João Herrmann: República Socialista de Piracicaba (1)

O falecimento de João Herrmann Neto abre, em Piracicaba, uma lacuna de liderança política dificilmente de ser preenchida. Ele foi, depois de Francisco Salgot Castillon, o mais reconhecido líder populista piracicabano, com repercussão nacional. Nesse estudo, do livro Piracicaba Política, História que eu sei (1942/1992), deixamos um registro abreviado de sua atuação na vida de Piracicaba.

 Sucedendo a Adilson Maluf

A administração de Adilson Benedicto Maluf encerrava-se de forma atribulada, em meio a grande decepção popular. Os dois partidos políticos – ARENA e MOB ¬preparavam-se para lançar candidatos à eleição municipal, em 1976, quando as princi¬pais lideranças políticas e outras que despontavam como promessas haviam desaparecido.

Em Agosto, o Brasil seria atingido pela notícia da morte trágica de Juscelino Kubitschek, em acidente de automóvel na Rodovia Outra. O país já se assustara, no ano anterior, 1975, com a morte, no OOI-Codi, do jornalista Wladimir Herzog. Em São Paulo, o governador Paulo Egídio Martins se via às voltas com a indignação paulista diante de atrocidades que se cometiam nos porões da ditadura. Nas dependências do mesmo OOI-Codi, morreria, também, o operário Manuel Fiel Filho e o Presidente Geisel exoneraria o Comandante do 11 Exército, General Ednardo d’ Ávilla de Mello. O PROÁLCOOL já estava instalado e, em Piracicaba, o Grupo Oedini vivia um novo alento. A Caterpillar dava início à construção de sua nova unidade no município. A Universidade Metodista de P”iracicaba era reconhecida oficialmente pelo Ministério da Educação, sendo o seu primeiro reitor Richard Edward Senn, norte-americano de origem. Nas salas de aula da UNIMEP, porém, contrariando a linha ideológica do Reitor, cresciam sementes de resistência aos governos militares; as esquerdas, de todos os matizes, organizavam-se, aproveitando-se dos espaços que o Presidente Ernesto Geisel começava a abrir com a repetida promessa de “distensão lenta, segura e gradual”. Chamava-se Golbery do Couto e Silva o ideólogo da abertura. A Lei Falcão, no entanto, entrava em vigor, enquanto adiantavam-se as obras de Usiminas, de Itaipu, da Açominas, dos militares, o general Jorge Rafael Vilela. Morria, na China, o líder Mao Tse Tung.

Com o governo de Paulo Egídio Martins, a ARENA de Piracicaba deu uma guinada e, por amizade pessoal antiga que eu mantinha com o deputado federal Raphael Baldacci Filho, envolvi-me ainda mais nas relações políticas, tendo trânsito fácil e livre no Governo de São Paulo, onde estavam outros amigos meus, como Adhemar de Barros Filho e Wadi Helu, deputados guindados aos cargos de Secretário de Estado. Novamente – e por insistência do Governador Paulo Egídio Martins, que passou a prestigiar-me pessoalmente – aventou-se a hipótese de minha candidatura à Prefeitura Municipal, que, novamente, recusei. Mantinham-se, ainda, as subdelegacias e a ARENA já tinha dois candidatos: o vereador Jairo Ribeiro de Mattos, apoiado pela Câmara Municipal, e o também vereador Benedito Fernandes Faganello, apoiado pelos remanescentes “guidotistas”, agora em fase final de extinção. Sobrava a terceira legenda, que era nossa. Aconteceu, então, que o E.C.XV de Novembro, sob o comando de Romeu Ítalo Rípoli chegou, com um grande time, à decisão pelo título do Campeonato Paulista de Futebol. Em meio a grande euforia popular, o “Nhô Quim” sagrava-se Vice-Campeão Paulista de Futebol, primeiro clube do Interior a chegar a tal posição em São Paulo. A popularidade de Romeu Ítalo Rípoli cresceu de maneira impressionante. E lançamos a sua candidatura a Prefeito, para completar a chapa da ARENA. Pesquisas de opinião davam Romeu Ítalo Rípoli como imbatível.

