“Ripolândia”: última zona de verdade (3)

Esta é a última parte da reportagem “Ripolândia”: última zona de verdade, editada do Semanário A PROVÍNCIA, edição de 1988.

A CASA DA RUTH

De acordo com um dos freqüentadores mais assíduos da Ripolândia – praticamente prestigiou os quase 20 anos da existência daquela zona de meretrício-, as casas da Mazolinha, da Mazolona, da Martinha e a da Maria 39 eram as mais cobiçadas pela freguesia, sem falar da casa de Ruth. Por que Maria 39?

“Falam que uma vez a tal Maria foi dar um susto na negada lá, e ameaçou o pessoal dizendo que ia tirar do bolso o “39” dela. Daí o apelido ficou e pegou: Maria 39″. Só que o calibre da arma era 38…”, contou um entrevistado.

Mas continuando, o antigo boêmio disse, salientando, que a casa da Ruth era a melhor de todas. “A mais selecionada, a mais refinada. Lá todo dia era dia de inauguração – sempre tinha uma mulher diferente”.

Sem sofisticação, a casa da Ruth tinha um salão grande, “como um ‘saloon’ de filme de faroeste com uma pista de dança no meio das muitas mesas que tinha. Parecia uma boate, mas a luz era clara. Não existia ainda luz negra nessa época”.

O ambiente era dos mais agradáveis, afirma o frequentador. “As pessoas dançavam bastante, bebiam, sentavam, conversavam. Era muito animado. Uma boemia sadia. Em alguns dias tinha um conjuntinho de música tocando lá”. Streap-tease ainda não existia, conta o entrevistado. “Às vezes uma menina supervestida fazia um número de bailado e só”.

O local era aconchegante. “Tinha até uma lareira para os dias mais frios”. O serviço de bar era feito por garçons mesmo, se recordou o velho senhor. “As meninas realmente faziam a mesa. Vinham bater papo; falavam de coisas que elas gostariam de ser; e existia consideração com elas”, afirma. “Nós as tratávamos como pessoas. Havia muito mais respeito humano pela pessoa do que agora”. Quase num total de 20 garotas, todas elas eram de boa Índole, aposta o boêmio. As mais disputadas eram a Marcia, a Beatriz e a Terezinha.

Homens casados não apareciam na casa de Ruth em época de Carnaval, se recorda o senhor aposentado. “Sabe como é, tinha uma turminha que sempre levava confete para jogar no pessoal. Chegava uma certa hora a casa virava uma verdadeira folia de Carnaval. Os casados sumiam de lá neste período. Como é que eles iam explicar em casa “daonde” apareceram aqueles confetes. E confete, sabe como é, sempre sobra pelo menos um. Quando a festa acabava era um tal de ficar tirando confete dos outros. Jamais esqueço”.

Carnaval era uma tradição na casa de Ruth. Até nas tardes dos finais de semana o pessoal inventava baile. “Dizíamos que era matinê infantil”.

“A casa de Ruth realmente era uma diversão que deixou saudades para quem soube aproveitar. Não era o fato de ser zona lá, que tínhamos que ficar com alguém. Ficávamos sozinhos se quiséssemos. O importante era se divertir. Era o nosso programa predileto”, esclarece.

IVONE MANSUR

Ruth era uma mulher muito inteligente, afirma ainda o boêmio. “Era uma mulher muito bondosa, bonita. Tinha os cabelos bem pretos. Família ela não tinha. Dizia apenas ter dois irmãos na cidade”. Nesta época, já tinha a idade avançada mas sabia desenvolver bem o papel de cafetina, diz o senhor. “Sabia cuidar direitinho de suas meninas. Era uma mulher de categoria”.

