A sede que foi Palácio Encantado (1)

A construção da sede do C.C.R. Cristóvão Colombo na rua Governador, esquina da Prudente de Moraes resultou de uma das maiores mobilizações populares já conhecidas por Piracicaba. De repente, uma idéia imantou a comunidade e se tornou como que um sonho coletivo e nada o deteve até que a sede, saindo do nada, inaugurasse. Seria o Palácio Encantado da Governador, como a batizou o então colunista social Mauro Pereira Vianna, com o pseudônimo de Marco Aurélio.

Tudo começou quando o engenheiro-agrônomo Ermor Zambello foi eleito presidente do clube, sucedendo Telmo Otero, que, algum tempo depois, se tornaria presidente da Associação Comercial e Industrial de Piracicaba. A posse de Ermor Zambello deu-se no dia 14 de novembro de 1957. E, aos associados e companheiros de diretoria, fez uma promessa: iria construir a nova sede do Cristóvão, pois já se haviam tornado acanhadas as instalações no belo e velho prédio da rua São José, esquina da Governador.

O Cristóvão

Quase ao final da I Guerra Mundial, em 1917, a crescente e já poderosa comunidade italiana de Piracicaba organizara-se num clube que se tornou influente em toda a cidade: o Circolo Italiano Cristoforo Colombo. Nomes de respeito e com forte presença social, cultural e econômica faziam parte do Circolo, como o educador Pedro Zanin, o comerciante e banqueiro Terenzio Gallezi, famílias como as dos Delfini, dos Tarsia, muitas outras.

Uma outra conflagração, no entanto, abalou as estruturas mundiais. Mussolini, na Itália, Hitler, na Alemanha já em meados da década de 1930 não mais escondiam suas intenções expansionistas. O fascismo e o nazismo mostraram a cara. No Brasil, Getúlio Vargas implantara a sua ditadura implacável, com a constituição fascista de 1937. E proibiam-se, em todo o Brasil, empresas, entidades, clubes, instituições com nomes estrangeiros. Era o fim do Circolo Italiano Cristoforo Colombo de Piracicaba que, em 23 de outubro de 1938, transferia seus bens para o Centro Cultural e Recreativo Cristóvão Colombo, sob a presidência de um notável professor e intelectual piracicabano, dr. Dario Brasil. A sede era o casarão da rua Governador, esquina de São José, de propriedade do empresário Luiz Lee Holland.

Em 1957, Ermor Zambello chegava com a intenção de realizar uma revolução. E realizou-a, conseguindo empolgar Piracicaba com suas idéias e sonhos.

Doação do terreno

Ermor Zambello era amigo pessoal do prefeito Luciano Guidotti, de cuja administração sua esposa, Umbelina Zambello, era eficiente funcionária, personalidade de confiança junto ao gabinete. A construção da nova sede tornara-se como que obsessão de Zambello que, então, não deu mais sossego para ninguém, mobilizando empresários, associados, imprensa, políticos. Mas construir onde, se o clube não tinha terrenos adequados? O alvo de Ermor Zambello estava próximo da sede antiga: um terreno na mesma rua Governador, esquina da Prudente de Moraes. Naquele local, Piracicaba vira surgir, em 1910, a revolucionária e pioneira Universidade Popular, onde intelectuais ministravam cursos e aulas para o povo, com programas de cultura e arte.

O prefeito Luciano Guidotti não resistiu aos argumentos de Zambello e à pressão comunitária que ele desencadeara. Apresentou à Câmara Municipal o projeto de doação do terreno e, sendo aprovado pelo Legislativo, san-cionou e promulgou a Lei 755, de 12 de agosto de 1959, que autorizava ao doação ao C.C.R. Cristóvão Colombo para cons-trução da respectiva sede social, um terreno de forma irregular, com a área de 607,50m2, localizado à rua Governador Pedro de Toledo, esquina da rua Prudente de Moraes, indicando a metragem e confrontações.

O advogado Jacob Diehl Neto, quase de imediato, tentou embargar a doação, que tinha um complicador: parte do terreno pertencia a herdeiros da família Teixeira Mendes. A doação se tornou, imediatamente, uma batalha jurídica e, também, uma verdadeira guerra política. Luciano Guidotti encerrava o seu mandato e, a sucedê-lo, estava aquele que se tornara o seu maior rival político, Francisco Salgot Castillon, líder da UDN com fortes marcas populistas.

Escritura e ato político

Mas a luta foi em vão. Quem conheceu Luciano Guidotti lembra-se de seu estilo: quanto mais havia oposição, mais ele teimava em suas decisões. E, apesar das reações de vereadores e de opositores, Luciano decidiu por um ato ainda mais polêmico, provocativo: a escritura de doação seria lavrada no seu gabinete, na Prefeitura, com a presença de diretores do Cristóvão, de vereadores da situação, de empresários. E assim, no dia 10 de outubro de 1959, o tabelião Ricardo Ferraz de Arruda compareceu ao gabinete de Luciano Guidotti e a escritura foi lavrada. Era um sábado. E o ato aconteceu às 11h. da manhã, com rojões e fogos.

Foi uma festa só, apesar dos muxoxos da UDN. E as comemorações continuaram na mesma noite, na sede antiga, com a apresentação, pelo teatro amador colombino, da peça Castelo Assombrado. Na manhã do domingo, dia 11 de outubro, misturaram-se a gratidão dos colombinos e os atos políticos provocativos: lançava-se a pedra fundamental da nova sede, com a presença de Dario Brasil e personalidades, inaugurando-se uma foto de Luciano Guidotti na galeria dos beneméritos da velha sede. Tudo fora preparado para acontecer no dia do aniversário do Cristóvão, 12 de outubro. Numa Segunda-feira, 12 de outubro de 1959, Piracicaba ouviu sons da grande festa: o baile de gala se transformou num carnaval fora de época. A orquestra: Nelson de Tupã, uma das mais famosas daqueles anos…

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