João Herrmann: República Socialista de Piracicaba (4) – final

O Congresso da UNE

Em 1980, já se ouviam os gritos de “anistia já”. No Irã, impunha-se a liderança do Aiatolá Khomeini, após a queda do Xá Reza Pahlevi e, na Inglaterra, Margaret Tatcher fora indicada para Primeira Ministra. Israel e Egito estavam em paz, após o acordo de Camp David, em 1979. No Brasil, adiaram-se as eleições marcadas para 1980, acidente político que levou a novas articulações partidárias. O PT já tinha, também em Piracica­ba, a sua comissão executiva provisória, presidida pelo professor da UNlMEP, José Machado. Foi, então, que a aliança entre Elias Boaventura e o Prefeito João Herrmann Neto se fortaleceu ainda mais: Prefeitura e UNlMEP decidiram, conjuntamente, sediar o 322 Congresso da União Nacional dos Estudantes (UNE), que estava na clandestinida­de, e que tinha sido planejado para realizar-se em São Bernardo do Campo. O líder estudantil e presidente do DCE da UNlMEP, Adelmo Alves Lindo (“Baiano”), articula­ra os entendimentos com o presidente da UNE, o estudante Rui César Costa e Silva.

A princípio, a realização do congresso, em Piracicaba, não encontrou maiores reações de entusiasmo, mesmo porque existiam, ainda, temores no ar, a perda do hábito de participações democráticas. A medida, porém, que se iam cristalizando os primeiros entendimentos, o entusiasmo e a vontade de participação passaram a caminhar em um crescendo, com a imprensa e rádios abrindo espaços e tempo para informações sobre o Congresso, envolvendo-se até mesmo setores tido como conservadores na cidade. A repercussão foi internacional. Elias Boaventura e João Herrmann Neto passaram a ser assunto em quase todos os jornais do país, ouvidos por agências e correspondentes estrangeiros. Além da audácia do patrocínio do evento, havia, também, um claro intuito de provocação e de desafio. Os tempos eram propícios para tais ousadias. O Reitor da UNlMEP, Elias Boaventura, atreveu-se a ir a Brasília convidar o Ministro da Educação, Eduardo Portela, para participar do congresso. Procurou, umbém, o Ministro da Justiça, Ibrahim Abi Ackel. A Prefeitura e a UNlMEP dispunham-se a arcar com custos e com a infraestrutura que se fizesse necessária. Estimava-se a presença de 10 mil estudantes, prevendo-se 70 mil refeições. O “campus” da UNIMEP foi liberado; a Prefeitura cederia o Estádio Municipal e o Ginásio de Esportes, providenciando colchões, acomo­dações. Mobilizou-se a sociedade piracicabana com o “Adote um estudante”. A ESALQ, depois de um tempo de titubeio, ofereceu o Ginásio de Esportes; o Lions Clube aplaudiu; a Câmara Municipal, com exceção do vereador Elias Domingos da Silva (PDS), apoiou a iniciativa, cedendo o Salão Nobre da casa; casas residenciais, repúbli­cas de estudantes movimentaram-se para acolher os congressistas da UNE.

A primeira crise instalou-se dentro da própria Igreja Metodista. O Conselho Regional da Igreja havia manifestado o seu apoio à acolhida que a UNIMEP dava ao Congresso dos estudantes. No entanto, o Conselho dos Bispos da Igreja Metodista, como um colegiado, manifestou-se contrariamente. Paralelamente, a Igreja Católica também se manifestava: D. Cláudio Hunes, Bispo de Santo André, aplaudia a iniciativa, o Cardeal Paulo Evaristo Aros, de São Paulo, estimulava o evento. E, em Piracicaba, surgia a palavra do novo Bispo Diocesano, D. Eduardo Koaik, recém chegado à Diocese, preparando-se, como Administrador Apostólico, para substituir D. Aníger Melilo, que adoecera com gravidade. D. Eduardo Koaik seria responsável, a partir daí, por uma nova e mais definida orientação da Igreja Católica na Diocese, em apoio aos movimentos e organizações populares. Vindo do Rio de Janeiro, D. Eduardo Koaik tinha uma experiência muito grande junto a intelectuais e universitários e na área das comunicações sociais. Suas primeiras iniciativas desgostavam os conservadores e as elites católicas. Mas a sua linha estava defmida pela “opção preferencial pelos pobres”, pelas comunidades ec1esiais de base. Era como se fechasse o círculo defmitivamente: a “república socialista de João Herrmann Neto”, a progressiva “esquerdização” da UNI­MEP, a “opção preferencial” da Igreja Católica pelos movimentos e organizações populares.

