Velhos Pescadores (I)

Fotos de Cantarelli (Revista Mirante)

Perdiz

17 de Janeiro de 1957. A data ficou registrada por marcar um fascinante acontecimento que alterou profundamente a vida pacata, rotineira e quase esquecida da Rua do Porto.

Sentia a população ribeirinha um aperto no coração. Havia cinco dias que as chuvas caiam sem parar e as águas do rio subiam. Subiram até facear com o paredão preventivo, obra gigante de Luis Dias Gonzaga. SE não fosse o paredão, as águas teriam invadido casas. Mesmo assim, pela embocadura do córrego, elas já penetravam em muitos quintais e ranchos.

Contudo a rua ainda pertencia à gente. As casas, embora com os moradores assustados, ainda não estavam vazias. E a enchente era uma festa para os olhos.

Em 1957, fazia onze anos que o espetáculo não se repetia. Os adultos foram revê-lo. As crianças sentiram, pela primeira vez, a emoção de sua grandiosidade. Desceu gente em penca para a Rua do Porto. A pé, a maioria; em automóveis, em caminhões e peruas. Que Movimento! Os moradores da baixada também estavam ali na rua, em vestuários caseiros, com crianças ao colo.

Dentro do rio roncavam os motores dos barcos. Os curiosos não queriam saber dos barcos, mas muitos moleques nadavam nas margens, perto do paredão.

Foi nessa ocasião que a Revista Mirante quis ouvir os veteranos. Conversou com o pescador Antônio Perdiz.

Ele foi sempre pescador. Mas nem só de peixe vivia o homem, contou, por isso deu duro em muitos outros serviços braçais. Vivendo sempre apertado, fez algumas economias para velhice.

Ele criticou a falta de união dos pescadores e o desamparo dos poderes públicos. Pescar é um trabalho pesado. Exige perseverança e paciência. É duro passar uma noite inteira, das 10 às 6 da manhã, num barco, sem pescar nada. E também ser apanhado pelos fiscais. Perdiz visitou a cadeia algumas vezes. Contravenção? Não. Apenas ciúmes dos invejosos. Quem pesca não é ladrão, porque o peixe não tem dono.

Ele contou que viu desastres e mortes no rio, de

gente e de animais. Nunca se esquece daquela carroça puxada por dois cavalos, que o rio tragou sem dó.

Mas disse não acreditar em lendas, só que a Ciência de Deus é a única e soberana do mundo.

*Continua

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