Pois como conta Marilena Muller d’ Arce, Ruth numa fase de sua vida passou algumas tardes no centro da cidade vendendo finos enxovais nas casas das mais tradicionais famílias de Piracicaba. “Eram partidas finas, bordados da Ilha da Madeira, toalhas de linho com entremeios de renda italiana”. Ruth se apresentava como Ivone Mansur (seu verdadeiro nome) e sempre aparecia acompanhada por um senhor que dizia ser seu irmão, continua Marilena. “Era a coisa mais comum esses tipos de casais aparecerem de fora, para vender enxoval. Aliás naquela época a mulherada só pensava nisso. E esse tal casal apareceu em diversas casas, passando a tarde tomando chá, papeando as senhoras e filhas, vendendo suas mercadorias. Como é que a gente ia imaginar que justo aquela “senhora” era a famosa Ruth?”.

Um dia, conta Marilena, “eu, mamãe e algumas vizinhas estávamos falando tchau para o casal no portão, quando papai e dois amigos chegaram e os viram saindo de casa”.

Seu pai Esmeraldo Muller e seus amigos Jacob Diehl Netto e Julio Diehl pararam imobilizados. “O que esta mulher estava fazendo aqui?” Marilena comenta que até então nunca tinha visto seu pai tão bravo. “Mas depois de tudo explicado, foi muito engraçado. E quando mamãe e dona Pequitita, mulher do seu Julinho perguntaram: “E de onde vocês conhecem ela?”.

O FIM DA RIPOLÂNDIA

De acordo com um outro motorista de praça que também trabalhava como taxista na Ripolândia, o fim daquela zona de meretrício veio a calhar na primeira gestão do prefeito Adilson Maluf. “A jogada dele foi esperta. Os terrenos ali perto eram muito baratos por ninguém procurar aquela região para se morar. Então ele comprou a maior parte das terras, e depois pôs fim à Ripolândia”, disse.

“Ele fechou com terras as entradas da zona só deixando uma aberta, onde colocou uma guarita com patrulha dia e noite”, continua o motorista dizendo que aquilo virou um caos. “Tinha por ali delegado, policiais aos montes e aproximadamente uns 40 escrivões”. Para se entrar ou sair da Ripolândia era obrigatório a passagem pela guarita e se identificar fazendo uma ficha. “Mesmo a gente que era taxista se entrasse dez vezes lá ao dia, tinha que fazer dez fichas”.

Com essa história o fluxo de gente começou a diminuir. “As pessoas tinham que apresentar documento; tornou-se uma coisa visada. Fizeram aquilo propositalmente para aborrecer a gente, para que todo mundo sumisse dali” .

O ponto de taxi da Ripolândia acabou sendo fechado. “Não tinha mais o movimento de antes quando aquele era o melhor ponto da cidade. Cinquenta a sessenta motoristas tinham o dinheiro no fim do mês só por serviços prestados à Ripolândia. O movimento era tremendo”.

As mulheres da Ripolândia começaram a abandonar o lugar em busca de ganhar a vida em outro local. “Até mesmo a Ruth se mandou da cidade”. Ninguém soube dizer sobre seu paradeiro. “Também qual prostituta gostava de andar de ônibus”, ressaltou o taxista dizendo que esse era o único meio de transporte que passava ali por perto.

“Dizem que começou a aparecer drogas na Ripolândia e por este motivo o movimento caiu”, afirma o entrevistado. “Eu nunca vi nada. Esse papo de droga quase nem existia naquele tempo”.

Crimes? “Poucos existiram”. Ele só tem a lembrança de um assassinato, por discuido de um guarda de segurança que saiu do serviço e foi até a zona conversar com as garotas. “Ele estava mostrando uma arma para uma moça e a bala disparou. Eu estava na hora ali. Vi tudo no ato”. O motorista faz questão de confirmar que a Ripolândia nunca foi um lugar de bagunça. “Ninguém mexia com ninguém. Era uma área onde se mantinha a linha normal de vida. Nem brigas aconteciam por lá”.

Segundo o taxista, a imprensa contribuiu em parte com o fim da Ripolândia. “Teve uma vez que saiu no jornal até nomes de pessoas que frequentavam o lugar. Isso assustou o povo”.

A verdade é que a Ripolândia acabou, morreu. Isso depois dos anos 70. “Com a guarita e toda a fiscalização, não durou dois meses para a zona fechar”, afirmou o entrevistado.

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