O Papel Pioneiro de Piracicaba na Construção Fabril na Província de São Paulo (VI)

Figura 05: Edifício 5 - antiga Moenda, com a fachada original. (Pinto & Zenha, 1990).

Figura 05: Edifício 5 – antiga Moenda, com a fachada original. (Pinto & Zenha, 1990).

A ‘Societé des Sucreries Bresiliennes’ foi com o tempo substituindo os antigos edifícios por outros, com o processo de desenvolvimento, conforme a necessidade a partir da década de 1920. O padrão de alvenaria aparente foi seguido sempre em todas as construções, algumas mais elaboradas que outras.

Muitos profissionais trabalharam em distintas construções no complexo fabril. Destacamos o dinamarquês Dr. Holger Jensen Kok (*) que dirigiu a empresa entre 1911 e 1920, responsável, entre outras obras, pelo muro de arrimo de alvenaria de pedra que percorre a extensão da área, que foi construído também sob a responsabilidade de Manoel Lourenço; os franceses Daniel Rinn, que construiu o edifício da destilaria (Edifício 6) em 1916 e o prédio dos escritórios em 1937 (Prédio 4); Jean Balboud engenheiro químico, que substituiu o engenheiro Rinn na década de 1930, construiu o prédio da moenda (Edifício 5) e chaminés, tendo permanecido na ‘Usinas de Açúcar Brasileiras’ até 1955, quando ingressou na ‘Metalúrgica Dedini S.A.’; Marc Mourras, que projetou o portal de entrada e Maurice Allain, um dos administradores da ‘Societé de Sucrerie Brèsilliennes, o qual era sócio da empresa desde 1899 e a presidiu entre 1907 e 1932. Há também o registro da participação do engenheiro Garcez de São Paulo, na construção de uma das chaminés, que também pode ter contribuído na construção de outras obras no local.

Da época do ‘Engenho Central’ não restou aparentemente mais nenhuma construção, apesar de algumas obras terem sido construídas aproveitando arcabouços existentes anteriormente, como no caso do Edifício 5 (Figura 05), antiga moenda. Este edifício foi ampliado ganhando nova fachada e provavelmente tenha sido projeto de Baulboud a ampliação, e não a construção original que já fazia parte do bloco original do complexo. A nova fachada de linhas clássicas e simétricas tem um frontão ornamentado que exibia originalmente um relógio. As envasaduras foram projetadas em vergas retas e em arcos abatidos e nesse caso os tijolos também foram utilizados para ornamentação. O atual estado de conservação do edifício, com um recorte na fachada prejudica a sua leitura.

Das construções promovidas pelos franceses cabe destaque também o prédio da antiga Destilaria (Edifício 6) e o edifício do Escritório (Prédio 4), atribuídos ao engenheiro Rinn, as quais revelam extrema habilidade construtiva. A data original de construção da destilaria é de 1916, conforme forjado na bandeira da entrada principal, porém o prédio foi ampliado em 1934, quando o corpo central ganhou mais dois blocos. Foi edificado com paredes de alvenaria aparente, estruturadas por vigas, pilares e peças intertravadas, todos metálicos. Inclusive, este sistema estrutural, que é modulado, possibilitou as ampliações de pavimentos, pois as peças estruturais puderam ser reproduzidas e encaixadas. O edifício reúne vários tipos de envasaduras, desde os vãos em arco pleno até janelas envidraçadas de guilhotina, sendo que todas as quatro fachadas diferem entre si, e curiosamente, a fachada principal tem menos visibilidade, por conta de sua implantação próxima e fronteira ao bloco dos pavilhões gêmeos, onde funcionavam a fábrica e a refinaria.

Já o prédio do Escritório foi construído seguindo um padrão muito próximo ao residencial, com arcabouço em alvenaria de pedra, janelas de guilhotina e venezianas e uma varanda cujos acessos se davam para o escritório do administrador e também para as demais salas de trabalho. O destaque deste edifício é para a ornamentação construída caprichosamente com tijolos, que além de decorativos são estruturais, utilizados nas pilastras, balaústres e vergas.

Da presença dos franceses ressalta o paisagismo aplicado entre a antiga residência do administrador (também construída em alvenaria aparente, com detalhes e ornamentação em tijolos), e o Escritório. Desde a residência, um espelho d’água cercado por um caramanchão, em frente ao prédio, faz ligação através de escadaria, com a área do escritório, cujo acesso para os dois se dá por uma escadaria em leque.

Outras edificações foram acrescidas ou eliminadas conforme a necessidade, especialmente os armazéns que se situam após o antigo pátio ferroviário, à esquerda, no complexo. Os armazéns (edifícios 14, 14A, 14B e 14C), seguiram programas semelhantes modulados de acordo com o tamanho necessário.

* O Dr. Holger Jensen Kok nasceu numa pequena cidade da Dinamarca em 26 de outubro de 1868. Formou-se engenheiro civil pela Escola Politécnica de Copenhague em 1893. Em 1895 foi contratado para montar uma indústria de açúcar em Pernambuco, tendo se especializado nesse ramo industrial e se consagrado como pioneiro da moderna indústria açucareira no Brasil. Em 1899 foi convidado para dirigir o Engenho Central de Piracicaba cuja função exerceu até 1927. Dotado de uma personalidade marcante e de grande atividade empreendedora, o Dr. Kok foi um dos pioneiros da navegação do rio Piracicaba, cujos vapores abasteceram de madeira a Serraria Aliança, no centro de Piracicaba. Foi também juiz de paz na Vila Rezende e participou intensamente de movimentos cívicos e políticos, apesar de não ser brasileiro. Além de suas atribuições profissionais no Engenho Central, construiu alguns imóveis como: o Grupo Escolar da Vila Rezende e o Externato São José, além de residências.

Marcelo Cachioni
Diretor do Departamento de Patrimônio Histórico do IPPLAP Piracicaba-SP
Professor de Patrimônio Histórico na ASSER Rio Claro-SP e Técnicas Retrospectivas na FIEL Limeira-SP.

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