ESALQ: um século de ciências agrícolas em Piracicaba – (VI)

1.2.3 . Fitossanidade

Historicamente, a primeira contribuição dada pela Escola Agrícola deve ter sido a identificação por Rosario Averca Saccá, mestre italiano de Fitopatologia e Botânica, dos sintomas de deficiência de magnésio no algodoeiro, cafeeiro, citrus e videira, com a indicação de como corrigi-los mediante aplicação de cal dolomita. O feito, publicado em 1912, é registrado na literatura mundial.

Pragas e moléstias são “sócias” do agricultor, consumindo 30-50% do que produz, no campo ou no armazenamento. Daí a necessidade das medidas de prevenção ou controle que vão do desenvolvimento de variedades resistentes ( métodos tradicionais ou biotecnologia) ao uso de defensivos e práticas culturais como as de rotação de culturas, sem esquecer o controle integrado. Três contribuições de Piracicaba devem ser mencionadas:

1) identificação do carvão da cana por Ruben de Souza Carvalho;

2) esclarecimento da biologia de broca de café por Jacob Bergamin, indispensável para se buscar medidas de controle;

3) idem da broca de cana de açúcar por Domingos Gallo.

1.2.4. Genética e Melhoramento de Plantas

No meio da década de 30 ( a USP foi criada como tal em 1934 graças à visão de Armando de Salles Oliveira, Júlio de Mesquista Filho e de Paulo Duarte), José de Mello Moraes, Mellinho como era conhecido para denotar a simplicidade dos grandes, então Diretor e sempre homem de visão ele também, trouxe para Piracicaba Friederich Gustav Brieger, que estava trabalhando no John Innes Horticultural Institute na Inglaterra. Brieger foi chamado para começar a Genética e Melhoramento na ESALQ, ajudado por dois assistentes brasileiros, Edgard do Amaral Graner e José Teófilo do Amaral Gurgel. Não é, talvez, exagero, dizer que assim começou a escola brasileira de genética vegetal. Andre Dreyfuss começara, na há pouco criada Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, a unidade “core” da USP, a genética animal. Mello Moraes tinha uma alternativa para Brieger, contou-me ele: a norte-americana Barbara McClintock, que mais tarde viria a ganhar o Prêmio Nobel. Preteriua por achar difícil entrosar uma mulher numa faculdade esalqueana eminentemente masculina.

Blumenschein ( 1967), coincidentemente discípulo de Brieger e de Barbara Mc Clintock, escreveu parte da história da Genética e Melhoramento em Piracicaba, tendo destacado as seguintes contribuições principais, às quais acrescento as mais recentes:

1) Estatística aplicada: foi introduzida por Brieger que desenvolveu, simultânea e independentemente do teste “F” de Snedecor, o teste “theta” para avaliar significância. Dois assistentes do Mestre se destacaram nesta área do conhecimento: E.A . Graner (ensino) e Roland Vencovsky (Genética Quantitativa).

 

2) Evolução e melhoramento do milho: estudos conduzidos em colaboração com vários assistentes como Ernesto Paterniani, que estudara no México com N. Borlaug, que viria a ganhar o Nobel da Paz. Foram produzidas variedades sintéticas cujas sementes, ao contrário das híbridas, podem ser plantadas: Piranão, Piramex, Central mex.

3) Genética do arroz: Akihiko Ando fez trabalhos pioneiros, mais tarde continuados no Centro de Energia Nuclear para Agricultura, USP, Piracicaba, combinando irradiação e produtos químicos para induzir mutações.

4) Hortaliças: Marcílio Dias, Cyro P. das Costa produziram variedade tropicais de hortaliças adaptadas às condições brasileiras . Nessas pesquisas colaboraram Rahme N.Neder,Vencovsky, H.Ikuta, H.Tokeshi e F.Galli, os dois últimos nos aspectos fitopatológicos. O destaque merecidamente deve ser dado para o trabalho de Marcílio que, além de saber Genética e Melhoramento, tinha uma formação mais abrangente, difícil de se encontrar nestes dias de especialização exacerbada. Juntos, Marcílio, Galli e eu identificamos, em 1953, entre produtores da Cooperativa Agrícola de Cotia, deficiência de molibdênio no couve-flor e indicamos como fazer sua correção.

(continua)

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