O Prefeito João Herrmann Neto brilhou internamente. Nos dias 13, 14 e 15 de Outubro de 1980, Piracicaba foi a “Cidade da UNE”, a primeira vez, após o golpe militar de 1964, que a entidade reunia-se sem repressões, sem violências, sem distúrbios. Mas isso tinha um preço:

Piracicaba ficou, por quatro dias, desassistida. Os serviços de saúde, de segurança, a merenda escolar tiveram, como prioridade, atender os 5 mil estudantes que a cidade abrigou. A TELESP teve que ampliar os seus serviços, montando postos volantes. Na UNIMEP, paralisaram-se as aulas e apenas trabalharam funcionários e professores que haviam dado apoio ao Congresso. Em compensação, os bares e restaurantes da cidade deliciaram-se, com os seus estoques de bebidas, refrigerantes e sanduíches esgotando-se.

À abertura do Congresso, compareceram, entre outros, o metalúrgico Lula, que dava início à organização do PT, o deputado Alberto Goldman, Farid Sawan, represen­tando a Organização pela Libertação da Palestina (OLP), Kahaled Abdul, da Federação dos Trabalhadores Palestinos. Representantes de Cuba e da Nicarágua protestavam por não terem conseguido vistos para o Brasil. O deputado Pacheco e Chaves, saindo de sua linha de equilíbrio e moderação, fazia pronunciamentos tidos como audaciosos no Congresso Nacional. E, para surpresa de muitos, dois Ministros de Estado enviavam congratulações pelo evento: Ibrahim Abi-Ackel, da Justiça, e Murilo Macedo, do Trabalho. No “show” de abertura do Congresso, o 322 da entidade, participaram figuras conhecidas e populares da música brasileira: Gonzaguinha, Elba Ramalho, Sá e Guarabira, João Bosco, Ivan Lins.

Poucos incidentes ocorreram. Mas houve ameaças, creditadas ao Comando de Caça aos Comunistas, o famigerado CCC. Três casos de assaltos ou tentativas de agressões foram noticiados: nas residências do Bispo Metodista Oswaldo Dias da Silva, do pastor Nilo Belotto e do professor da ~ e dirigente do MR-8 José Américo Morelli. As revistas “Veja” e “Isto é” abriram páginas de cobertura jornalística ao evento. No entanto, o “Expositor Cristão”, órgão da Igreja Metodista, protestava através de um metodista piracicabano, Wesley Sucasas. E a revista “O Cruzeiro” – em sua derradeira fase, quando se tomara órgão oficial do governo Figueiredo – ridicularizava o evento, revelando apenas a faceta lúdica do Congresso, a grande festa da juventude. Criticamente, parte da imprensa brasileira destacava o que ela mesma passara a chamar de “Woodstock de Piracicaba”. Na realidade, foi, também, uma grande festa jovem, uma grande manifestação de alegria juvenil. Avaliava-se em 3 mil litros o consumo da “Cachaça da UNE”, doados por um fabricante local. E a imprensa, entre zombeteira e cética, comentava o painel que se instalara à entrada da cidade: “Welcome to the land of marijuana” (“Benvindo à terra da maconha”) … (Recortes de jornais “O Diário”, “Jornal de Piracicaba”, “O Estado de São Paulo”, “Folha de São Paulo” e das revistas “Veja” e “Isto é”, do período de 10 a 20 de Outubro de 1980.)