No MDB, as dificuldades eram grandes. A experiência emedebista na administração municipal, com Adilson Maluf, tinha sido negativa. Não havia, mais, lideranças expressivas. Se a ARENA pagava o preço da impopularidade do governo federal, o MDB ressentia-se, em Piracicaba, do fracasso da administração de Adilson Maluf. Seus candidatos não tinham expressão popular: o vice-prefeito Américo Perissinotto, o advogado Airton Pinazzi, o secretário José Lázaro Aprilante. Insinuava a candidatura de João Herrmann Neto, assessor de Adilson que obtivera algum destaque na Secretaria de Obras. Foi quando se deu a impugnação da candidatura de José Lázaro Aprilante, descobrindo-se que ele era filiado à ARENA em sua cidade natal, Capivari. A partir da impugnação a seu candidato preferido, Adilson Maluf perdeu o entusiasmo pela campanha eleitoral à sua sucessão. E, no dia da convenção municipal, o MDB apresentava os seus candidatos oficiais: Américo Perissinotto, o vereador Jorge Martins e, de última hora, João Herrmann Neto, que se havia aliado a José Aparecido Borghesi e Frederico Ferraz Nobre, homens do “staff” de Adilson Maluf. Na realidade, eram três nomes sem grande apelo popular e leitoral. Américo Perissinotto houvera sido marginalizado durante a administração de Adilson Maluf. Na realidade, eram três nomes sem grande apelopopular e eleitoral. Américo Perissionotto houvera sido marginalizado durante a administração de Adilson Maluf; Jorge Martins era conhecido apenas por sua atuação no comércio e entre os comerciários; João Herrmann Neto, tornaod folcórico por suas brigas e estrepolias quando estudante na E.S.A. “Luiz de Queiroz”, passando por uma fracassada eleição a deputado federal e com alguma notoriedade na Secretaria de Obras e Serviços Urbanos no município.

Os próprios emedebistas admitiam, durante a campanha, que quase não havia possibilidades de enfrentar e vencer os três candidatos da ARENA. A campanha de João Herrmann Neto e José Borghesi desenvolvia-se quase na brincadeira, sem grandes compromissos, sem projetos, sem planos. Havia, pelo menos nos meios políticos, como que o consenso de que a ARENA venceria as eleições e que Romeu Ítalo Ripoli seria eleito prefeito de Piracicaba.

A vitória de Herrmann

Foi, a de 1976, uma das mais pobres campanhas a que Piracicaba assistiu. Sem motivações, sem grandes entusiasmos. Dentro da ARENA, repetiam-se, mais uma vez, as mesmas inabilidades e desentendimentos. O objetivo arenista, da mesma fonna como ocorrera em relação a João Guidotti, passava a ser derrotar Romeu Ítalo Ripoli, ranços de um passado ainda recente. E, em meio a campanha, Rípoli, entusiasmado com a sua propalada vantagem, passou a cometer imprudências. Primeiro, tentando atacar a administração de Adilson Maluf, avisou que iria dispensar todos os engenheiros da Prefeitura, que a população acreditava serem muitos. Entusiasmado, Rípoli passou a dizer que iria dispensar, se eleito, não apenas engenheiros, mas cerca de 1.500 funcionários. E, em seguida, indispôs-se com os panificadores, anunciando a criação de “padarias municipais” nos bairros. A campanha de Rípoli desabou, faltando 15 dias para as eleições, crescendo a candidatura de Jairo Ribeiro de Mattos.

