresentados pelo Projeto Beira-Rio, para apontar os caminhos necessários à recuperação daquela área, encontra-se o capítulo dedicado ao que seu organizador, o antropólogo Arlindo Stefani, denominou de Sociologia do Bairro da Rua do Porto.

Ou, mais simplesmente, a identificação daqueles que animam a região da Rua do Porto, com suas peculiaridades, interesses, formas de sobrevivência e até expectativas. E também maneiras de convívio

Os primeiros, descritos como uma multidão estimada em torno de 5 milFoto: Davi Negri pessoas, de todas as idade e de ambos os sexos, se constituem talvez, para eles mesmos, nos donos maiores do local. São os pescadores quase diários, de vara e linha, que, no dizer de Stefani, “se alinham no barranco à borda do rio ou nos parapeitos das calçadas, estreitas, esburacadas, povoadas de árvores adultas cujas raízes levantaram lajes e cimento”. Para eles não há bancos ou outras comodidades e seus locais de maior concentração são as desembocaduras dos esgotos.

Motivo que preocupa cientistas e técnicos, que garantem que é exatamente nestes trechos que se concentram as maiores taxas de contaminação dos peixes carnívoros, como o dourado. Mas, ao pescador, o peixe é alimento, seja para consumo ou para venda. As leis existem, mas o controle é praticamente nulo diante da multidão que, especialmente entre setembro e abril , permanece durante horas com os anzóis e as redes, ou até mesmo apenas com as mãos, em busca dos peixes.

Segundo o levantamento, há casos de pescadores que conseguem um resultado de até 30 quilos de peixe ao dia. Muitos limpam o peixe ali mesmo, outros o levam para casa. À época da preparação do documento, a informação era de que a venda atingia o preço médio de 3 reais/quilo.

Mas há outros problemas. Muitos dos pescadores não são de Piracicaba, viajam de cidades mais ou menos próximas, chegam de ônibus, de bicicletas, motos, muitos deles passando o dia todo em torno do rio, alguns varando a noite e dormindo no local. Mas inexistem sanitários, poucas são as latas de lixo, nenhuma bica de água potável foi localizada. E, portanto, as pessoas fazem suas necessidades ao longo das muretas do barranco baixo, levando, segundo o documento do Projeto Beira Rio, “a uma fedentina intolerável”.

Em resumo: trata-se de uma multidão de pescadores “que não vai aos restaurantes, não consome, não gasta, pertence à camada sócioeconômica de pouca renda”, portanto público pouco interessante para o turismo. Mas isto importa? Parece que não . “Apesar desta precariedade, esse povo fica lá fascinado pelo rio e pelo peixe, feliz. Os pássaros fazem o mesmo, horas a fio, dias e meses a fio”.

30 reais por pessoa, nos restaurantes e bares

Os clientes dos restaurantes e bares foram descritos como gente de Foto: Davi Negriclasse média e alta, que consome em média 30 reais por pessoa, que lota mesas aos sábados e domingos, entope os estacionamentos, não se mistura com os que preferem os barracos. E nunca come peixe do rio.

A preferência pela piapara ou filhote dá uma outra característica aos restaurantes, já que estes são peixes trazidos do Pantanal de Mato Grosso. Para Stefani, “os clientes olham o rio como paisagem estética, romântica. Os pescadores do barranco “mexem com o rio útil, em sinergia com ele, com os pés n’água”. E, neste paralelo, sobra a ironia: “ao meio dia e sobretudo à noite, os barrancos cheiram muito mal e estraga-se o delicado perfume da cozinha da rua do Porto. Aos pescadores, o cheiro não parece incomodá-los”.

Se deixam o dinheiro, os clientes deixam, também, segundo a pesquisa, uma incômoda poluição.

Moradores que adoram o rio, que também os maltrata

Eles são moradores, mas muitos deles são também comerciantes. Amam o rio, respeitam suas lendas, guardam a memória viva do rio e, na análise do projeto, “são, em geral, fatalistas”. E permanecem, mesmo com as enchentes – que não chegaram a merecer sequer uma linha na análise da relação deste grupo, avaliado em torno de 400 pessoas, e o velho rio.

Uma divisão, entretanto, foi apontada no diagnóstico de um ponto de vista ainda pouco explorado. Os moradores foram apresentados entre aqueles que vivem na rua do Porto e os do Calçadão. A primeira é a comunidade próspera, que contém o Largo dos Pescadores, o espaço da festa do Divino, o antigo porto, o comércio florescente, o movimento do Salto. Já a comunidade oeste, chamada do Calçadão, empobreceu, a multidão que por ali circula em geral não é cliente dos poucos restaurantes. Mas são moradores que estão ao lado de vastas áreas verdes, do Casarão, da Casa do Artesão e que expressam sua força através de uma organização associativa já definida, que propõe inclusive a criação de um Museu do Barro,

incorporando os símbolos das olarias que ali funcionaram, recuperando a memória do barro que foi matéria prima do índio, do caipira, do negro.

Esportistas de roupas endomingadas, os usuários do lazer

O quarto núcleo de pessoas que compõem a sociologia da rua do Porto foi descrito como aqueles que também chegam de carro, a procura de lazer, com trajes esportivos, originários das camadas média e alta, e que se dedicam aos esportes matinais e de final de semana….“em geral com trajes esportivos e sociais endomingados”.

Seu vínculo se dá através do Parque da Rua do Porto, área privilegiada queFoto: Davi Negri pode ser vista de forma integrada à extensa faixa de verde que se estende pela Chácara Nazareth, ao do Parque do Trabalhador e, à oeste, pelo Palacete Boyes, Parque Infantil, Lar dos Velhinhos, ESALQ e Monte Alegre. No lado oposto, associandose ao Castelinho, Bongue, em direção a Tanquã e Tietê.

É uma comunidade a quem interessa o lazer, em suas manifestações esportivas, turismo, celebrações festivas. E grandes eventos, como os campeonatos de balonismo, os acampamentos de escoteiros, a prática de caiaque.

Embora o Parque da Rua do Porto seja público, ele permanece fechado no período noturno. Mesmo com a intenção de mantê-lo aberto 24 horas, o projeto indica entre os principais problemas a serem enfrentados pela Prefeitura a garantia de segurança às pessoas que se servissem do local.

Unindo a todos

Para o Projeto Beira Rio, o desafio para aglutinar aqueles que hoje se encontram em torno da Rua do Porto está em “irmanar o espírito ancestral com o espírito festivo”, unindo numa mesma economia as quatro comunidade identificadas, com suas peculiaridades próprias. Ou seja, “irmanar a Festa do Divino e do Peixe com os restaurantes, também a memória do oleiro e da comunidade do barranco e dos moradores com a memória nascente do turista e dos sonhadores de felicidades que andam pelo parque”.

Das novas perspectivas turísticas que se abririam com este tipo de integração ninguém duvida.

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