O fato é que, com o Congresso da UNE, o Prefeito João Herrmann Neto firmou uma sólida aliança com a UNlMEP e deu a tônica do que viria a ser a segunda fase de seu conturbado mandato, uma administração que se voltava para efeitos externos, sem fôlego e estrutura para dar continuidade ao que se projetara para a “república socialista de Piracicaba”. Após o Congresso da UNE, Piracicaba haveria de dividir-se entre duas facções absolutamente irreconciliáveis: “conservadores” e “esquerdistas”. Com uma curiosa constatação: entre “esquerdistas”, havia, também, “conservadores”.

Segunda fase de Herrmann

Após os acontecimentos que se tomaram conhecidos como “Mar de Lama” e a conseqüente renúncia de quase todo o Secretariado, a administração João Hemnann Neto entrou em outra fase e em outro ritmo. Tomou-se difícil, para o prefeito, compor um novo secretariado, pois muitos recusavam-se a fazer parte de sua administração. Dos antigos assessores, permaneceram apenas o então padre, José Maria Teixeira, Aorivaldo Coelho Prates e Francisco Núncio Cerignoni. As dificuldades eram tais que João Hemnann Neto teve que convocar um vereador, Paulo Bortoletto, para a Secreta­ria de Obras Rurais, cuja notoriedade estava no “slogan” que ele próprio criara para si mesmo na campanha de vereador: “Porquêra por porquêra, vote em Paulinho Tranquêra”. Para algumas secretarias, foram convidados nomes desconhecidos à administração e à política municipais: José Eduardo de Mello Ayres, para Esporte e Turismo; José Sérgio Guidotti Alves, para o SEMAE, entre outros. Durante cerca de seis meses, João Herrmann tentou montar o seu novo Secretariado, enquanto corria, na Câmara Munici­pal, a nova sindicância, sobre o episódio “Mar de Lama”. Foi, então, que aconteceu nova crise, a chamada “crise na Saúde”, quando os médicos José Eduardo e Maria Lúcia Passos Jorge passaram a ser acusados de pregar a revolução armada junto à periferia. Na realidade, eram eles os responsáveis, juntamente com o médico sanitarista Alexandre Alves, por uma grande transformação no enfoque da saúde pública em Piracicaba. Eles haviam alterado as prioridades, voltando-se integralmente para as populações periféri­cas. E isso passou a desagradar, ao mesmo tempo, a classe médica e os políticos. Na Câmara Municipal, até mesmo vereadores do PMDB pediam a queda de José Eduardo e Maria Lúcia Passos Jorge. Nesse período, a força da administração concentrava-se num professor da UNIMEP, Barjas Negri, que procurava controlar os radicalismos ideológicos existentes. O casal Passos Jorge, sob pressão, deixou a administração, sendo acompanhado por Francisco Cerignoni, que também renunciou, seguido, algum tempo depois, pelo padre José Maria Teixeira. Substituindo-os, veio o médico João Germano, de Ribeirão Preto, também com idéias de esquerda, tendo Alexandre Alves como o seu braço direito.

Davam-se os contornos fmais ao novo secretariado, sendo convocados para participar da administração um graduado funcionário do SEMAE e jornalista, João Maffeis Neto, que assumiu a Secretaria de Informações, mais Elizabeth Jordão, funcio­nária do SESI, que assumiria a Secretaria de Bem Estar Social. Com eles, criava-se o PAC-Il, ainda inspirado por Enildo Pessoa, Neidson Rodrigues e Paulo Romera.

