O Papel Pioneiro de Piracicaba na Construção Fabril na Província de São Paulo (VIII)

Figura 06: Empresa Hidráulica ao lado do salto de Piracicaba. Arquivo Câmara Municipal de Piracicaba

Figura 06: Empresa Hidráulica ao lado do salto de Piracicaba. Arquivo Câmara Municipal de Piracicaba

A água encanada e a luz elétrica chegaram às casas piracicabanas ainda no século XIX. Carlos Zanotta, construtor italiano, com larga experiência em construção, aliado ao empresário João Frick, apadrinhado do Visconde de Mauá, introduziram tecnologias avançadas na cidade e proporcionaram uma situação de pioneirismo em relação às outras cidades brasileiras com a instalação da rede de água encanada. Antes disso, a população se servia de bicas. Os dois rios que abasteciam a cidade, o Piracicaba e o Itapeva, ficaram rapidamente poluídos, principalmente o segundo, que recebia as barricas de detritos das residências, todos os dias.

Em 1885, foram encaminhadas quatro propostas para o abastecimento de água encanada e instalação de luz elétrica. Os vencedores foram João Frick e Gregório Gonçalves, mas os vereadores resolveram deixar a iluminação pública para mais tarde. Em 1886, Frick trouxe da cidade de Pelotas, o construtor italiano Carlos Zanotta,

o qual tinha uma pequena participação na ‘Frick & Company’. Em Piracicaba, a empresa adotou o nome fantasia de ‘Empreza Hidráulica de Piracicaba’, e os trabalhos foram iniciados em 23 de maio de 1886 com as obras de escavação para a construção dos reservatórios semienterrados, duas pequenas edificações para guarda entre as Ruas Silva Jardim, Cristiano Cleopath e Marechal Deodoro.

Zanotta trouxe da Itália o pedreiro e especialista em assentamento de pedras Carlos Adâmoli (1847-1817) o qual construiu com Zanotta o complexo do serviço de água ainda existente ao lado do Salto do Rio Piracicaba, onde atualmente se instalou o Museu da Água ‘Francisco Salgot Castillon’. Construído em alvenaria aparente, com arcadas, e com parte do complexo enterrado embaixo da atual Avenida Beira Rio, ainda se encontra em funcionamento, fazendo parte do Museu.

O reservatório de água do complexo do abastecimento foi inaugurado por D. Pedro II, em 2/11/1886. Após a festa da inauguração surgiram os problemas, pois o contrato assinado não previa a filtragem e clarificação da água, o que levou o povo a batizá-lo como o ‘contrato da água suja’. E alguns anos depois, a questão dos esgotos demonstrou que o volume do abastecimento era insuficiente, obrigando o município a concessões lesivas à firma concessionária para solucionar o problema sendo que os chafarizes ainda permaneciam necessários.

A ‘Empreza Hidráulica de Piracicaba’ deixou de existir com a saída de João Frick da sociedade, passando a se denominar ‘Companhia de Melhoramentos Urbanos de Piracicaba’, fundada em maio de 1900, pelos sócios Carlos Zanotta e Tito Ribeiro.

As instalações industriais construídas para o sistema de abastecimento de água encanada na beira do Salto de Piracicaba (Figura 06) seguiram o padrão em alvenaria aparente de tijolos semelhante às edificações do Engenho Central e da Santa Francisca, além do uso da alvenaria de pedras, devido à presença de basalto em toda a região. As aberturas foram executadas em arco pleno arrematadas com bandeiras de ferro forjado e a cobertura foi estruturada em abobadas de berço que sustentam uma laje. O destaque para o conjunto é a camarinha que dá acesso ao canal, que apresenta acabamento em bossagem, platibanda com cimalha e um portão de ferro forjado trabalhado artisticamente. Algumas instalações receberam acabamento variado, e devido a reformas posteriores, fica impossibilitada uma análise mais profunda. As antigas instalações da empresa sediam atualmente o Museu da Água, com ações educativas sobre a preservação dos recursos hídricos.

Quanto à iluminação pública, algumas ruas de Piracicaba eram iluminadas a querosene desde 1874. Com o término do contrato, a Câmara decidiu não renová-lo e

abrir concorrência para iluminação pública movida à eletricidade. Quatro propostas foram apresentadas em novembro de 1885 para a implantação do sistema. Em maio de 1890, a Intendência Municipal encarregou os vereadores Paulo Pinto e Dr. Paulo de Moraes a estudar o projeto de Luiz de Queiroz, contendo 48 cláusulas, e duração de 35 anos, cujo contrato foi assinado no mesmo ano.

No ano seguinte, o eng. Arthur D. Sterry passou a ser procurador de Queiroz, junto à Intendência nos trabalhos de montagem, quando solicitou a concessão do terreno nas margens do Salto, entre a Fábrica de Tecidos Santa Francisca (Boyes) e a Empresa Hidráulica, para a montagem de uma estação central destinada à produção de eletricidade. Após a obtenção do terreno, em 13 de junho de 1891, foi assinado o contrato definitivo, o qual venceria em 6 de setembro de 1928. No início de 1892, o material para a instalação chegou ao Porto de Santos. Porém, em 30 de outubro do mesmo ano, o empresário pediu prorrogação dos prazos de entrega, pois o material importado ainda estava retido nas docas. Após a liberação, o eng. eletricista americano Dr. T. Alvin Call, o qual havia sido trazido para montar o maquinário, pode finalizar a montagem da usina composta por duas turbinas com 250 cavalos de força e 3 dínamos, da Thompson & Houston. O maior era destinado à iluminação particular, com 1.200 ampères e os outros dois, à iluminação pública, desenvolvendo 770 ampères.

Marcelo Cachioni
Diretor do Departamento de Patrimônio Histórico do IPPLAP Piracicaba-SP
Professor de Patrimônio Histórico na ASSER Rio Claro-SP e Técnicas Retrospectivas na FIEL Limeira-SP.

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