Enquanto a ARENA se retaliava, o MDB foi, vagarosamente, fazendo a sua campanha. João Herrmann Neto, como que brincando, saía pelas ruas dizendo que iria distribuir “camisinhas de Vênus”, maneira de provocar Romeu Ítalo Rípoli, tido e havido como garanhão irrecuperável. Américo Perissionotto e Jorge Martins capengavam, sem despertar entusiasmos. E, assim, se chegou ao dia das eleições e, quando as urnas se abriram para a contagem de votos, lá estava, novamente, a tensão formada: o mais votado era Jairo Ribeiro de Mattos da ARENA, mas o MDB, como legenda, estava caminhando próximo, urna a urna, secção por secção.

A apuração foi emocionante e o resultado apenas aconteceu definitivamente quando da última uma aberta. Mais uma vez, a ARENA era vítima de seus próprios erros: nas mesas apuradoras, havia fiscais apenas da sublegenda de Jairo Ribeiro de Mattos, os de Rípoli não existiam e, pela sublegenda de Benedito Femandes Faganello, o fracasso da fiscalização era total. E havia um incidente que se tomaria decisivo naquelas eleições: Benedito Faganello era candidato a prefeito pela ARENA e um primo seu, Antonio Femandes Faganello, candidato a vereador pelo MDB. Todos os votos escritos com o nome Faganello – assinalados no espaço da cédula eleitoral reservado ao prefeito – passaram a ser contados para o candidato a vereador Antonio Faganello. A apuração era confusa, desorganizada. O Delegado da ARENA, Geraldo Carvalhaes Bastos, chegou a impugnar uma secção toda, onde se encontraram 80 votos em branco contados para o candidato João Hemnann Neto. (v. aqui) E o final da apuração, quase ao amanhecer, indicava os números finais: Jairo Ribeiro de Mattos era o candida­to mais votado da ARENA, mas o MDB houvera conseguido maioria de votos por legenda, apenas 86 votos de diferença, e, assim, era o partido que elegia o prefeito daquelas eleições. O nome do mais votado no MDB e naquela eleição era o de João Herrmann Neto.

O pedido de recontagem de votos chegou a ser fonnulado pela ARENA, mas havia o impasse: qual dos candidatos deveria assiná-lo? Como Jairo Ribeiro de Mattos tinha sido o mais votado, decidiu-se que a recontagem deveria ser feita por ele e sua sublegenlla. No entanto, Jairo Ribeiro de Mattos negou-se a pedir a recontagem dos votos. A aventura política, dentro do MDB, acabara dando certo. Os cerca de mil votos, obtidos pelo vereador Jorge Martins, revelaram-se decisivos para aquelas eleições. João Herrmann Neto era o novo prefeito de Piracicaba. Sem equipe administrativa, sem programa, sem objetivos definidos. E, na Câmara Municipal, problemas graves aguar­dando-o: a ARENA elegera a maioria dos vereadores, novamente; e o MDB, com os vereadores que elegera, não se mostrava disposto a dar sustentação a João Herrmann Neto.

Muito se falaria de que João Hemnann Neto tinha um projeto socialista e socializante de administração municipal. Não foi verdade. Ao chegar na Prefeitura no dia 1º de Fevereiro de 1977, João Hemnann Neto não tinha qualquer projeto político para o município, a não ser idéias esparsas em relação aos bairros periféricos, que passara a conhecer melhor quando de sua passagem pela Secretaria de Obras. O seu estilo era marcadamente “populista” e foram muitas as dificuldades que encontrou para organizar o seu próprio secretariado. Tratava-se, na verdade, de uma colcha de retalhos. Mantivera homens ligados à administração de Adilson Maluf, como João BasIlio, José Aparecido Borghesi, José Lázaro Aprilante e Frederico da Rocha Nobre, que nunca se pautaram por alinhamentos ideológicos, muito menos socializantes. Apoiara-se em Arnaldo Porta Woltzenlogel – que tinha sido seu auxiliar na Secretaria de Obras, e que fora sócio e fundador da Woltzmac, especializada em obras de calçamento de ruas – e em Paulo Augusto Romera e Silva, engenheiro-civil, este, sim, preocupado com as questões sociais e engajado em movimentos de esquerda. Para a secretaria de Administração, foi convidado o engenheiro-agrônomo Newman Ribeiro Simões, – que fora vice de Herrmann quando de sua gestão no CALQ -, logo após os primeiros atritos com Frederico da Rocha Nobre. Para o SEMAE, fora convidado o também engenheiro Ricardo Bortolai; Alceu Marozzi Righetto para o que se chamaria Ação Cultural; Fausto Longo para a área de turismo. Tratava-se, assim, de um espectro que não permitia definir qualquer proposta socialista de João Hemnann Neto para a Prefeitura de Piracicaba.

