Sinfonia Piracicabana

“PIU MOSSO”

Quando a vila de Porto Feliz se positivou definitivamente, com sua câmara, seu capitão-mór, com seus juizes e sua demarcação audaciosa, Piracicaba não só suspirou como sentiu uma verdadeira punhalada no peito. É que a linha divisória da nova vila viera impiedosamente, inexplicavelmente, invasoramente, dividir a freguesia de Piracicaba em duas partes, que consubstanciavam duas obediências, obediências tácitas, ruinosas, escravizantes, injustas.

Como podia ser isto? A sujeição de Itu era crespa e agora nova imposição vinha pousar sobre os destinos a terra infeliz, sem delongas, sem amor, sem consulta. Itu ficou com a tarefa tributária e religiosa. Porto Feliz, com a incumbência da justiça. Tanto assim que o capitão-mór da recente vila, Francisco Correia de Morais Leite, logo iniciou sua tarefa impositiva, fazendo acrescer as apreensões dos locais, seja nas primeiras visitas, seja nas prisões e buscas realizadas, ou apenas com sua palavra admoestativa e vigilante.

Nunca Itu fizera isso. Nos anos em que deitava poder sobre a freguesia organizada por Antônio Correia Barbosa, jamais Vicente da Costa Taques Goes e Aranha tivera pruridos que impusessem medo, que encurralasse a povoação nas trincheiras do receio. Mais brando, sempre fora amigo, sempre profilgava os maiores, sempre se mostrara ao lado do povo sofredor.

Como se vê, a incerteza, a ameaça dos dias vindouros, o temor dos esbirros eram assunto para o espírito da coletividade. A linha divisória partia do Salto e tomava a parte alta da localidade e ia se perder ao longe. Um profundo valo fora cavoucado a fim de demarcar o limite, aumentando ainda mais o pânico escondido dos habitantes de nossa terra. Já não era o laivo de inveja pela implantação de novas vilas. Era a realidade concreta que ali se patenteava, visível, inquestionável, arrogante, avassaladora. E sabia-se que a freguesia nada tinha a deve à ex-Araritaguaba. Se devia alguma coisa, no escrínio da gratidão, era para com Itu, a sede que lhe dera mão, homens, roças, legislação, comércio, projeção. Itu, que lhe dera os povoadores, com Antônio Correia Barbosa à frente, Itu, que mandara para cá mulheres e crianças, com que se deu início à sociedade noiva-colinense.

Há uns bons dez anos atrás, pensou-se na cólera de Deus, pela ausência de um padre que, ao lado do seu ministério coroado de divindades, tivesse luzes, tivesse hombridade, tivesse força moral para conduzir o rebanho para fora das trevas que o nimbavam. Mas houve um sacerdote bom, o padre José Francisco de Paula, que sobe testemunhar sua capacidade repressiva, mormente contra os desmandos que cinematografavam a terra, envolvendo o nome de certa viúva, bonita e provocante.

Agora, estava pastoreando as almas da povoação outro ministro de Deus, o padre Manuel Joaquim do Amaral Gurgel, homem culto e compenetrado de seus deveres — aquele que, realmente, se implantara, pela sua retidão e equilíbrio moral, no coração dos povoadores da época. E então? Então, não se compreendia a continuidade impiedosa do fado, contra a qual não havia como reagir. Complicava-se a situação.

As complicações, motivadas pelo bi-juridisção, apareceram muitas. Os sesmeiros, os povoadores, os homens simples do lugarejo atestavam que a divisão, longe de corresponder a uma aspiração, surgira como um enigma, para enovelar a vida bucólica da aldeia. Compreendeu assim a própria câmara de Porto Feliz, com protestos veementes e freqüentes, junto do governo central da capitania. Compreendeu assim também, a câmara de Itu, embora sem protestos rasgados mas com protestos que não atravessavam o âmbito da própria edilidade. Dizia-se, igualmente, que Porto Feliz queria fica com tudo, isto é, mandar de cavalo e chicote sobre as terras piracicabanas.

