“Ripolândia”: última zona de verdade (2)

A reportagem que segue, em três partes, foi editada do Semanário A PROVÍNCIA, edição de 1988.

Contam que eram mais de 60 casas, uma colada na outra, espalhadas, em três ou quatro ruas principais. Cinco era a média de pessoas em cada residência e praticamente todas mulheres.Mulheres que se prostituíam: foi a “Ripolândia”, a maior zona de meretrício, que Piracicaba conheceu.

O cenário no início, isso em meados dos anos 50, não era dos mais agradáveis. Asfalto não existia, nem água encanada. Só existia rede elétrica que sustentava luzes vermelhas acesas na varanda da maioria das casas. Mas, sem dúvida nenhuma, era um lugar hospitaleiro, tanto que até existia o costume de se deixar aberta a porta das casas.

Na avenida General Camisão tudo era festa.A diversão para os rapazes depois das 10 horas da noite quando deixavam em casa as namoradas. De um lado da rua, na inesquecível casa da Ruth, podiam ser encontradas as mais sofisticadas garotas. Não por menos, do outro lado, a boatinha da “Maria 39” também chamava uma clientela.

Era um lugar onde não havia preconceito de raça e nem mesmo em relação ao poder aquisitivo das pessoas. O ambiente era calmo. Havia respeito, educação. Não existia algazarra.

O lugar era retirado e reservado – um confinamento de mulheres que ficava a pouco mais de 7 quilômetros do centro da cidade.

Como começou

Dizem que a prostituição é das profissões mais antigas da existência da humanidade. Um motorista de táxi da época se recorda que nos anos 40, Piracicaba tinha uma zona de meretrício no meio da cidade. “Ficava na Benjamim entre a Voluntários e a Prudente”. A casa mais famosa levava o nome de Pensão. “Dali a zona passou para onde é o Estádio Municipal”.

“A cidade foi crescendo”, comenta o antigo motorista. “Começaram a se criar problemas na zona,já que existiam casa de famílias por perto”.

A solução foi partir para terras ainda pouco exploradas. Aí que entra a figura de Rípoli. “Ele tinha aberto um loteamento de terras que não ia nada bem. Era tudo afastado da cidade. Tudo mato, não existia esgoto, asfalto.

Rípoli começou a construir a primeira casa do bairro que, por fim, acabou pertencendo a Ruth. É bom que fique claro que Ripoli “não tinha nada ver com a zona de meretrício”.

“Acho que queria apenas fazer com que o bairro começasse a progredir”, acredita o taxista.

Atrás da fama de Ruth começavam a se instalar outras casas destinadas ao mesmo fim. “As casas eram bonitas mas não tinham condições nenhuma de higiene. Não havia infra-estrutura”, ressalta ainda o antigo motorista. “O lugar era realmente precário” .

COMO ERA

Só que mesmo sendo um local precário existia um controle de saúde de todas as mulheres que por lá viviam. Quem nos esclarece esse fato era um freqüentador da “Ripolândia”, hoje um empresário. “Elas eram examinadas mensalmente principalmente as garotas que vinham de fora. O controle era rígido, bem mais do que hoje”.

O empresário comenta que as meninas, na maioria, “eram moças que se perdiam na vida uma vez, os pais ficavam sabendo e as expulsavam de casa. Só se tornavam prostitutas por não terem condições de encarar outra atividade, outro meio de sobrevivência”. Na zona elas tinham consolo. “Tinham casa, comida e dinheiro no bolso. No fundo todas elas tinham a consciência de que aquilo ia durar pouco. Só havia um inconveniente: eram meretrizes e não podiam circular pela cidade em busca de uma outra atividade. Biscate era o nome que se dava para as mulheres que viviam na rua”.

Policiamento era o que não faltava na zona, continua o ex-frequentador. “Tanto que de acordo com o horário oficial de se fechar as portas das casas era às duas horas da manhã muitas vezes os policiais davam batidas nas casas. Quem estivesse dentro podia ficar mas depois desse horário ninguém mais entrava. Dormir então na zona nem pensar. A não ser os mais espertos. Se pegassem dava sujeira”.

“A Ripolândia era uma festa constante”, se recorda o freqüentador cheio de saudades da sua juventude. “A única diversão que a gente tinha depois das 10 horas da noite quando levávamos a namorada pra casa. Ou a gente ia no Líder Bar ou ia para a Ripolândia. Era só encontrar os amigos na rua que eles já falavam: onde vai? Vai subi? Nós já estamos subindo” .

A Ripolândia era o ponto alto da vida boêmia. “Não existia violência; o mundo era puro, inocente”, afirma o empresário. “Não íamos para lá só ‘pegar’ a mulherada. Íamos para encontrar o pessoal. Tinha dia que passávamos horas e horas a fio, nos poucos bares que por lá existiam. Lembro-me bastante do Bar do Naim que até servia uma sopa no final da noite”.

Já um outro entrevistado, motorista de táxi também, que trabalhava no próprio ponto da Ripolândia, conta que de dia o bairro era calmo como qualquer região afastada da cidade. “As viagens que fazíamos eram somente com as moças de lá que vinham para a cidade fazer compras. O movimento mesmo começava somente no período da tarde quando o pessoal mais reservado – os casados – começavam a aparecer. A noite era a vez dos não-compromissados”.

A zona era também frequentada por bastante gente que vinha de fora. Ela era ainda procurada por políticos e jornalistas da cidade, comentou o taxista, afirmando que a Ripolândia ajudou a influenciar muitas decisões políticas de Piracicaba.

“Quando vinha alguém de fora, era costume do pessoal se reunir em ranchos da cidade onde não faltava a companhia da meninada. Sempre pediam para a Ruth mandar algumas garotas para lá. Com

as moças, os politiqueiros acabavam conseguindo muito favor dos homens que vinham para cá”.

Esse mesmo senhor até se recorda de que, em 1962, a “Folha de Piracicaba” conseguiu reverter uma situação de eleição da cidade, com um fato ocorrido na Ripolândia. “Foi a primeira vez que a imprensa tornou público uma confusão provocada por políticos na zona” .

*CONTINUA

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