A meta de João Herrmann Neto passou a ser a sua candidatura a deputado federal, que foi alavancada quando de uma reunião de prefeitos, em Manlia, de protesto contra o Governo Paulo Salim Maluf, em São Paulo. Habilidoso, João Hernnann Neto transfonnou o protesto numa “Frente de Prefeitos”, que proporia uma solução alternati­va de administração pública, tendo Piracicaba como modelo, “Piracicaba, ilha da democracia”, como Hernnann Neto passou a propagar após o Congresso da UNE. Enquanto isso, porém, novos escândalos se sucediam: “O Diário” denunciava, com fotos, o uso de máquinas e material da Prefeitura na construção da chácara do prefeito; o uso de máquinas, pessoal e material do SEMAE na construção da casa do presidente da autarquia, José Sérgio Guidotti Alves, com nova sindicância no legislativo, onde passava a despontar uma nova liderança, o vereador Antonio Fernandes Faganello, tomado líder do prefeito na Câmara Municipal. Faganello, sendo líder da minoria do MDB/pMDB na Câmara, conseguiu vitórias marcantes sobre a maioria, dando condi­ções de governabilidade para João Hernnann Neto. E este, quando se lançou candidato a deputado federal em 1982, realmente podia apresentar um somatório de realizações e mudanças realmente marcantes, ainda que contraditórios. A administração pública se voltara para a periferia. O trinômio “Saúde, Educação, Bem Estar Social” voltara-se realmente para os bairros. Instalaram-se os CEPECs (Centros Poli valentes de Educação e Cultura), 17 postos de saúde, cerca de 50 centros comunitários que eram construídos pelas próprias empreiteiras que, vencendo concorrências para pavimentação e obras urbanas, se comprometiam a construí-1os. Inaugurou-se o Teatro Municipal. Instalou­se o novo centro de captação de Água, no Corumbataí. O projeto Corumbataí foi, realmente, uma iniciativa que impediu que Piracicaba entrasse em colapso quanto ao fornecimento de água potável à população. A nova estação de tratamento, se não resolvia de todo o problema, assegurava o fornecimento que, apenas com o que existia até aí, chegava à exaustão. A partir da inauguração da estação do Capim Fino – com uma caixa d’água para 1 milhão de litros – a administração municipal afinnou que o Corumbataí passava a ser responsável por 90% da captação de água em Piracicaba. (Do livro “Democracia feita em casa”, de João herrmann Neto) Criou-se o CONDEV API, para a defesa do rio Piracicaba. Logo em seguida, a Praça do Protesto Ecológico, que já não existe mais. Os movimentos populares, organizados na FOPOP (Federação das Organizações Populares de Piracicaba), passa raro a ter voz ativa na elaboração do Orçamento Municipal, através de um Conselho Orçamentário dos Cidadãos. Quanto à habitação, as favelas, após o governo de Adilson Maluf, haviam-se multiplicado, chegando-se a cerca de 2 mil barracos em 1983.Criaram-se o PROMORAR e outros projetos, incluindo estímulos ao CURA e aos da COHAB, mas a questão não chegou a ser equacionada com êxito. Na zona rural, especialmente quando da gestão do Secretário Waldemar Gimenez, houve atendimen­tos especiais, incluindo a construção de pontes de concreto onde havia as de madeira, o que possibilitou a futura construção da estrada Piracicaba-Anhumas. Quando se chegou ao fmal da administração Herrmann Neto, a revista “Dirigente Municipal” colocava Piracicaba como a “Cidade Mais Desenvolvida do Brasil”,

Era inegável: com seus erros e acertos, confusões e conflitos, escândalos e provocações, João Herrmann Neto assumia uma posição inquestionável de Íiderança política, especialmente junto às populações mais necessitadas. No entanto, a classe média e as elites afastavam-se dele, realidade que se agravou quando Herrmann Neto, em atitude gratuita e provocadora, derrubou monumentos históricos da Praça José Bonifácio, à guiza de remodelá-Ia. Mas ele era, enfim, um líder novo que despontava, após alguns anos de tragédias que levaram Piracicaba a um vazio político. Infelizmente, como se veria depois, João Herrmann Neto jogou fora, por si mesmo, todo o acervo político que havia construido, tanto em relação a equipe e assessores quanto à própria liderança política da cidade.

FIM

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