O responsável pela guinada gradativa que o Prefeito João Herrmann Neto foi dando à sua administração era um professor da UNIMEP, especializado em Educação, Neidson Rodrigues. Um teórico socialista, militante de esquerda, Neidson Rodrigues foi, sem dúvida alguma, o homem que influenciou o Prefeito João Hemnann Neto à confusa e por assim dizer caótica orientação socializante que pretendeu dar à sua administração. Ao lado de Neidson Rodrigues, Enildo Pessoa – que havia sido secretário de Miguel Arraes, em Recife – militante e teórico de esquerda, responsável pela empresa PLANJETO que passou a assesso¬rar o prefeito, seria outro de seus orientadores ideológicos. Algum tempo depois, seria a vez do advogado Antonio Gadelha. Formou-se, assim, ao longo dos primeiros meses da adminis¬tração de João Hemnann Neto, toda uma cúpula de tendências socialistas, do PCB ao PC do B, passando pelo MR-8, vindo a agasalhar o incipiente esquerdismo da UNIMEP, com figuras como os professores Barjas Negri e Renato Maluf, dando-se, também, espaço às sementes do PT que seriam plantadas depois.

Na colcha de retalhos ideológica com que criou o seu secretariado, João Hemnann Neto – por força de seu próprio temperamento, autocrático e personalista – foi responsável por contradições chocantes: de uma proposta popular e transformadora que se mostrava à população, o Prefeito passava a agir com personalismo, fazendo o que lhe agradava e cometendo os excessos a que se dava direito, pouco se importando se a prática de sua atuação contradizia a teoria perseguida por seus assessores. João Herrmann Neto superava o estilo “guidotista” assumido por Adilson Maluf, adotando um comportamento “populista” muito próximo ao de Salgot Castillon. Não se podia ocultar uma realidade: tratava-se de uma nova e forte liderança política, mas confusa e contraditória.

A Câmara Municipal

João Herrmann Neto foi outro prefeito que se elegeu sem ter maioria na Câmara Municipal. Suas relações pessoais com os vereadores era amigável, mas o relacionamento político era conflituoso. Sem ter humildade, João Herrmann Neto não fazia segredo do que pensava dos vereadores: para ele, eram pessoas medíocres, que não tinham condição de entender ou de enxergar o que ele pretendia com sua filosofia administrativa.

Tinha, assim, a oposição em bloco dos vereadores da ARENA e, entre os que haviam sido eleitos pelo MDB, João Herrmann Neto enfrentava antipatias e divergências, especial¬mente porque alguns dos vereadores eram ligados ao ex-prefeito Adilson Benedicto Maluf. Desde o momento em que João Herrmann Neto se incompatibilizara com Frederico da Rocha Nobre, surgiram atritos e desentendimentos entre os aliados de Adilson Maluf. A grande votação que o radialista Ari Pedroso obtivera para a Câmara Municipal tinha sido responsável principal pelo fato de o MDB ter formado uma bancada com número suficiente para, no primeiro ano legislativo, eleger o novo presidente da Câmara Municipal, Braz Rosilho. Mas o apoio do MDB não era incondicional a João Herrmann Neto.

*CONTINUA

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