O Papel Pioneiro de Piracicaba na Construção Fabril na Província de São Paulo (II)

Figura 01: A Krähenbühl, com seus funcionários no início do século XX. Arquivo Museu Prudente de Moraes.

Figura 01: A Krähenbühl, com seus funcionários no início do século XX. Arquivo Museu Prudente de Moraes.

A primeira indústria a se instalar em Piracicaba foi a Oficina Krähenbühl em 9 de maio de 1870. A Krähenbühl (Figura 01) foi também a primeira metalúrgica da Província de São Paulo e fabricava troles, tílburis, charretes, carroças, carroções, jardineiras e carros fúnebres. Ficava instalada na antiga Rua do Comércio (Governador Pedro de Toledo) e dava fundos para o córrego Itapeva, na grande porção de terras que seu fundador, o suíço Pedro Krähenbühl adquiriu, com as economias que trouxera da Suíça. Como a oficina rendia pouco de início e exigia para sua ampliação, maiores recursos, o proprietário estabeleceu ao seu lado uma casa de ferragens, com ótimas vendas. Auxiliado pelos filhos mais velhos pôde ampliar a pequena oficina, que dotada de máquinas e ferramentas importadas, iniciou uma espécie de guerra ao carro de boi com a fabricação, pela primeira vez na região, de carroças equipadas de eixos fixos independentes. Quando faleceu, Pedro Krähenbühl já era considerado um pioneiro da industrialização do Estado e sua oficina havia se transformado em uma fábrica. Os próprios eixos de aço que inicialmente eram importados de Hamburgo passaram a serem fundidos, temperados e torneados em Piracicaba. Para isso foi instalado um verdadeiro complexo industrial constituído de uma grande serraria, de estufa para maturação da madeira, de extensa secção mecânica com dezenas de tornos mecânicos, ferraria, fundição de ferro e bronze, carpintaria, marcenaria, pintura, etc. Sendo praticamente a única indústria da região, atendia aos pedidos de Piracicaba e municípios vizinhos quanto ao fornecimento de madeira para os mais variados usos, torneamento de rolos de moendas de cana, fabricação de tornos e fogões e também chaminés para residências. Ainda em 1970, a Krähenbühl após cem anos de fundação permanecia em funcionamento no mesmo local. Atualmente se encontra em outro endereço, na margem oposta do Itapeva, atualmente canalizado na Av. Armando de Salles Oliveira.

Quanto aos edifícios da Krähenbühl, a escassa iconografia não nos permite muitas conclusões a respeito das suas tipologias, a não ser a alvenaria aparente e as janelas de guilhotina em arcos de consola, no entanto suas características são comuns em outras edificações industriais do período em Piracicaba.

Segundo Burchard & Bush-Brown (1969), os progressos obtidos na Arquitetura Industrial desse período eram mais tecnológicos que estéticos. As indústrias americanas, como exemplo, eram obrigadas a obedecer a uma série de leis promulgadas entre 1860 e 1870, que diziam respeito à saúde e segurança. No entanto, não eram ainda identificados bons projetos de uma unidade de produção com prestígio, e também havia poucas pressões sociais, econômicas e políticas para que os operários recebessem algumas comodidades (Burchard & Bush-Brown, 1969).

A Arquitetura Industrial consistia apenas nos edifícios necessários à armazenagem da matéria prima, manufatura e distribuição dos produtos. Ao engenheiro de fábrica competia erguer edifícios de baixo custo, estáveis, resistentes ao fogo e que suportassem movimento de máquinas pesadas e vibrantes. Os prédios deviam ser protegidos de incêndios ou explosões de caldeiras, de arranjo compacto que possibilitasse o transporte dos materiais em longos carretos por meio de polias e correias. A construção deveria ser muito duradoura, com sólidas paredes de tijolos que suportassem pesadas vigas de madeira (Burchard & Bush-Brown, 1969).

Para Burchard & Bush-Brown (1969), nem o cliente, nem o arquiteto consideravam a arquitetura da fábrica um tema digno de um profissional destacado. Os industriais não tinham o costume de considerar suas sedes de produção como esteticamente significativas, e os arquitetos, quando contratados, não tinham como principal preocupação projetual, a estética. A alvenaria aparente era empregada com tanta frequência, também pela falta de necessidade de acabamentos refinados que exigissem apliques decorativos, ou quaisquer elementos ornamentais. Com o passar do tempo, a Arquitetura Industrial se desenvolveu e também, em vários casos, mereceu tratamento estético diferenciado (Burchard & Bush-Brown, 1969).

Assim, verificamos que em Piracicaba a mais marcante característica da construção fabril é o emprego da alvenaria aparente e demais sistemas de instalação industrial consonantes com o período em todas as instalações industriais pioneiras da cidade, atributo que viria a destacar as construções fabris na paisagem cultural da cidade.

Marcelo Cachioni
Diretor do Departamento de Patrimônio Histórico do IPPLAP Piracicaba-SP
Professor de Patrimônio Histórico na ASSER Rio Claro-SP e Técnicas Retrospectivas na FIEL Limeira-SP.

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