“ALLEGRO MODERATO’

Em começo de 1808, a região de Piracicaba já contava com algumas figuras de proa: o bacharel português Nicolau de Campos Vergueiro, o padre Manuel Joaquim do Amaral, o sargento-mór Carlos Bartolomeu de Arruda, o capitão Francisco Franco da Rocha e mais uma série grande de donatários de sesmarias. Crescia a lavoura e a povoação crescia. Aumentaram-se as ruas, obedecendo a um arruamento tácito, como ainda se poderá testemunhar com as vias públicas próximas da Catedral de Santo Antônio. Nicolau Pereira de Campos Vergueiro, espírito arguto e idealizador, não se mostrava indiferente ao futuro que espera pela povoação de Piracicaba. Via-a aumentar, lastrar-se, enriquecer, tomando parte no concerto grandioso de progresso que acionava a Província, com suas freguesias e vilas. Sonha para ela dias melhores, livre dos ferros que a prendam exorbitantemente a Porto Feliz e a Itu.

Homem arejado, viajava amiúde para a sede da Província, onde o ligavam negócios de suas propriedades agrícolas. Seu círculo de relações no mundo político e administrativo de São Paulo era vasto. Conhecia os homens da época e com eles privava. Não perdia vasa em focalizar a terra que escolhera para morar, a terra onde lhe nasceriam os filhos, a terra que amava e pugnava por ela. Por que, então, Piracicaba não poderia espraiar-se como outros núcleos, deixando o casulo de freguesia para alcançar os foros de vila? Que falta fazia uma câmara autônoma, que encarasse de frente os problemas locais, sem mendicância junto das vilas já nomeadas!

Em fins desse mesmo ano, os meios pacatos do território piracicabano se alarmaram pressurosamente com uma nova promissora, até gentil: a câmara de Porto Feliz, a mando do capitão-general da Província, viria a Piracicaba, a fim de coletar dados “topográficos” da nossa aldeia? Como? Como? Então, o comando geral de São Paulo estava se interessando pela povoação que Santo Antônio padroeirava? A troco de quê? Para torná-la vila? Por que razão vinha essa ordem talvez intempestiva. O dedo de quem se manifestava nessa notícia capitosa e bimbalhante, que punha flores curiosas na alma dos habitantes locais? Não resta dúvida. O português-piracicabano traçara pauzinhos para que a futura “Noiva” também desse um salto oficial, buscando sua autonomia político-administrativa.

Pois é isso: os camarários da antiga Araritaguaba cá estiveram realmente, com seu escrivão, seus vereadores, seu piloto — a primeira reunião da edilidade cá havida! A demarcação foi feita, à curiosidade aberta e atônita os nativos. Houve uma demarcação prudente, atendendo a interesses dos moradores. Não foi propriamente uma “demarcação”, mas havia o interesse de um documento oficial, na falta de um mapa elucidativo. Seja como for, o plano constou de cinco ruas e outras tantas travessas, com seus nomes ou designação popular, ficando a igreja num pátio de cinqüenta braças de comprimento e quarenta de largura. Ainda foi reservada uma praça ou pátio, destinado à cadeia.

Legal, perfeitamente legal. Diante desse trabalho dos vereadores portofelicenses, participado oficialmente ao governo federal, não havia dúvida alguma: a freguesia de Santo Antônio de Piracicaba ia virar vila! Só mesmo os pessimistas poderiam ter um “mas” a respeito, porque o fato alvoroçou festivamene a alma dos conterrâneos de então. Piracicaba embandeirou-se em risos, na esperança corriqueira, na certeza inquestionável de que as amarras dos “estrangeiros”em breve cairiam por terra e hino da libertação poderia ser entoado com pajança, a pleno pulmão. Houve rodinhas, houve abraços, houve serões de regozijo, enquanto o nome deNicolau Pereira de Campos Vergueiro brincava de boca em boca, na faina do agradecimento.

Já se começavam, aqui e ali, a escolher nomes, à socapa — papáveis vereadores e autoridades. Apontavam-se figurões para a formação da futura câmara. Esboçavam-se partidos locais, com mira nas eleições vindouras. Nas cadeiras do “senado” só poderiam ter assento as pessoas de escol. Tudo “nosso”. Independência total. Sem as implicâncias de Porto Feli ou as carrancas de Itu! Coisa admirável! Não mais a tutela de duas jurisdições, que só serviam para atrapalhar, para embaraçar o progresso, para enovelar a vida da povoação que, pelas ruas, travessas e pátios, nada ficava a dever a Itu e Porto Feliz, não!

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