Elias Rocha, o Elias dos Bonecos (5)

(Elias voltando para casa após capinar mato na beira do rio. Nordahl C Neptune – 1999)

Para entender melhor Elias Rocha, como ele percebia a sua própria existência, o autor da dissertação “Elias dos Boencos” reuniu trechos de entrevistas realizadas com o artista durante o trabalho de campo.

“Nasci na Rua do Porto, sou que nem sapo do brejo, se sair, não acostuma em outro lugar. Só saio daqui quando morrer, meu lugar é aqui, no paraíso”.
“O rio é minha mãe, tratou de mim, desde criança devo obrigações a ele. Todo dia para mim é dia de santo, o rio é minha religião. Se não fosse ele, eu e minha família tínhamos passado fome. É o rio que dá alma aos bonecos”.
“Tem gente que pede para fazer um boneco para pôr no quintal, mas não tem dinheiro, não tem problema, eu faço com orgulho”. 
“Enquanto o tempo não me mata e Deus me der saúde, eu vou matando o tempo fazendo bonecos. Meu professor é o Divino.”
“Ao contrário do alfaiate que tira a medida da pessoa para fazer a roupa, eu tiro a medida da roupa para fazer os bonecos”.

(“A Festa do Divino é a melhor festa do mundo”. Bolly Vieira, Jornal de Piracicaba, 15/07/ 2001)

“Não podemos ser iguais, o Senhor fez tudo certo, cada um com seu pensamento, se fossemos todos iguais estávamos perdidos. Nessa vida cada um  tem que fazer o que gosta”.

“Na minha opinião, daqui a 30 anos não vai ter mais o que comer e beber, nós estamos concretando e asfaltando a terra, não tem mais terra para plantar, não é o castigo, é o progresso”.
Alguns conterrâneos de Elias dos Bonecos também colaboraram com depoimentos.
“Elias é um artista que representa muito bem a alma do povo”. (Depoimento do poeta e escritor Ezio Pezzato, 2001):
“Elias é um artista popular muito sábio, tem uma sabedoria do povo, é muito ingênuo, fiel aquilo que ele pensa e faz, seu trabalho realmente comunica sua idéia”. (Depoimento da xilogravurista e artista plástica Marilu Trevisan, 2000).
“Elias é um homem que interfere e luta pelas questões ambientais. O amor pelo rio, pela cidade e região, fez com que esse ribeirinho bem cedo iniciasse um tipo de campanha a princípio solitária, pela despoluição do rio”. (Depoimento da diretora da Casa do Povoador, Jussara Marquesini Neves, 2001).

(Charge, sugerida pelo professor Nilson Villa Nova, mostra os bonecos do Elias em protesto contra a situação do rio. Jornal de Piracicaba, 31/08/02, p. A-1)

“O Elias é uma figura que tem uma atuação exemplar e que acaba se transformando num símbolo, num exemplo de vida a ser seguido, ele tem um amor e carinho muito grande pelo rio”. (Depoimento do então Secretário do Meio Ambiente de Piracicaba, Juan Sebastianes, em 2001).

“Elias é um piracicabano de raiz, é a cara de Piracicaba, um homem simples mas fascinante, de um dinamismo muito grande, um artista popular extremamente positivo nas suas ações e atitudes”. (Depoimento do então Deputado Federal José Machado, em 2000). 
“O Elias tem três particularidades: a primeira é que ele é um dos  mais antigos marinheiros da Irmandade, a segunda é que é ele que por muitos e muitos anos acorda Piracicaba às 6 horas da manhã e no entardecer soltando os morteiros, anunciando durante toda semana a Festa do Divino. A terceira, é ele quem enfeita às margens do rio Piracicaba com esses lindos bonecos”. (Marco Antonio, um dos diretores da Irmandade do Divino, 2000).
“Elias é devoto do rio e do Divino Espírito Santo, é um semeador de sabedoria popular. Primitivo na arte e poeta na alma”. (Depoimento do folclorista, historiador e escritor, Hugo Pedro Carradore, 2000).
Elias não fazia questão de ser considerado um artista popular.
“Eu nem não sei se o que faço é arte, só sei que eu amo o que faço, amo essa arte minha, não conseguiria viver sem esse ofício, sem sair daqui da beira do rio”.

(Elias capinando barranco do rio Piracicaba. Nordahl C Neptune. 2000)

A experiência de vida e o contato direto com as manifestações populares de sincretismo cultural e religioso de origens indígenas, africanas e ocidentais, que ocorrem na Rua do Porto, tornaram-no um sábio, capaz de compreender e respeitar as forças que movem o universo e, também, permitiram ao artista experimentar novas sensações e adquirir outros conhecimentos que acabaram por influenciar sua arte e a maneira de se relacionar com o mundo.

Curiosamente, apesar de ter ensinado muita gente a fazer bonecos, Elias não herdou essa arte e pelo que consta, não existe ainda outro artesão fazendo esse trabalho em algum lugar.
Desde antes de sua morte, ao contrário de outros artistas que tiveram seu talento reconhecido postumamente, Elias foi respeitado não apenas como um artista, mas também, como exemplo de luta e cidadania por suas ações e atitudes ecológicas.
Os bonecos do Elias eram originais e possuíam, afinal, uma dupla dimensão ecológica: eram feitos a partir de material reciclado, reaproveitado, cujo destino seria o lixo e, além de interferirem positivamente junto à paisagem, estavam ali para dar um alerta, batalhando por uma causa que é a despoluição do rio, despertando nas pessoas um sentimento de preservação e conservação da natureza, tentando resgatar uma consciência ecológica.
São palavras de Elias:
“Se eu fosse o prefeito dessa cidade, mandava plantar árvores em toda beira do rio”.

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